Covid-19: Afinal, não estamos todos no mesmo barco e é tempo de resolver isso

| 13 Mai 20

foto retirada do site do barometro covid 19

E agora, vamos responder de forma diferente a esta crise? Foto: Direitos reservados/página da ENSP dedicada ao barómetro covid 19

 

Estamos todos no mesmo barco”, disse o Papa Francisco, a propósito da pandemia de covid-19. Mas será que estamos mesmo? Talvez uma ligeira adaptação da metáfora possa descrever melhor várias realidades: estamos todos no meio da mesma tempestade, mas em barcos diferentes. Ou pelo menos é isso que sugerem vários estudos que têm vindo a ser publicados e que estabelecem uma relação direta entre fatores socioeconómicos e as consequências da covid-19. Um pouco por todo o mundo, as conclusões são as mesmas: os mais pobres e marginalizados são os que mais perdem, mais adoecem e mais morrem com o novo coronavírus. Perante isto, há quem comece a dizer que é tempo de decidir e a perguntar: deixamos que as desigualdades continuem a acentuar-se ou vamos responder de forma diferente a esta crise?

Em Portugal, a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa (ENSP), que criou o Barómetro Covid-19 para estudar e acompanhar a evolução da pandemia, revelou esta semana que “a crise da covid-19 está a afetar desproporcionalmente os mais vulneráveis” e a “aumentar o fosso das desigualdades”, sendo que uma das conclusões dos dois últimos relatórios divulgados é a de que os concelhos com maiores taxas de desemprego e maiores desigualdades de rendimento são aqueles que têm também maior número acumulado de casos de covid-19.

Os investigadores da ENSP estenderam o estudo a 15 países europeus e concluíram que “este não é um fenómeno nacional”. Numa análise centrada em apenas dois dos indicadores de desigualdade – o desemprego e o índice de Gini – a maior incidência acumulada de casos de infeção por 100 mil habitantes surge associada aos países com maior taxa de desemprego e desigualdade de rendimento.

Estas conclusões “não são surpreendentes para quem estuda as questões da desigualdade”, afirma Céu Mateus, professora catedrática de Economia da Saúde na Universidade de Lancaster (Reino Unido). No entanto, “vêm contrariar um pouco aquela ideia de que se falava muito no início de que a covid-19 era democrática e qualquer pessoa podia ser contagiada”, sublinha.

É verdade que a infeção “pode chegar a qualquer pessoa”, independentemente da sua etnia, profissão ou estrato social, “e já vimos políticos como [o primeiro-ministro britânico] Boris Johnson ou diversos atores de Hollywood a serem contagiados”, exemplifica Céu Mateus. Mas, “em simultâneo, os estudos indicam que a taxa de mortalidade é superior entre os mais desfavorecidos”, alerta, em declarações ao 7MARGENS.

 

Ser pobre é um fator de risco

De facto, um outro estudo norte-americano, citado pelo Barómetro Covid-19, aponta o exemplo do estado de Chicago, em que mais de 50% dos casos de covid-19 e 70% das mortes provocadas pela mesma ocorreram na população de origem africana, apesar de os negros corresponderem a apenas 30% do total de habitantes naquela região.

Estes números podem ser, em parte, explicados pelo facto de existir uma maior prevalência de casos de hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares naquela população específica. Mas isso, por si só, não justifica uma percentagem tão elevada de infeção, assegura o estudo. “Onde e como vivem estas pessoas importa”, defendem os investigadores. “As comunidades onde muitas das pessoas negras vivem ficam em áreas pobres, caracterizadas por elevada densidade habitacional, altas taxas de crime e acesso limitado a alimentação saudável”, referem.

“Pertencer a um estrato socioeconómico baixo é, por si só, um fator de risco para a mortalidade, independentemente de outros fatores de risco”, conclui o estudo. Até porque, se “a estratégia mais eficaz conhecida para conter o contágio por covid-19 é o distanciamento social, isso representa um desafio para os mais pobres”, sublinham os investigadores. “Ter a possibilidade de manter a distância social enquanto se trabalha a partir de casa ou participa numa série de eventos sociais virtuais são questões de privilégio”, conclui o estudo norte-americano.

