“O Credo de Nicéia não formula uma teoria filosófica. Professa a fé no Deus que nos redimiu por meio de Jesus Cristo. Trata-se do Deus vivo: Ele quer que tenhamos vida e que a tenhamos em abundância”. A afirmação é do Papa Leão XIV e consta da Carta Apostólica publicada este domingo, a propósito dos 1700 anos do Concílio de Niceia.
A Carta, intitulada In unitate fidei (“Na unidade da fé”), tem 12 pontos e cerca de 4200 palavras e procura explicar de forma pedagógica e relativamente acessível as grandes afirmações constantes no Credo de Niceia, que ainda hoje são seguidas quer pelas diferentes igrejas cristãs: Católica, Ortodoxa, Reformada e Anglicana.
A escassos dias de partir para a sua primeira viagem internacional à Turquia (e ao Líbano), onde participará na evocação daquele Concílio, que ocorreu no ano de 325, na pequena cidade de Niceia (hoje Iznik, na região de Marmara), o Papa quis, com o novo documento, “encorajar em toda a Igreja um renovado impulso na profissão da fé, cuja verdade – que há séculos constitui o património comum dos cristãos – merece ser confessada e aprofundada de maneira sempre nova e atual”.
Leão XIV desenvolve o documento num jogo permanente entre as afirmações doutrinárias e as circunstâncias históricas que lhes estiveram subjacentes. Fica-se, assim, a saber, que foi em torno da questão constitutiva do “coração da fé cristã” – a “profissão de fé em Jesus Cristo, Filho de Deus” – que se gerou um conflito no seio do cristianismo, no início do século IV. As feridas das perseguições aos cristãos estavam, então, ainda frescas e o Édito de Milão, que prenunciava uma era de entendimento e paz, tinha pouco mais de uma dezena de anos.
Ário, um presbítero de Alexandria, ensinava que Jesus não era uma criatura comum, mas também não era propriamente “Filho de Deus”, mas antes um intermediário entre os humanos e um Deus distante e inalcançável, que, além disso, não existia antes da incarnação. Teve muitos seguidores que fizeram frente aos bispos que procuraram demover Ário das suas posições. O próprio imperador Constantino, perante a divisão da Igreja cristã que começou a ganhar forma e a crescer, temeu pela unidade do Império e decidiu convocar os bispos para um Concílio Ecuménico em Niceia, para repor a unidade.

Primeiro Concílio de Niceia, pintura mural na igreja de Stavropoleos, Bucareste, Roménia. Foto © Kostisl / Wikimedia Commons
Assumir a fé num “Deus vivo”
O Concílio teve uma participação sem precedentes – 318 ‘padres’ – que afirmaram “a fé no Deus único” e, respondendo contundentemente à questão suscitada por Ário e seus seguidores, em “um só Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus… gerado, não criado, da mesma substância (homooúsios) do Pai”.
Com isto, salienta o Papa na Carta, os padres conciliares “quiseram reafirmar que o único Deus verdadeiro não está inatingivelmente distante de nós, mas, pelo contrário, aproximou-se e veio ao nosso encontro em Jesus Cristo”.
Não se tratava, pois, de um debate filosófico, mas de assumir a fé num “Deus vivo” que “quer que tenhamos vida e que a tenhamos em abundância” e que, por causa dos humanos e para a sua salvação, “desceu, encarnou e se fez homem, e padeceu, ressuscitou ao terceiro dia e subiu ao céu, havendo de vir para julgar os vivos e os mortos”.
Ainda assim, como explica Leão XIV, foi necessário praticamente mais um século para vencer a resistência dos “anti nicenos”, destacando-se o papel de figuras maiores da Igreja, como, num primeiro momento, Santo Atanásio, alguém que “apesar de ter sido deposto e expulso cinco vezes da sede episcopal de Alexandria, regressou sempre como bispo” e, “mesmo no exílio, continuou a guiar o Povo de Deus através dos seus escritos e cartas”.
Numa fase já de “paz eclesial”, foram os chamados “três capadócios” – São Basílio de Cesareia (cerca de 330-379); o seu irmão São Gregório de Nissa (335–394); e o maior amigo de Basílio, São Gregório Nazianzeno (329/30-390) – que tiveram o mérito de “levar a cabo a formulação do Credo Niceno, mostrando que a Unidade e a Trindade em Deus não são, de forma alguma, contraditórias”. Esta nova geração, no Ocidente, teve como protagonistas Santo Hilário de Poitiers (cerca de 315-367) e o seu aluno São Martinho de Tours (cerca de 316-397) e ainda Santo Ambrósio de Milão (333-397) e Santo Agostinho de Hipona (354-430).
O documento “Na unidade da fé” reflete, depois, sobre a dinâmica entre humanização de Jesus e divinização dos humanos e sobre a resposta ao amor de Deus com o amor entre os irmãos e termina a sublinhar a atualidade do Credo de Niceia para o processo ecuménico, ou seja, o “caminhar juntos para alcançar a unidade e a reconciliação entre todos os cristãos”.
“O Credo de Niceia pode ser a base e o critério de referência deste caminho”, já que ele propõe “um modelo de verdadeira unidade na legítima diversidade. Unidade na Trindade, Trindade na Unidade, porque a unidade sem multiplicidade é tirania, a multiplicidade sem unidade é desintegração”, faz notar o Papa.
“Devemos, portanto – observa ele – deixar para trás as controvérsias teológicas, que perderam a sua razão de ser, para adquirir um pensamento comum e, mais ainda, uma oração comum ao Espírito Santo, para que nos reúna a todos numa única fé e num único amor”.
“Um ecumenismo voltado para o futuro, de reconciliação no caminho do diálogo, de troca dos nossos dons e patrimónios espirituais”, orientado para o restabelecimento da unidade, “não nos torna mais pobres: ao contrário, enriquece-nos”, remata o Papa.
Dorothy Day, a sindicalista americana que “transformou indignação em ação”

