Publicamos hoje o décimo segundo e último texto sobre 1700 anos do Concílio de Niceia (atual İznik, Turquia), de uma reflexão de Vítor Rafael, colunista regular do 7MARGENS, doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. [Ler textos anteriores]
Cremos na vida eterna
A imagem de capa é de um ícone que retrata a vitória de Jesus sobre a morte e o Inferno, restaurando e concedendo a vida eterna a todos. Cremos na vida Eterna. Como entendemos hoje a vida eterna? Qual o significado de Céu? Muitos acreditam que seja um lugar bem real, mas como é ele exactamente? Onde situá-lo? E acerca do Inferno? São alguns temas que serão expostos e analisados neste último artigo sobre o Credo Apostólico dos cristãos.
Na vida eterna
Para a grande maioria daqueles que se assumem como cristãos, possivelmente já terão ouvido ou lido algures que o seu destino eterno dependerá de terem sido boas ou más pessoas aqui na terra. Para outros, no caso dos cristãos protestantes e reformados, esse destino final está marcado, se e tão-somente tiverem feito a famosa oração do pecador, arrependendo-se dos seus pecados e aceitando Jesus como o seu único e suficiente salvador. É muito difícil entender esta ultima posição, uma vez que coloca as pessoas que viveram ou vivem sem nunca terem ouvido falar de Jesus directamente no inferno. Não é o que afirma Jesus quando diz “Quem nele crê não é condenado. Mas quem não crê já está condenado, porque não creu no nome do filho unigénito de Deus.”? (João 3:18).
Não há como contornar essa ideia que existe entre nós, de haver dois caminhos que nos guiarão após a nossa morte, um para o “céu” e outro para o “inferno”. No Evangelho de João, o próprio Jesus afirma: “Não vos espanteis com isso, porque está chegando a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a sua voz; e sairão, os que tiverem praticado o bem, para uma ressurreição de vida; e os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de julgamento.” (João 5:28-29). Como podemos entender essa ideia, como surge ela nas escrituras?
Comecemos pelo inferno. Em primeiro lugar, não existe na Grécia antiga, palavra equivalente a “inferno”, tal como a entendemos. Na mitologia grega existe a palavra hades, que é o submundo ou o lugar dos mortos, para onde todos vão após a morte. Existia uma excepção, o tártaro, um conjunto de cavernas e de grutas situadas nas profundezas do Hades, onde eram aprisionados os deuses inferiores do Olimpo. Nas escrituras hebraicas não existe qualquer referência aos infernos. A palavra hebraica sheol, muitas vezes traduzida incorrectamente por inferno, não é nada mais do que o lugar para onde todos vão após morrer, tanto bons como maus. Na tradução grega do Antigo Testamento, utiliza-se a palavra hades para traduzir sheol, ou seja, simplesmente o lugar dos mortos. Só no livro de Daniel, escrito no segundo século antes de Cristo e já sofrendo a influência helenística e do zoroastrismo, é que iremos verificar a ressurreição de uns, para a vida eterna, e de outros para a vergonha e desprezo eterno (Daniel 12:1-2).

Valentin de Boulogne (1591–1632): “Última Ceia” (1625-26), Galeria Nacional de Arte Antiga, Roma. / Wikimedia
No Novo Testamento, além da palavra hades, o lugar dos mortos, e da palavra tártaro, outras passagens referem a palavra geena, um lugar fora das muralhas da cidade de Jerusalém, o vale de Hinom, onde outrora tinham ocorrido sacrifícios de crianças e práticas de idolatria. Nos tempos de Jesus, a geena era praticamente uma lixeira, onde eram lançados igualmente animais e corpos de criminosos executados, aos quais se acrescentava enxofre para acelerar a incineração. Quase todas estas palavras gregas, são, infelizmente, traduzidas nalgumas versões pela palavra inferno (do latim infernum), terrível local de tormento eterno, preparado para o diabo com os seus anjos e para os ímpios. Esta imagética vai-se desenvolvendo aos poucos, sobretudo nos tempos medievais, com A Divina Comédia, de Dante. Será essencialmente esta obra, com as suas visões horrendas do Inferno, que irá ter forte influência no pensamento e na cultura ocidental desde então.
