Crentes honestos

| 16 Nov 21

“O compromisso de se ser católico implica conhecer a Igreja, no que ela verdadeiramente é: mais do uma assembleia, é uma realidade familiar.” Foto: Católicos à saída da missa em São Lourenço dos Órgãos, na ilha de Santiago. © Tony Neves

 

Em conversa com duas pessoas de outra confissão religiosa, foi-me dito que “é precisa muita coragem para se ser católico nos dias de hoje”, com tantos escândalos dentro da Igreja, como a pedofilia e outras ofensas sexuais, casos de infidelidade ou questões financeiras. É interessante pensar como, frequentemente, o desejo de conforto pode fazer-nos abdicar das nossas crenças ou convicções, apenas para ficarmos bem aos olhos da sociedade.

Este desconforto em relação aos escândalos tem motivado diferentes reações, das quais se destacam dois tipos: permanecer imóvel até que passe ou defender uma revolução universal na Igreja. Em ambos os casos, os partidários de tais soluções procuram a chamada “ditadura dos consensos”, ou seja, a busca constante de acordos que evitem tomar decisões, assumir responsabilidades e lidar com as suas consequências.

Constituem-se grupos ou comissões como forma de diluição de culpas, onde todos são responsáveis coletivamente, mas nenhum em particular. Cada um, individualmente, não se sente responsável pelo resultado e quando a consciência pesa, há sempre o argumento do número: “se a verdade fosse outra alguém teria visto, estávamos todos de acordo”.

Em ambos os casos, os partidários de tais soluções procuram a chamada “ditadura dos consensos”, ou seja, exigem a todos os demais membros da Igreja que tenham a mesma opinião, o mesmo comportamento, a mesma perspetiva. Só há lugar às diferenças que correspondem à conceção dominante, com prejuízo para todos as outras, anulando-se, assim, qualquer espaço para a liberdade de Deus em agir na Sua Igreja, através do Seu Espírito.

Pelo contrário, parece-me existir uma alternativa neste caminho de Igreja que cada um, pessoalmente, deve percorrer: mais do que “tradicionalista” ou “progressista”, importaria que cada um assumisse o compromisso de ser católico. Digo isto porque, antes de qualquer decisão, importará assumir uma postura de honestidade para com Deus, com a Igreja, com os outros. Há um particular modo de se ser desonesto: querer mudar o que não se conhece, apenas para agradar a terceiros ou para poupar esforços e responsabilidades. Quando as partes extremam as suas posições, entrincheiram-se, lançam recados e, fugindo de um debate franco e sobretudo fraterno, dão um sinal claro de falta de honestidade e de autêntica liberdade.

O compromisso de se ser católico implica conhecer a Igreja, no que ela verdadeiramente é: mais do uma assembleia (pese embora seja esse o significado literal de igreja), é uma realidade familiar. Assim o define o Catecismo da Igreja (§542) ao referir-se ao Reino de Deus como a “Família de Deus”. Ser Igreja é ser família, viver o mandamento do amor, enquanto sinal global de que seguimos Jesus (João 13: 35). Deus não pode ser visto como presidente de uma assembleia sinodal, nem Jesus um seu secretário ou a Virgem Maria uma teóloga que propõe reflexões ao coletivo. Contrariamente, Deus é Pai (e um pai carinhosamente tratado, Abbá, paizinho), Cristo um irmão que inaugura uma aliança apoiada no amor, através da entrega da própria vida em favor dos outros, a Virgem Maria, a presença maternal conferida à Igreja aos pés da Cruz. Tudo isto, sinais de uma realidade familiar e não de uma composição jurídica, formal ou meramente estatutária.