Dorothy Day em 1916. Foto: autor desconhecido, Domínio público, via Wikimedia Commons
O Papa Leão XIV presidiu no sábado à audiência jubilar, na Praça de São Pedro, e lembrou uma “pequena grande mulher americana”, Dorothy Day, sindicalista, que denunciou modelos de desenvolvimento no seu país que não criavam “as mesmas oportunidades para todos”.
“Ela tinha fogo dentro de si. Dorothy Day tomou uma decisão. Ela viu que o modelo de desenvolvimento do seu país não criava as mesmas oportunidades para todos, compreendeu que, para muitos, o sonho era um pesadelo, que, como cristã, devia ir ao encontro dos trabalhadores, dos migrantes, dos descartados por uma economia que mata”, afirmou o Papa, citado pela Agência Ecclesia.
Leão XIV lembrou que Dorothy Day “escrevia e servia”, afirmando que “é importante unir a mente, o coração e as mãos”. “Ela escrevia como jornalista, ou seja, pensava e fazia pensar. Escrever é importante. E também ler, hoje mais do que nunca”, referiu. O Papa evocou a opção da “pequena grande mulher americana” que “servia refeições, dava roupas, vestia-se e comia como aqueles a quem servia”.
“Dorothy Day contagiou milhares de pessoas. Abriram casas em muitas cidades, em muitos bairros: não grandes centros de serviços, mas pontos de caridade e justiça onde se tratavam pelo nome, se conheciam uns aos outros e transformavam a indignação em comunhão e ação”.
“IA não pode substituir inteligência humana”
Antes, na sexta-feira, o Papa alertou cerca de 15 mil jovens dos EUA para os limites da Inteligência Artificial (IA), sublinhando que a tecnologia não pode substituir a inteligência humana nem o “verdadeiro crescimento”.

Papa falou online com cerca de 15 mil jovens americanos. Foto © Vatican Media, via Agência Ecclesia.
“A IA pode processar informações rapidamente, mas não pode substituir a inteligência humana. E não peçam para que ela faça o vosso trabalho de casa por vocês. Ela não pode oferecer sabedoria real”, disse Leão XIV, num encontro realizado por via digital, também citado pela Ecclesia.
Falando desde o Vaticano para os participantes na Conferência Nacional da Juventude Católica, reunidos em Indianápolis (EUA), o Papa sustentou que a segurança no ambiente digital é uma questão de “educação e de responsabilidade pessoal”, para além das regras.
“Todas as ferramentas que nos são dadas, incluindo a IA, devem apoiar essa jornada, não enfraquecê-la”, insistiu.
O Papa desafiou os jovens a usarem as novas tecnologias de forma que, se estas desaparecessem amanhã, soubessem “como pensar, como criar, como agir” por conta própria.









