Este é o oitavo texto sobre 1700 anos do Concílio de Niceia (atual İznik, Turquia), de uma reflexão de Vítor Rafael, colunista regular do 7MARGENS, doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. [Ler textos anteriores]
No célebre quadro de El Greco, O Pentecostes, o famoso pintor que viveu em Espanha em finais do século XVI e princípios do século XVII, pretende retratar a descida do Espírito Santo, ali simbolizado como uma pomba que desce como línguas de fogo sobre os que estavam no cenáculo. A iconografia não deixa também de nos remeter para o mistério da Terceira Pessoa da Trindade. O que se sabe do Espírito, da sua obra e acção? O que se quer dizer quando se professa “cremos no Espírito Santo”?
Talvez a figura mais enigmática e menos compreendida da Trindade seja a terceira pessoa, ou seja, o Espírito Santo. No Antigo Testamento e no início na criação do mundo, o Espírito (ruah) movia-se já sobre as águas (Génesis 1:2). Embora a palavra hebraica ruah tenha imensos significados nas escrituras, grosso modo, quando se refere ao Espírito de Deus, tem o sentido de sopro, brisa, vento ou poder de Deus. Até a própria palavra vento, que é geralmente sinónimo de poder, é utilizada para significar respiração violenta pelo nariz ou pela boca.
Para os povos da Antiguidade, a respiração é sinónimo de vida, algo que separa os vivos dos mortos. O vento, tal agente animador e que não se pode ver ou sentir, move as ondas do mar, as copas das árvores, impulsiona também os navios no alto mar, o moinho que mói o trigo, assim é a sua força que a todos anima e a tudo quanto rodeia. Não admira, pois, que as pessoas pensassem no vento e no hálito como manifestação de Deus dentro de si próprias e no próprio mundo.
O Espírito Santo, sendo totalmente Deus, é de alguma maneira, também ele, distinto de Deus, o Pai, e de Deus, o Filho. Simplificando, poderemos afirmar que Deus Pai cria o mundo, o Filho o redime e o Espírito trabalha e atua nele. É, pois, o Espírito, que é invisível, mas que pode ser sentido, aquele que nos sustenta e nos inspira. Mas como é que o Espírito Santo trabalha? Qual é o objetivo da sua obra em cada pessoa? Alguns associam o Espírito a estados místicos ou as experiências incomuns, tais como ter visões, sonhos, revelações, falar línguas estranhas, ter dons de curar, mas essas são apenas manifestações secundárias da obra do Espírito.
A fim de compreendermos melhor a obra do Espírito Santo, gosto imenso de ler aquilo que Jesus diz acerca dele, no seu longo discurso da despedida que se encontra no Quarto Evangelho. O evangelista coloca no discurso de Jesus uma palavra grega, παράκλητος (paráklētos) que é traduzida para o nosso português como “aquele que consola ou conforta”; “aquele que encoraja e reanima”; “aquele que revive”; “aquele que intercede no nosso favor como um auxiliador”. Ora, paráklētos será entendida pelos primeiros cristãos como referindo-se ao Espírito Santo e como sinónimo do Espírito de Deus. É o próprio Jesus, que no seu discurso fala acerca do Espírito, afirmando que
- Ele é o auxiliador que o Pai enviará em seu nome, que ensinará todas as coisas e lembrará tudo o que Ele disse (João 14:25).
- Ele é o espírito da verdade que procede do Pai, e que testemunhará a respeito dele (João 15:26).
- Ele é Aquele que ficará sempre convosco (João 16:5-7).
- Ele conduz à verdade, não falará a partir de si próprio; mas, tudo quanto ele ouve, falará; e anunciará as coisas que estão para vir (João 16:13).

Corrado Giaquinto, “O Espírito Santo”, ca. 1755. / Wikimedia Commons
De salientar também a acção do Espírito como testemunha (1 João 5:7) e como o professor (1 João 2:27). Primeiramente, Ele convence-nos de que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que desceu, como dirá o Credo Niceno, “para nós homens e para nossa salvação”. Segundo, Ele ensina, a nós como crentes, que somos filhos e herdeiros de Deus com Cristo (Romanos 8:16). Finalmente, Ele testemunha acerca de Cristo e leva também a dar testemunho dele ao mundo (João 15:26).
