Cimeira em Luanda

CPLP deve ajudar a vacinação dos seus membros mais pobres, defende Tony Neves

| 16 Jul 21

Há 22 anos que o padre e missionário Tony Neves mantém uma crónica radiofónica com o título Lusofonias. Ao olhar para a cimeira lusófona que decorre em Luanda, Tony Neves considera que a CPLP deveria ter um papel activo na ajuda ao combate contra a pandemia. E sugere o que as igrejas lusófonas podem fazer mais para colaborar umas com as outras.

vacina ebola, Foto ONU_Vincent Tremeau

É preciso “reunir meios para vacinar rapidamente todo o povo e controlar minimamente os efeitos da pandemia”, defende Tony Neves. Foto © ONU/Vincent Tremeau. 

 

A CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) deveria rapidamente ajudar os seus membros mais pobres a “reunir meios para vacinar rapidamente todo o povo e controlar minimamente os efeitos da pandemia”; e, ao mesmo tempo, as diferentes igrejas dos países lusófonos deviam investir mais no intercâmbio de apoio à formação dos seus agentes pastorais.

O padre Tony Neves, 58 anos, membro da congregação dos Missionários do Espírito Santo (Espiritanos) acabou de publicar o livro Lusofonias – De Roma para o Mundo e olha para a cimeira que nesta sexta-feira e sábado decorre em Luanda com sentimentos mistos: Angola, Cabo Verde e Moçambique têm hoje mais condições de governação do que há anos, enquanto Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe são mais pobres e enfrentam ainda muitas dificuldades. Mas em todos os casos há muito por fazer.

“A partir do olhar dos missionários que estão no terreno, percebe-se que neste momento é fundamental criar condições para injectar dinheiro do Estado na economia, para apoiar as franjas mais desfavorecidas” das populações dos países lusófonos africanos, defende Tony Neves, que trabalhou cinco anos em Angola, logo depois de ser ordenado padre, entre 1989 e 1994, quando a guerra civil no país estava no auge.

Enquanto coordenador do departamento de Justiça, Paz e Integridade da Criação e do Diálogo Inter-Religioso, no âmbito do conselho geral dos Espiritanos em Roma, Tony Neves regressa a Angola quase todos os anos e visita com frequência os outros países lusófonos. “Cada um deles deveria criar mecanismos de apoio aos mais desfavorecidos que foram muito atingidos pela pandemia, mas a grande decisão da CPLP e dos seus membros mais ricos deveria ser a ajuda aos mais pobres, de modo a injectar dinheiro para ajudar as pessoas.” Se isso não for feito, diz, a situação pode ser “explosiva” e “o caos” instala-se nas sociedades.

Só depois, nota, com o mínimo de estabilidade social, e potenciando o facto de o espaço lusófono partilhar “muitos anos de convivência e a mesma língua” se pode facilitar a mobilidade – precisamente um dos temas principais desta cimeira de Luanda.

Outra das prioridades deveria ser a promoção de mais investimento na área académica. “A CPLP deveria ser um espaço academicamente de elite, com os jovens e os menos jovens a poderem circularem mais para a sua valorização académica e desse modo permitir a criação de emprego”, defende Tony Neves. Porque não serão apenas a agricultura e a pequena indústria a promover o desenvolvimento desses países, acrescenta.

 

Igrejas “anteciparam-se” aos políticos
Bispos lusófonos, Lusofonia, Cabo Verde

Encontro dos Bispos lusófonos em Cabo Verde, em Abril 2018, o último realizado. Foto © Ildo Fortes/FEC

 

Na criação de um espaço lusófono comum, as igrejas “anteciparam-se” aos políticos, recorda o missionário espiritano: a CPLP foi formalmente constituída em 17 de Julho de 1996, em Lisboa (faz neste sábado precisamente 25 anos), mas a primeira “cimeira” de bispos lusófonos realizara-se em Maio desse ano, em Fátima.

