Covid-19: por que meter Deus ao barulho?

| 23 Mar 20

As pessoas religiosas têm tipicamente dois tipos de atitudes perante a tragédia da covid-19. Em primeiro lugar, os mais fanáticos chegam a defender que é um castigo de Deus (a ministra da Defesa do Zimbabué disse-o há dias). O problema é que, nesse caso, estamos perante uma inconsistência ou contradição lógica básica. Pois, suponha-se para fins argumentativos que há Deus e que a covid-19 é um castigo de Deus. Ora, se há Deus, sendo ele omnipotente, omnisciente, e omni-benevolente, então as ações de Deus respeitam a proporcionalidade da justiça. Mas, se a covid-19 é um castigo de Deus, então, dada a natureza de tal vírus que afeta indiscriminadamente as pessoas morais e imorais (isto é, o vírus é completamente insensível ao caráter moral das pessoas), as ações de Deus não respeitam a proporcionalidade da justiça. Assim, chegamos a uma contradição lógica: as ações de Deus respeitam e não respeitam a proporcionalidade da justiça.

Uma vez que chegamos a uma contradição, isto significa que a suposição inicial é falsa e, por isso, não pode ser simultaneamente verdadeiro que há Deus e que a covid-19 é um castigo de Deus. Ou seja, quem defende que o novo coronavírus é um castigo de Deus está simplesmente a cometer uma contradição lógica, tal como uma pessoa que defendesse que existem irmãos filhos únicos ou quadrados redondos.

Em segundo lugar, as pessoas religiosas mais moderadas, ainda que não aceitem que a covid-19 é um castigo de Deus, apelam constantemente à oração de pedido ou de petição para que Deus acabe com o flagelo da doença. Ainda há dias se relatava que o Papa Francisco foi a uma igreja de Roma rezar pelo fim da pandemia diante de um crucifixo milagroso. Assim, pensa-se que a oração de petição é útil ou eficaz para acabar com a covid-19.

O problema é que, neste último caso, é argumentável que, dada a natureza de Deus, uma tal oração de petição é inútil ou ineficaz. Suponha-se que pedimos a Deus por alguma coisa na nossa oração, por exemplo, para Deus eliminar a covid-19 do mundo. Por um lado, se esse pedido for mau, um Deus omni-benevolente não iria conceder-nos isso, quer o pedíssemos ou não. Por outro lado, se esse pedido for bom, um Deus omni-benevolente iria conceder-nos isso, quer o pedíssemos ou não. Assim, de uma forma ou de outra, a oração de petição não parece funcionar. Este problema foi levantado, entre outros, pela filósofa tomista Eleonore Stump no seu artigo de 1979 Petitionary Prayer.

Como resposta a este último problema, talvez se possa alegar que a oração de petição poderá dar alguma razão para Deus agir (caso ele exista). Esta ideia pode ser defendida com base na seguinte analogia: se o leitor me vê a caminhar ao longo da estrada, pode parar e oferecer-me boleia ou pode, simplesmente, continuar a viagem. O leitor não está moralmente obrigado a parar. Mas, quando eu começo a esbracejar e a correr para si, isso pode dar-lhe alguma razão para parar. É verdade que isso não proporciona uma razão final para parar, pois pode ainda assim haver razões contrárias para você não parar e que eu desconheça por completo, mas essas razões têm de ser mais significativas do que o meu pedido. De forma análoga, quando pedimos a Deus para fazer algo, isso dá-lhe pelo menos alguma razão para o fazer. Mas será esta uma boa analogia?…

Ainda que não o seja completamente, pode-se também argumentar que, mesmo se a oração de petição não faz qualquer diferença sobre aquilo que Deus faz ou deixa de fazer, tem mesmo assim um propósito, uma vez que pode fazer uma diferença nas pessoas religiosas. De um ponto de vista mais prudencial, a oração de petição pode aumentar a consciência das nossas necessidades e das necessidades dos outros e, dessa forma, aumentar a probabilidade de agirmos para atender essas necessidades. Seria assim uma forma de reorientar o nosso foco do mal para o bem, do desespero para a esperança. Com base nesta ideia, pelo menos de uma perspetiva prudencial a oração de petição teria alguma eficácia.

 

Domingos Faria é investigador no Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa nas áreas de Epistemologia e Filosofia da Religião

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