Com base no que o apóstolo Paulo escreve na sua primeira carta à igreja de Corinto, o Espírito Santo concede à Igreja os dons. As manifestações do Espírito são “presentes” para fortalecimento e edificação da Igreja. Paulo pede mesmo para que “demandemos o amor, desejemos zelosamente as coisas espirituais” (1 Coríntios 14:1). Dons, como o da sabedoria, do conhecimento, da fé, das curas, dos milagres, da profecia, do discernimento de espíritos, da variedade de línguas e da interpretação das línguas, conforme lista exposta nessa carta à comunidade de Corinto (1 Coríntios 12:8-10), são assim manifestos e disponibilizados pelo Espírito individualmente a cada um dos crentes, conforme Ele quer (1 Coríntios 12:11).
Muito se tem discutido entre as igrejas acerca da continuidade de alguns dos dons do Espírito após o Pentecostes. Para algumas denominações protestantes – as cessacionistas – os dons de falar em línguas, de interpretação de línguas, limitaram-se somente à Igreja primitiva. Para outras igrejas, outros dons, como o de curas e de milagres podem ocorrer, desde que operados directamente por Deus. Podemos, no entanto, afirmar que as escrituras em nada afirmam explicitamente que os dons do Espírito alguma vez cessariam. Talvez um dos únicos versículos que os cessacionistas gostam de evocar em apoio das suas posições, seja 1 Coríntios 13:8, em que Paulo afirma que as línguas cessarão, mas o mesmo afirma para o dom das profecias e do conhecimento. Paulo não diz aqui quando esses dons acabariam mas, no contexto de todo o capítulo, talvez a chave esteja no último versículo, remetendo escatologicamente para o final de todas as coisas, para quando vier o que é perfeito (1 Coríntios 13:9-10).

Árvore dos Sete Dons do Espírito Santo, dos manuscritos medievais.
Finalmente, não poderíamos deixar de falar acerca da experiência do Espírito Santo. Já nos movimentos de avivamento do século XIX tinha havido o testemunho de pessoas que descreviam ter tido manifestações do Espírito Santo nas suas vidas. Mas será nos inícios do século XX, numa pequena reunião da Igreja Metodista Episcopal na Rua Azusa, em Los Angeles (EUA), que o pastor William Seymour e o seu pequeno grupo de irmãos que se reuniam periodicamente orando pelo derramamento do Espírito Santo, começaram a falar em línguas, experimentando assim um novo pentecostes.
Desde então, esta experiência, a que muitos chamam de redescoberta do Espírito Santo, irá dar origem a um dos maiores dinamismos da Igreja contemporânea, o movimento pentecostal, sendo hoje em dia o que mais tem crescido em todo o mundo, ocupando o segundo lugar nas estatísticas, logo após o catolicismo. Também na década de 1960, no seio da própria Igreja Católica e através de um pequeno grupo em Duquesne (Estados Unidos), se deu início ao movimento de Renovação Carismática Católica, experimentando também eles o baptismo do Espírito Santo.
O livre exercício dos dons espirituais foram largamente estimulados e exercidos entre as igrejas primitivas até à altura em que a Igreja se começou a institucionalizar. A relação entre as instituições religiosas e os movimentos carismáticos nunca foram tranquilas. Numa Igreja hierárquica que se vai impondo a pouco e pouco a partir do século II, ou até mesmo clerical, o magistério irá sufocando gradualmente a voz de muitos que alegavam falar em nome do Senhor.
Já assim tinha sido no período Veterotestamentário. Muitos dos profetas que, por intermédio do Espírito de Deus, falavam em nome do Senhor, tiveram problemas com a classe sacerdotal e muitos eles foram até mortos, como o disse o próprio Jesus (Lucas 11:51). São de Jesus as palavras “O sopro, onde quer, sopra. E ouves a sua voz. Mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do espírito”. O Espírito Santo é e deverá ser sempre a força vital da Igreja e os que são guiados pelo Espírito, são, como disse o Papa Francisco, como uma espécie de barco à vela, que são levados pelo vento, pelo sopro de Deus, continuando a tarefa de Jesus, quais agentes do Seu Reino. Cremos no Espírito Santo.