Os fundadores da CPLP foram Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Em 20 de Maio de 2002, conquistada a independência, Timor-Leste tornou-se o oitavo membro e, em 2014, numa decisão que levantou muita polémica, a Guiné Equatorial foi aceite como o nono membro de pleno direito.

Já no espaço da lusofonia eclesial católica juntam-se as presidências dos episcopados de Angola, Brasil, Moçambique, Portugal e Timor-Leste, além dos bispos residentes de Santiago e Mindelo (Cabo Verde), Bissau e Bafatá (Guiné-Bissau), Macau (região autónoma da China, ex-colónia portuguesa) e São Tomé e Príncipe.

Na lusofonia católica há já um esforço grande de aproximação, com as igrejas de diversos países a apostar na formação de pelo menos parte do seu clero em Portugal: é o caso de Cabo Verde (que tem aqui todos os seus seminaristas), bem como de alguns guineenses, timorenses, angolanos e moçambicanos.

Também há apoios periódicos, por exemplo através do produto da renúncia quaresmal de várias dioceses ou do envio de materiais de formação. Mas também aqui se poderia fazer mais, nomeadamente no âmbito da “partilha dos curricula académicos na teologia”, sugere Tony Neves. E as igrejas que têm mais meios deveriam “ajudar as que têm menos”. No caso português, a hierarquia católica deveria, por exemplo, negociar com o Governo a possibilidade de oferecer livros e manuais sem custos ou a preços reduzidos, acrescenta o missionário.

 

Governação, problema número um
Angola. Polícia. Violência policial. Jovens. Direitos humanos

Manifestação de jovens angolanos, no verão de 2020, em protesto contra a violência policial: a pandemia veio atrasar o desenvolvimento de uma sociedade mais aberta. Foto: Omunga/Direitos reservados

 

Neste momento, o grande problema da África lusófona é a governação, observa Tony Neves. “O atraso e a grande impreparação com que estes países chegaram à independência é a primeira razão, tendo em conta que o Governo colonial português não preparou as elites locais”. E também o contexto global africano “tem facilitado governações que não são muito populares no sentido ético: os sucessivos governos (não só lusófonos) não se deixam controlar, não há oposição política e há promiscuidade entre os poderes legislativo, executivo e judicial”.

Hoje, o que se passa em Angola, que “está a dar passos significativos na autonomização de poderes e responsabilização de pessoas” é um exemplo de que essa realidade pode começar a mudar. “O problema de Angola é essencialmente social: a pandemia foi terrível, porque no momento em que o país poderia reabilitar a economia, esta morreu, a fome é muita e os indicadores de violência crescem.”

Lusofonias, Tony Neves

Capa de Lusofonias.

No livro, que reúne as crónicas semanais de Tony Neves entre Setembro de 2018 (quando foi trabalhar para Roma) e o final de 2020, Tony Neves, que escreve também com regularidade para o 7MARGENS, aborda vários aspectos das realidades dos países lusófonos, mas também pretende falar “do mundo inteiro” e da vida da Igreja para quem o escuta.

Enquanto crónicas, as Lusofonias existem desde 1999 (ou seja, já lá vão mais de 1100) e passam numa rede de rádios lusófonas, a partir da Rádio Renascença. “Mesmo sendo para um público lusófono, pretendo que elas tenham um olhar global”, diz.

A 7 de Dezembro de 2020, comentando a vídeo-mensagem do Papa Francisco sobre os 75 anos das Nações Unidas, escrevia Tony Neves: “Num mundo cheio de conflitos, a ONU tem de ser uma oficina cada vez mais eficaz na construção da paz. (…) Cito as palavras finais do Papa: ‘Não se sai igual de uma crise: ou saímos melhores ou piores. (…). A pandemia mostrou-nos que não podemos viver sem o outro, e muito menos, uns contra os outros’. O futuro está nas nossas mãos. Temos de o construir com humanidade.”

(O livro, uma edição dos Missionários Espiritanos, pode ser pedido por correio electrónico para liam@espiritanos.pt)

 

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Comentário

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