Costurar máscaras cirúrgicas em vez de vestes litúrgicas, ou como combater a pandemia no convento

| 3 Abr 20

religiosas fazem mascaras cirurgicas covid-19

O fabrico das vestes litúrgicas deu lugar ao das máscaras cirúrgicas. Foto © Paróquia de Draguignan

 

À medida que a pandemia alastrava, a angústia crescia no pequeno mosteiro do sul de França onde vivem as Irmãs da Consolação do Sagrado Coração e da Santa Face. As 25 religiosas queriam fazer mais do que rezar. Diante da imagem de Nossa Senhora do Pópulo, que acreditam ter salvo a sua região da peste em 1524, pediram que lhes fosse dada uma tarefa: queriam colaborar com a Virgem no combate a esta nova pandemia. No dia seguinte, receberam um telefonema do bispo da diocese e outra do presidente da câmara: ambos lhes pediam para fabricar máscaras.

Foi assim que, nesse mesmo dia, o modesto ateliê de confeção de ornamentos e vestes litúrgicas do convento se transformou numa fábrica de máscaras cirúrgicas. Numa semana, produziram mais de 1000 unidades, seguindo todas as regras de segurança e higiene transmitidas pela câmara municipal.

“A necessidade é enorme, nós estamos a fazer tudo o que podemos, e é o próprio presidente da câmara que vem buscar as máscaras”, explica a irmã Agnès, uma das 25 religiosas desta comunidade. Mas não deixaram de rezar. Está a seu cargo a adoração perpétua do Santíssimo Sacramento na paróquia local, Draguignan, onde já aproveitaram para pedir aos fiéis que ofereçam tecidos para a confeção das máscaras.

 

“Estão conscientes de que podem morrer”

Um pouco por todo o mundo, as comunidades de religiosas têm vindo a colocar-se, das mais diversas formas, ao serviço dos doentes, algumas delas na linha da frente e arriscando a própria vida. É o caso das Irmãs de São Camilo, que gerem cinco hospitais em Itália, dos quais três estão a prestar cuidados aos doentes de covid-19.

Inúmeras religiosas que trabalham nestes hospitais estão já infetadas e em quarentena. Mas as restantes afirmam não ter medo. Pelo contrário: “Nós fazemos um quarto voto, além dos três votos clássicos de pobreza, obediência e castidade: o de servir os doentes, mesmo que seja à custa das nossas vidas. Talvez em anos passados, para muitas de nós, este voto se tenha desvanecido, mas hoje volta com força a ter toda a sua atualidade”, explica a irmã Lancy Ezhupara, diretora do Hospital São Camilo de Treviso, que se diz comovida pela “total disponibilidade” das companheiras. “Estão conscientes de que podem morrer, mas repito: a força vem-nos da oração, da intercessão de São Camilo, e do nosso quarto voto.”

A oração constante é, para as comunidades de religiosas, uma frente essencial no combate à pandemia. Há irmãs a pendurar megafones nas varandas dos mosteiros para que todos os vizinhos possam rezar o terço com elas, há novenas e orações transmitidas em direto nas redes sociais, e mesmo as monjas de clausura têm a capacidade de se fazer presentes. Em Bérgamo, uma das regiões italianas mais afetadas pela pandemia, as irmãs do mosteiro beneditino de Santa Grata acompanham diariamente ao telefone os profissionais do hospital da cidade, “que estão a colapsar”. “Contam-nos a tragédia vivida na primeira pessoa. Nós fazemos a nossa parte, sem esquecer que o corpo também tem uma alma que deve ser protegida, salva”, explica a madre superiora, Maria Teresa. “A guerra contra o coronavírus pode vencer-se também assim.”

 

Vaticano oferece 30 ventiladores

Não apenas nas comunidades de religiosas, mas também nas paróquias, dioceses e comunidades católicas de todo o mundo têm-se multiplicado iniciativas de solidariedade no combate à pandemia. A começar pelo Vaticano, que ofereceu recentemente 30 ventiladores aos hospitais italianos.

Na diocese de Milão, foi criado um fundo solidário para quem perdeu o emprego devido à crise do coronavírus. Em Madrid, uma só paróquia conseguiu angariar cinco toneladas de alimentos para distribuir pelos mais necessitados. Já a catedral de Córdoba irá entregar 100.000 euros à Junta da Andaluzia para a aquisição de material de saúde. 

Na Ásia, diversas escolas católicas das Filipinas abriram as portas para acolher sem-abrigo, enquanto na Índia uma cadeia de televisão católica lançou um programa de ajuda alimentar e uma associação de hospitais da Igreja colocou à disposição do governo todas as suas instituições, com mais de 60 mil camas, para ajudar no combate à pandemia. Em Mianmar, a Igreja disponibilizou espaços em todas as dioceses do país para servirem como centros de quarentena, nas proximidades dos hospitais. 

Do outro lado do mundo, no Chile, casas de retiro e espaços de congregações religiosas foram disponibilizados para acolher as pessoas infetadas que não apresentem sintomas da doença.

Estes são apenas alguns dos exemplos da mobilização católica em todo o mundo no combate à pandemia. A lista foi crescendo dedse o início, continuará seguramente a crescer.

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