Covid-19 e Fiéis Defuntos

| 1 Nov 20

 

Cemitério. Morte.

Cemitério dos Prazeres. Lisboa. Foto © Maria Wilton/Arquivo 7Margens

 

Permitam-me que comece por uma declaração pessoal clarificadora.

Tenho a experiência de vários membros de família, muito queridos, já falecidos. Os meus pais, uma irmã, os meus sogros e os meus cunhados, alguns em situação muito dolorosa. Vários grandes amigos foram também já chamados para Deus. Não sou, pois, insensível ou inexperiente face à partida para a casa do Pai de familiares ou entes queridos. Devo também acrescentar, a título de clarificação, que não tenho por hábito visitar os túmulos dos meus entes queridos nestes dois primeiros dias do mês de Novembro. Homenageio a sua memória em eucaristias, nos aniversários da sua partida para a vida eterna.

Nada me move, no entanto, face aos que dessa forma, visitando os cemitérios, procuram sanar as feridas, por vezes profundas, abertas pela saudade humana dos que já vivem no seio do Pai.

Em 12 de outubro deste ano, o conselho permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) divulgou uma nota sobre a próxima comemoração dos Fiéis Defuntos (2 de novembro), pedindo às autoridades que evitem o encerramento de cemitérios, em dias “intensamente sentidos pela piedade dos fiéis católicos”. Acrescentam os bispos portugueses: “É certo que não depende da Igreja a gestão da grande maioria dos cemitérios nacionais. Confiamos, porém, que as autarquias e entidades que os tutelam saberão interpretar as exigências do bem comum encontrando um justo, mas difícil equilíbrio entre os imperativos de proteger a saúde pública e o respeito pelos direitos dos cidadãos”, indica o documento do conselho permanente da CEP, intitulado “Avivar a chama da esperança”. O texto foi apresentado aos jornalistas no final da reunião mensal deste organismo, em Fátima, pelo secretário da CEP, padre Manuel Barbosa.

O conselho permanente da CEP sublinha que a solenidade de Todos os Santos (1 de novembro), feriado nacional, e a comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (2 de novembro) são marcadas por “uma romagem de fé e esperança aos cemitérios”. Seremos uma religião de “defuntos” ou de “ressuscitados”?

Já em 12 de outubro era previsível o agravamento da situação pandémica em que o país vive, pelo que já então seria, completamente, desaconselhável qualquer episódio que conduzisse a aglomerações sempre difíceis de respeitar as regras aconselhadas à interrupção das cadeias de transmissão. Já então seriam, pois, desaconselháveis as tradicionais romagens aos cemitérios.

Porque sou cristão e católico, tenho para mim que, sem desmerecer em nada todos aqueles cuja saudade humana leva, em especial, nestes dias aos cemitérios, existe a realidade da ressurreição e da vida eterna.

E assim rezamos, frequentemente, na celebração eucarística: “Nele brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola. Senhor, para os que crêem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível. E, enquanto esperamos a realização de vossas promessas, com os anjos e com todos os santos, nós vos aclamamos cantando a uma só voz…

Deparar-se com a morte, seja ao refletir sobre a nossa própria finitude, seja ao sofrer a perda de alguém querido, é sempre uma experiência difícil e por vezes fortemente traumática, quando despida do dom da Fé. É Cristo quem o afirma: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá”. (João 11:25-26). Por muito forte que seja a dor humana e o sentimento de perda, “Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram”. (1 Tessalonicenses 4:14).

Sabemos que, se for destruída a temporária habitação terrena em que vivemos, temos da parte de Deus um edifício, uma casa eterna nos céus, não construída por mãos humanas (2 Coríntios 5:1). À luz da nossa Fé, alicerçada nos ensinamentos de Jesus e fortalecida pelos textos dos Evangelhos e das Epístolas, a passagem para a casa do Pai será para os cristãos, uma sempre dolorosa experiência, mas simultaneamente a certeza da entrada na vida eterna. A tristeza é humana, Jesus chorou na morte do seu amigo Lázaro, mas “aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola”.

Nas atuais circunstâncias de pandemia em que vivemos mergulhados, exige-se aos cristãos um testemunho forte da sua Fé e, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa Fé. Não é, pois, a memória da morte que nos une ao crucificado, mas a certeza da sua ressurreição.

Porque não condicionar as visitas aos cemitérios, evitando-a este ano, em nome de um valor mais forte que é a preservação da vida?

Com a tradução livre de uma oração (de Henry Scott-Holland, em 1910, por vezes atribuída a Santo Agostinho), poderemos rezar

A morte não é nada

Eu apenas passei para o outro lado. Eu sou eu e tu és tu. O que fomos um para o outro, ainda o somos. Chama-me pelo nome que sempre utilizaste, fala comigo da forma descontraída com que sempre fizeste. Não mudes o teu tom de voz, não uses um tom solene ou triste.

Ri como sempre fizemos com aquilo que nos fazia rir juntos. Brinca, sorri, pensa em mim, reza por mim.

Deixa que o meu nome seja pronunciado em casa como sempre foi. Sem nenhum esforço, sem rosto de sombra.

A vida significa aquilo que sempre significou. É o mesmo que sempre foi, há uma continuidade inquebrável. Porque haveria eu de estar fora da tua alma, só porque estou fora da tua vista?

Eu estou apenas à tua espera, por um intervalo, algures muito perto, mesmo ao virar da esquina.

Está tudo bem.

 

Fernando Gomes da Silva é engenheiro agrónomo

 

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