Covid-19: Vacina para ricos a avançar, países pobres a ficar para trás

| 6 Dez 20

Vacina, Papua Nova Guiné, Poliomielite, Saúde

Vacinação contra a poliomielite na Papua Nova Guiné: os países mais pobres tendem a ficar para último também no acesso à vacina contra a covid-19. Foto: Gavi-The Vaccine Alliance

 

Ainda não conhecemos bem as vacinas que estão na frente da corrida, mas os políticos vêem-se pressionados pelos media e nenhum quer ficar para trás. Mas a questão é que a capacidade e poder para reservar muitos milhões de doses não está ao alcance de todos. Mesmo que tudo corra bem, há segmentos populacionais que vão ficar para trás, tal como há países que dificilmente poderão vacinar as respetivas populações antes de 2022.

Na sua coluna regular no diário El País, o jornalista e cientista Javier Sampedro titulava nesta última semana: “O mundo rico vai vacinar-se em 2021; os países em desenvolvimento terão que esperar dois anos mais”. E explicava que as três marcas que mais avançadas se encontram no fabrico do antídoto para a covid-19 (Pfizer, Moderna e AstraZeneca) todas juntas conseguem fabricar 5.300 milhões de doses até ao final de 2021, o que daria para imunizar um terço da população mundial (não esquecer que cada pessoa tem de tomar duas doses). “Isso constitui uma boa notícia para o mundo rico, mas não para os dois terços restantes.”

De acordo com dados publicados por aquele especialista, a União Europeia e mais cinco países desenvolvidos, ainda que representem apenas 13 por cento da população mundial, reservaram para si metade dos 5.300 milhões. “Era de esperar. Contudo – anota Javier Sampedro – há que insistir que estamos perante uma pandemia que, por definição requer a imunização de todo o planeta. Estamos outra vez a portar-nos mal”.

 

Política e politização da vacina

Já preocupada com uma vacina acessível universalmente, em Abril passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS), juntamente com a Comissão Europeia e a França, lançaram o Covax, uma aliança estratégica cuja finalidade é, no caso da presente pandemia, proporcionar uma resposta global que abra um acesso equitativo de todos os povos do mundo às vacinas da covid-19, independentemente do seu poder económico. Numerosos governos (entre os quais o da Alemanha), ONG, empresas, instituições científicas e de filantropia juntaram-se, entretanto, a este movimento. O plano inicial seria garantir a aquisição de dois mil milhões de doses de diferentes vacinas que venham a estar no mercado até ao fim de 2021.

Em setembro último, porém, a Administração Trump anunciava que os Estados Unidos da América não se juntariam a esta coligação internacional, dado o papel de liderança que nela desempenha a Organização Mundial de Saúde, da qual os EUA se haviam desligado. Na mesma altura, a União Europeia, que decidiu atuar como bloco na aquisição e distribuição de vacinas, informou também que iria disponibilizar uma verba de 400 milhões de euros para apoiar o desenvolvimento e implementação do Covax.

A preocupação com uma resposta articulada e global foi enunciada cedo, pela OMS. O seu secretário-geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertava, em agosto passado, para o risco do “nacionalismo”, quando as vacinas estivessem disponíveis. “Para o mundo recuperar mais depressa, tem de recuperar em conjunto, porque é um mundo globalizado: as economias estão interligadas. Uma parte do mundo ou apenas alguns países não podem ser um porto seguro e recuperar [sozinhos]”, advertiu.

A experiência de situações anteriores recentes, muito longe da dimensão da presente pandemia, mostra que a lógica adotada pelos países mais desenvolvidos de fazer contratos de aquisição com pagamento garantido, conjugado com as dificuldades de responder a toda a procura, levam a que as necessidades de programas de vacinas como os da ONU, que acodem sobretudo a países em desenvolvimento, sejam deixadas para o fim da fila.

Os compromissos já assumidos pelas diferentes empresas que anunciaram ir submeter as suas vacinas para validação e autorização foram em grande medida assumidos com governos de países desenvolvidos. Só a Administração Trump anunciou a compra de 700 milhões de doses e direito de opção para 1.000 milhões, para um país que tem 330 milhões de habitantes. Comentando estes dados, a revista America, dos jesuítas dos EUA, alerta: “Se o excesso não for partilhado pelas nações menos afortunadas, a esperança que estas poderão ter residirá em fontes não governamentais.”

Um sinal de esperança, neste contexto, vem precisamente da aliança de países e organizações por detrás do programa Covax. É que os seus membros comprometeram-se a não receber vacinas para mais de 20 por cento da sua população, antes que todos os outros países tenham também recebido. Se este princípio for seguido, pode ser que o atraso na aplicação das vacinas seja atenuado nos países em vias de desenvolvimento.

 

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