Por conseguinte, a Igreja, para além do processo sinodal que agora vive, carece, urgentemente, de um processo de filiação, de inclusão familiar, é preciso que cada um dos mil e duzentos milhões de crentes se sinta família com os outros. É por isso que estes ímpetos ideológicos de querer operar uma epokhé universal da fé, uma suspensão universal do crer, desejando a construção de uma igreja a partir do nada, serve precisamente para ocultar o real problema dos membros da Igreja: não conseguirem viver enquanto Igreja. Para muitos, é mais fácil mudar toda a doutrina da Igreja e descomprometer-se com a vida dos outros, do que ser irmão e ajudar os outros a viver a sua cruz. Com a desculpa de uma falsa inclusão, quer-se institucionalizar o egoísmo de não ter que ser irmão. Uma igreja cristã que não seja família, não passará de uma assembleia de interesses, de maiorias convenientes e consensos oportunistas.

Pelo contrário, numa igreja que viva como família, as dores e dificuldades de padres, bispos ou religiosos, divorciados e/ou recasados, de pessoas em união de facto, de pessoas homossexuais, prisioneiros, pobres e excluídos serão as dores e dificuldades de todos. Diz a Carta de São Paulo aos Romanos: “Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram” (Rom 12:15); ou, nas palavras do Concílio Vaticano II, “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (Gaudium et Spes, §1).

Arremessar aos outros o “fardo” da doutrina, deixando-os sozinhos e privando-os de qualquer forma de apoio é uma espécie de Hunger Games, em que os fracos são lançados para um jogo de sobrevivência, contando com as próprias forças e capacidades: os que vencerem terão a glória de serem considerados iguais, os que não conseguirem, morrem no caminho… em cada caso, os restantes assistem, bem vestidos e alimentados, ao jogo.

Enquanto família eclesial, cada um daqueles que vive o peso das suas dores e dificuldades, deveria estar rodeado de irmãos capazes de compartilhar o peso, de muitas vezes levar aos ombros os que já não podem andar. Claro que é mais fácil a via alternativa! O celibato é difícil? acaba-se com ele; a fidelidade e a perpetuidade matrimoniais são difíceis de entender? relativizamos e modificamos; a castidade é um caminho árduo? inventamos uma nova moral sexual; o sacerdócio é algo incompreensível aos olhos do mundo? Funcionalizamo-lo. É preciso recordar que a Igreja serve para salvar pessoas (cân. 1752 do CDC), recuperar almas, superar as barreiras do meramente humano. Para que serve uma Igreja que se apresenta como mero produto de contextos históricos ou uma organizadora eficiente de festivais?

Nessa medida, antes de procurarmos consensos forçados devemos, previamente, procurar resolver o problema mais gritante da vida da Igreja: a falta de sentido de Igreja, de família. Viver uma atração sincera e total pela Verdade, mesmo que esta obrigue a renúncias ou sacrifícios, evitando os entrincheiramentos surdos, é o modo de vida do crente. Cada um deve viver a regra de ouro ensinada por Jesus: o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas (Mateus 7:12). Não podem os membros da Igreja agir como uma família disfuncional, não dialogante e apenas sustentada pelo uso da força e da autoridade. Se a Igreja se precipitar, num ímpeto reformista, para um casamento com o(s) espírito(s) da época, acabará inevitavelmente viúva a breve trecho. É preciso recordar que a Igreja já tem esposo, o próprio Cristo, dispensando-se – hoje e sempre! – qualquer solução de adultério conveniente.

A atual vivência sinodal da Igreja, para não acabar em 2023, depois de terminado o sínodo, deve evitar a teimosia de querer impor consensos forçados em soluções já escolhidas e que não resultam de uma escuta ativa do que Deus quer (como e quando quer) para a Sua Igreja.  A humanidade, por seu turno, precisa de uma Igreja capaz de apontar a Verdade e não uma igreja capaz de construir verdades ao sabor de conveniências e momentos. A Igreja ou é aquela de Mateus 16:18, de Cristo e por Ele edificada ou não será coisa alguma.

 

Carlos Moreira Antunes é catequista no Patriarcado de Lisboa e jurista.

 

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