A cosmologia judaica antiga era praticamente tripartida, compreendendo os céus, a terra e o sheol. Os céus são a morada de Deus e dos seus anjos. Mais tarde alguns judeus elaboraram um sistema de sete céus, sendo o último, o mais santo de todos, onde está o Trono de Deus com a presença dos seus sete arcanjos. Debaixo do Trono de Deus, está a morada de todas as almas humanas ainda por nascer. Ainda não chegámos à ideia de que, após a morte, as almas dos justos sigam para o céu. Os mortos, tanto justos como injustos, ricos ou pobres, livres ou escravos, vão para o sheol, o submundo. Somente com a destruição do Templo, no ano 586 a.C, com o surgimento da escatologia apocalíptica judaica, é que alguns profetas começaram a prever um futuro melhor para o seu povo. Novamente no livro de Daniel, capítulo 12, o profeta afirma que os que “dormem no pó da terra acordarão: uns para a vida eterna (…). Aqueles que são sábios reluzirão como o brilho do céu, e aqueles que conduzem muitos à justiça serão como as estrelas, para todo o sempre”. Aqui os justos são já membros da assembleia divina nos altos céus, junto de Deus (ver Isaías 14:13), conforme as mitologias semíticas de então.
O céu, como o entendemos, lugar para onde os justos irão um dia estar, surge somente então algures entre os dois séculos que antecedem a vinda de Jesus. Nos livros dos Macabeus, cujo episódio é referenciado pelo autor da homilia aos Hebreus em Hebreus 11:35, conta-se o episódio de uma mãe e dos seus sete filhos martirizados às mãos de Antíoco Epifâneo. O narrador aponta solenemente que “particularmente admirável e digna de elogios foi a mãe que viu perecer os seus sete filhos no espaço de um só dia e o suportou com heroísmo, porque a sua esperança repousava no Senhor” (2 Macabeus 7:20). Cada um dos filhos proferiu um discurso antes de morrer e o último diz que os seus irmãos “participam agora da vida eterna” (2 Macabeus 7:36).
Estas histórias do livro dos Macabeus, mudaram certamente a maneira de pensar acerca do destino das suas almas imortais (ideia, conforme já referido, que vem da filosofia grega, designadamente a platónica). Mas porque ocorreu essa mudança repentina? Se até então se acreditava na morte apenas como um fenómeno puramente natural que marcava o fim da vida? A explicação estará na perseguição movida aos judeus por Antíoco IV Epifânio em 167 a.C., na dispersão dos mesmos e na impossibilidade de agora estarem juntos dos seus familiares e dos sepulcros dos seus antepassados.

Peter Paul Rubens (1577–1640): Cristo triunfante sobre o Pecado e a Morte, c. 1615-1620. Palácio Nacional de Belém.
Jesus mudou todo o pensamento acerca do céu. São com palavras como estas que Ele instrui os seus discípulos: “Ao seguirdes caminho, anunciai dizendo que ‘ficou próximo o reino dos céus!’” (Mateus 10:7). É inegável a centralidade do Reino dos Céus (ou de Deus) no discurso de Jesus nos evangelhos sinópticos. Ao longo dos discursos de Jesus e das parábolas acerca do Reino dos Céus, da sua acção junto das pessoas, ficamos com a sensação que o Reino dos Céus, ou o Céu, não era tanto um lugar físico, mas antes um estilo de vida do Reino do Seu Pai e uma lealdade a um Rei (o próprio Jesus) que iniciou esse grande projecto revolucionário, que é a restauração de todas as coisas. Concordo com N. T. Wright quando afirma: “o Novo Testamento não diz o que a maioria das pessoas acredita acerca do Céu, que é apenas um lugar para onde se vai depois da morte. Na verdade, é acerca da criação sendo restaurada através do Reino de Deus, sempre em progresso”. Deus irá fundir o Céu e a Terra, renovando todas as coisas e restaurando-as de todo o mal. Era esse o Céu em que os primeiros cristãos acreditavam.
Finalizando: esses conceitos de Céu e Inferno como lugares de recompensa ou punição eterna foram desenvolvimentos tardios, influenciados inicialmente pela filosofia grega e romana, e depois pela imagética da arte e literatura medievais, em poemas como o Inferno e o Paraíso de Dante. Quando as palavras “céu” e “inferno” aparecem (raramente) nas escrituras, elas geralmente têm um significado diferente do seu contexto original. Curiosamente, os primeiros Credos, tanto o dos Apóstolos e o de Niceia, sabiamente não fazem qualquer menção ao Céu ou ao Inferno. Cremos na vida eterna, tal como muitos dos primeiros Pais da Igreja, nessa vida que Jesus anunciou e iniciou algures na Galileia. O Reino dos Céus era e é afinal o próprio Jesus em pessoa, cuja vida agora irrompe dentro de todos os que se assumem como seus discípulos, que transforma radicalmente o mundo que nos circunda. Esta grande revolução cósmica de Deus, que está irrompendo já no meio de nós e através de nós, culminará em novos Céus, nova Terra, onde todos, já nessa nova criação totalmente restaurada, estaremos final e eternamente juntos com o próprio Deus. O Céus e a Terra, unidos agora por todas as eras e por toda a eternidade.
Cremos na vida eterna.







