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Joaquim Azevedo

Covid e educação: aproveitar as oportunidades

| 24/05/2020

Covid e educação: aproveitar as oportunidades

by | 24 Mai 20

Estamos a viver um tempo inusitado, inesperado e imprevisível, que deixou também as escolas e o sistema escolar em apuros, sob um elevado stresse organizacional e profissional. A mudança é disruptiva, em vez de incremental, é reativa em vez de antecipatória, é imposta, em vez de desejada. Isto marca desde logo um tempo muito peculiar e sem precedentes. Um tempo que requer uma atenção redobrada.

Neste contexto de emergência escolar, escolas, educadores, alunos e famílias tiveram de se adaptar muito rapidamente, o que em geral terá sido alcançado com sucesso (e muito trabalho e muitos danos). Mas será que vamos conseguir aproveitar as oportunidades de inovação e melhoria que se abrem?

Como as escolas não estavam todas a fazer o mesmo nem se encontravam no mesmo ponto em termos de desenvolvimento de processos de inovação e melhoria (PIM), também agora se encontram em patamares bem diferentes de visionamento e de aproveitamento das oportunidades que eventualmente se abram com esta disrupção.

Há quem esteja a proclamar que este é o tempo em que o paradigma escolar vai mudar! Não o creio. A “gramática escolar” não muda apenas porque o ensino a distância e por meios tecnológicos substitui temporariamente o ensino presencial. Nada de estrutural mudou, nestes três meses, no modelo moderno de educação escolar. Por isso, tal proclamação pode contribuir, mais uma vez, para nos retirar os pés do chão e afastar a cabeça do exercício de responsabilidades concretas. A começar por uma reflexão aturada sobre o que se está a passar, coisa para a qual ninguém parece ter tempo, tal é a torrente de novas necessidades a que é preciso acorrer e de novas desigualdades que é preciso combater.

Claro que há portas que se entreabrem aqui e ali, que nos alimentam esperanças de melhor educação e que valerá muito a pena meter o pé e não as deixar fechar. Mas essas aberturas, quando existem, é ao nível de cada escola e Agrupamento Escolar (AE) que estão a ocorrer, não ao nível político macro, pois a este nível nada de substancial mudou. E as oportunidades que se poderão abrir em cada escola e AE dependem das possibilidades e capacidades que aí existam para as identificar, analisar e aproveitar do melhor modo. Se as escolas em Portugal trabalhassem mais em rede, em dinâmicas de entreajuda, seria mais fácil ganharem o necessário balanço para aproveitarem as brechas e oportunidades que se estão a abrir. Sobretudo de modo sustentado, que é o único modo que pode conduzir as mudanças às melhorias.

Mas devemos perguntar: que oportunidades é que se estão a abrir? Há algo de realmente novo que se esteja a passar, para além do facto de termos generalizado, de emergência, o ensino a distância? Não creio que haja algo de realmente novo (até as plataformas electrónicas já eram usadas em muitas escolas), mas é verdade que estamos a assistir a algumas instabilidades e desequilíbrios no sistema escolar tradicional que podem gerar boas oportunidades a aproveitar para prosseguir ou iniciar processos de mudança e melhoria.

Os desequilíbrios em que estamos a ser forçados a trabalhar podem revelar-se interessantes caminhos de mudança e melhoria, desde que seja possível reunir três condições elementares: (i) que deles tenhamos consciência, identificando-os com rigor, (ii) os saibamos pensar e incorporar nas práticas correntes das nossas escolas, o que tem de levar a refazer os percursos já previstos, as prioridades já identificadas e a própria organização escolar, (iii) e saibamos reunir os recursos, os parceiros e os compromissos necessários para que não se volte atrás na primeira oportunidade de estabilização e reequilíbrio.

Na mudança e na melhoria do modelo escolar nada será imediato, automático e muito menos simples. Há todo um processo de reflexão-ação que é preciso organizar (urgentemente) em cada escola e AE e que passa pelo menos pelos três passos enunciados. Quem o fizer, poderá evoluir mais e melhor aproveitar as oportunidades.

Para começar o processo, anoto alguns dos desequilíbrios significativos, porque mais comuns e visíveis, e que são potencialmente geradores de PIM.

Aumentou a possibilidade de explorar e conciliar tempos e espaços de ensino e aprendizagem – até os horários afinal se podem reconfigurar sem os dramas anunciados; aumentou a perceção da relevância do trabalho autónomo dos alunos, bem como das possibilidades concretas de o promover; existe um foco mais intenso em torno dos processos de aprendizagem e menos sobre a testagem das aprendizagens; construíram-se muitos novos materiais escolares de fomento de aprendizagens mais ativas e que se deveriam recolher, analisar e organizar; a avaliação, não tão condicionada pela classificação, alarga-se em critérios e ferramentas e o feedback permanente cresce exponencialmente; paradoxalmente, a proximidade, a relação educativa e a personalização dos percursos de aprendizagem e de desenvolvimento podem ampliar-se num tempo de distanciamento social e abrir novos horizontes a alunos e a educadores (“descobri aquele meu aluno, está a revelar-se como eu nunca pensei vê-lo”); a participação das famílias rasga cenários construídos e abre cenas muito novas, positivas e negativas (como a educadora que diz: “os pais não me deixam prosseguir o trabalho de desenvolvimento da autonomia da criança”); as oportunidades de digitalização da educação também aumentaram e abrem-se horizontes de trabalho que se poderiam capitalizar; ampliou-se imenso o trabalho colaborativo entre os educadores, pelo menos em alguns ciclos e algumas turmas, o que deve ser capitalizado.

A perceção de que é possível mudar e melhorar a educação, sem que isso represente necessariamente um cataclismo, constitui também uma aprendizagem muito relevante.

A constatação de que a equidade corre sérios riscos e que as desigualdades estão a aumentar imenso obriga a ponderar com muito cuidado o aproveitamento das oportunidades que agora se entreabrem.

Há uma nova ecologia da aprendizagem (e do ensino) que deveria ser pensada aprofundadamente, a começar pelos educadores e pelos alunos, e posteriormente projetada, abrindo novos e ampliando os já existentes PIM, em cada escola. Ninguém pode ser deixado para trás e só esta abordagem ecológica tem o potencial de integrar todos e promover cada um. Educar é uma missão sempre inacabada e sempre (im)possível. Urge meter bem o pé na porta entreaberta das oportunidades em gestação.

 

Joaquim Azevedo é professor da Universidade Católica Portuguesa (Porto) e membro do Conselho Nacional de Educação

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