Também os dados do Instituto Nacional de Estatística britânico, revelados na semana passada pelo jornal The Guardian, indicam que os negros têm quatro vezes mais probabilidade de morrer de covid-19 do que os brancos. O estudo conclui que, à exceção das mulheres de etnia chinesa, todos os outros perfis étnicos têm maior probabilidade de morrer com o coronavírus do que os caucasianos.

Baseado na análise do número de mortes por coronavírus registado em Inglaterra e no País de Gales entre 2 de março e 10 de abril, o estudo indica que alguns dos motivos por detrás desta tão grande disparidade estão ainda por descobrir, “mas os resultados mostram que a diferença se deve, em parte, à desvantagem socioeconómica.”

A percentagem de pessoas pertencentes a minorias étnicas a viver em casas sobrelotadas, por exemplo, é muito superior à de pessoas brancas.  Tal como é bastante superior nestes países o número de pessoas negras e originárias do Bangladesh e do Paquistão a desempenhar trabalhos que implicam uma maior exposição ao vírus, nomeadamente nos transportes e restauração, indica o estudo.

 

Ciganos como “bodes expiatórios”

Ciganos no Bairro dos Formarigos (Bragança)

Ciganos no Bairro dos Formarigos (Bragança): a situação destas comunidades está a passar “de má para uma total catástrofe” em vários países da Europa. Foto © Catarina Marcelino, cedida pela autora.

 

Um outro estudo também divulgado pelo The Guardian, realizado pela organização internacional Open Society Foundations (OSF), analisou a situação do povo cigano, que constituiu a mais representativa minoria étnica na Europa e que está, também ela, a ser “particularmente atingida pelo coronavírus”.


A análise alerta para o facto de “cerca de 80% dos 10 milhões de ciganos a residir na Europa viverem em bairros densamente povoados, casas sobrelotadas, e muitas delas sem água corrente. Isto significa que as medidas básicas de higiene e distanciamento exigidas para combater a disseminação do vírus são difíceis de pôr em prática.”

A OSF analisou em particular a situação vivida em seis dos países onde as comunidades ciganas são mais representativas (Bulgária, Hungria, Itália, Roménia, Eslováquia e Espanha) e alerta para o facto de, em alguns deles, as comunidades roma estarem a ser utilizadas como “bodes expiatórios” para justificar a maior propagação da doença.

Na Eslováquia, cinco acampamentos de ciganos foram colocados em isolamento sob supervisão de forças policiais durante o mês de abril, numa ação que afetou mais de quatro mil pessoas e que diversas associações de defesa dos direitos humanos apelidaram de “discriminatória”. “Mesmo que existissem motivos de preocupação, as medidas de segurança não foram acompanhadas de medidas adequadas de higiene, saúde e ação social. Inúmeras pessoas foram deixadas sem água e medicação”, denuncia Zeljko Jovanovic, responsável da OSF para as iniciativas relacionadas com o povo cigano e um dos autores do relatório.

O estudo conclui que “este desastre está a intensificar os conflitos inter-étnicos ao nível mais elevado das últimas três décadas” e que “a culpa está a ser transferida dos problemas estruturais dos estados para as próprias pessoas, sob a acusação de estas não serem asseadas”.

Ao mesmo tempo, a situação em que vivem as comunidades ciganas “está a passar de má para uma total catástrofe”, alerta Zeljko Jovanovic. A maioria perdeu as suas fontes de rendimento e não é elegível para receber ajudas dos governos, indica o estudo, sublinhando que as crianças estão a ser particularmente afetadas, dado que inúmeras famílias não têm internet em casa ou não dispõem de computadores suficientes para todos os filhos, o que impossibilita o acesso ao ensino à distância.

 

Desfavorecidos ficam sem rendimentos ou mais expostos ao vírus

Também em Portugal o grupo de estudo da ENSP concluiu que, “para além de o peso da pandemia ser distribuído de forma desigual nos concelhos e nos países, a própria covid-19 pode ser promotora de desigualdades”. As “consequências económicas da doença e do confinamento, como o desemprego ou redução das fontes de rendimento, podem afetar desproporcionalmente os grupos mais vulneráveis”, afirmam.

Com base num questionário realizado a quatro mil residentes em Portugal, o Barómetro Covid-19 concluiu que “uma em cada quatro pessoas que ganhavam menos de 650 euros mensais (por agregado familiar), perderam totalmente o seu rendimento, enquanto que nas categorias de rendimentos superiores a 2500 euros, apenas 6% de pessoas perderam o seu rendimento”.

Céu Mateus acrescenta que “além das muitas pessoas que tinham rendimentos baixos e que ficaram completamente sem rendimentos, grande parte das restantes são as que estão em trabalhos com sobre-exposição ao vírus”. E sublinha que “há quem se queixe de estar em teletrabalho, mas esquece-se de que a alternativa ao teletrabalho é não ter trabalho nenhum ou estar muito mais exposto”.

As respostas ao questionário da ESPN corroboram isso mesmo. “É nos escalões de rendimento mais baixos que se verifica a maior proporção de pessoas a ter de ir para o local de trabalho para exercer a sua atividade: 54% das pessoas que ganha menos de 650 euros tem de se deslocar para o local de trabalho, enquanto que 75% das pessoas com rendimentos superiores a 2.500 euros está a desenvolver a sua atividade profissional em teletrabalho”, indicam os dados do último relatório, divulgado esta terça-feira, 12 de maio.

 

Como promover a igualdade de oportunidades para todos?

A especialista em Economia da Saúde recorda que “a crise que o mundo viveu em 2011 contribuiu para aumentar as desigualdades” e teme que, “se agora respondermos da mesma forma, o resultado seja um agravamento dessas desigualdades”.

Estamos, por isso, perante “um desafio grande”, que implica “capacidade de liderança e coragem para fazer diferente”, defende. O objetivo? Construirmos “sociedades solidárias e com igualdade de oportunidades para todas as pessoas.” Como atingi-lo? Na opinião da professora da Universidade de Lancaster, uma das medidas a tomar consiste em “reconverter e formar as pessoas que ficaram desempregadas, para que possam desempenhar outras funções.” Céu Mateus considera que “muitas das pessoas que perderam o seu emprego na área do turismo, por exemplo, poderão ser encaminhadas para a área da saúde”.

Mas nesta fase decisiva o papel principal deverá ser protagonizado precisamente pela educação dos mais jovens, sem esquecer as crianças e adolescentes das famílias desfavorecidas. “Se não conseguirmos apoiar essas crianças, elas serão triplamente prejudicadas: têm mais pessoas na família a morrer ou a ficar doentes, têm piores condições de vida e não têm acesso à educação, o que vai comprometer o seu futuro”, alerta Céu Mateus. “Não podemos esquecer que os jovens que têm neste momento 16, 17 anos deveriam estar, daqui a cinco anos, a terminar a sua licenciatura. Se não apostarmos na educação deles agora, será impossível evitar um efeito dominó”, avisa.

Os últimos números do Barómetro Covid-19 suportam a tese de Céu Mateus: as diferenças entre quem tem de se deslocar para o local de trabalho, e por isso está mais exposto ao novo coronavírus, são ainda mais acentuadas quando é tido em consideração o nível de escolaridade. “Os dados mostram-nos que são as pessoas menos escolarizadas que poderão estar mais expostas: 76% das pessoas com até ao 9º ano de escolaridade tem de ir para o local de trabalho, enquanto que esta proporção desce para 26% nas pessoas com ensino superior”, explica a coordenadora científica do estudo, Sónia Dias. “São também as pessoas com menor escolaridade que mais referem não saber, ou não se terem informado sobre como utilizar as máscaras protetoras”. O que, acrescenta a investigadora, “pode sugerir uma possível acumulação de risco”. E, não menos importante, este último questionário revela que, entre as pessoas com o 9º ano ou menos de escolaridade, metade perdeu totalmente o seu rendimento na sequência da pandemia.

Não que fosse necessário, mas estes dados reforçam a certeza de Céu Mateus em relação ao conselho mais importante que pode deixar nesta fase: “A educação é o melhor investimento que qualquer sociedade pode fazer.”

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