A menos de um mês de distância

Crescem as expectativas em torno de um Sínodo… diferente

| 10 Set 2023

Imagem do caminho para a aula do Sínodo em 2018, no Sínodo dos Jovens. Foto © Ricardo Perna

Imagem do caminho para a aula do Sínodo em 2018, no Sínodo dos Jovens. Foto © Ricardo Perna

 

À medida que se aproxima a segunda e decisiva etapa do Sínodo – formalmente dos bispos, mas que, pelo menos desta vez, tem composição mais abrangente – vai-se evidenciando o interesse que o tema e o processo suscitam, por razões certamente diversas.

O secretariado do Sínodo acaba de anunciar quais os momentos em que as portas da aula sinodal se abrirão ao grande público e aqueles – os mais importantes – que ficarão reservados aos participantes, como noticiou o 7MARGENS. Contudo, depois da fase de auscultação ao povo de Deus, a nível diocesano e local, a partir de outubro de 2021, passando pelas etapas nacional e continental e culminando na elaboração e publicação do Instrumentum Laboris, que as expectativas cresceram.

Por muito que o Papa e os seus colaboradores sublinhem que é o Espírito do Evangelho que os membros do Sínodo devem, em primeiro lugar, escutar, é evidente que o Espírito se revela também na vida dos crentes e das comunidades, mas também nos apelos e anseios das sociedades em que as comunidades atuam, sobretudo dos descartados e esquecidos.

Isso ajuda a compreender que os trabalhos sinodais serão inevitavelmente palco de sensibilidades, perceções e aspirações diferentes e mesmo contraditórias, quanto ao modo de viver a fé cristã e de a Igreja Católica estar presente na sociedade e no planeta.

Como dizia há dias o experiente vaticanista e editor do jornal digital Crux, John L. Allen, que cobriu já 14 sínodos desde meados da década de 1990, mesmo com participantes que têm as suas agendas e interesses, “de um modo geral, o ambiente é menos tenso e as trocas de impressões mais abrangentes e construtivas do que aparece para o exterior”.

O jornalista reconhece, no entanto, que este Sínodo sobre a Sinodalidade, é diferente e, para muitos, surge como uma espécie de Concílio Vaticano II em miniatura. É expectável um forte interesse por parte dos media e da opinião publica, tanto dentro como fora da instituição eclesial, até porque, pela primeira vez, o voto de leigos e leigas vale tanto como o dos bispos.

Nesta linha, poder-se-ia dizer que, do ponto de vista comunicacional, seria mais inteligente apostar numa maior abertura dos trabalhos aos jornalistas acreditados, do que aquela que está planeada, circunscrita, no final de contas, aos discursos de abertura das sessões plenárias e setoriais e às orações e celebrações.

Aqui, porém, entra em jogo aquilo que o Papa Francisco observou, em resposta às compreensíveis inquietações dos jornalistas, no voo de regresso da viagem à Mongólia, quando alertou que o Sínodo não pode converter-se num show televisivo e deve acautelar a escuta e o discernimento de cada participante.

Mas há riscos, já que a pressão mediática será um facto sobre cada um dos membros sinodais, de forma a conseguir mais informação do que aquela que será diariamente filtrada pela estrutura de comunicação e informação oficial.

Temas como a doença do clericalismo; a participação dos leigos com poder deliberativo nos órgãos decisórios nas várias instâncias da Igreja; o lugar das mulheres na vida eclesial em todas as suas dimensões e níveis; as implicações do acolhimento de todas as pessoas que buscam a Igreja e o Evangelho, sem restrições; o estatuto e condições de vida do clero; a renovação da liturgia e da linguagem; ou as comunidades cristãs e a atenção aos novos descartados são matérias que entrarão inevitavelmente nas intervenções.

Ao contrário do que querem fazer crer os setores católicos que vêm contestando o percurso sinodal, em nada disto é a doutrina fundamental da fé que está jogo, mas antes modos de fazer e de estar e a fidelidade a Jesus Cristo, que podem fazer progredir a própria doutrina, que não é uma peça de museu. Os que se habituaram a julgar os outros e o mundo não suportam que o Papa lembre que Jesus não apontou o dedo acusador, antes abriu os braços para acolher os pobres e marginalizados.

No encontro com os Jesuítas, em Portugal, Francisco recordou tantos exemplos de mudanças profundas que ocorreram ao longo da história da Igreja, para sublinhar que essas mudanças são exigidas pela marcha da sociedade e pela leitura que delas vai fazendo à luz do Evangelho. “A doutrina também progride, expande-se e consolida-se com o tempo e torna-se mais firme, mas está sempre a progredir”, fez notar o Papa.

E o jesuíta norte-americano James Martin, convidado de Francisco no Sínodo recordava há dias, na revista America: “Qualquer pessoa que conheça a história da Igreja sabe que os ensinamentos da Igreja também se desenvolveram dramaticamente numa variedade de tópicos, incluindo a escravatura, o papel das mulheres, as relações ecuménicas, a liturgia, o limbo, a pena de morte, etc.”.

Ainda assim, valeria a pena refletir sobre alguns conselhos deixados por John L. Allen para o andamento dos trabalhos. O primeiro é que os responsáveis do Sínodo não desencorajem os participantes a fazer declarações aos media, considerando que isso contribuiria para uma cobertura mais próxima do que se passa nas sessões.

Em segundo lugar, entende Allen, os organizadores não devem ter medo de reconhecer a existência de discordâncias. Pretender o contrário seria “fantasia”. E dar-se-ia o testemunho de convivência das diferenças num mundo polarizado.

O ponto seguinte é valorizar mais o percurso do que o resultado final, dado que este dependerá, em grande medida, da vontade do Papa, que tem a última palavra. Vale, então, a pena prestar atenção às experiências das diferentes partes do mundo, para construir perspetivas globais.

Em terceiro lugar, um sínodo tem a ver com a viagem, não com o destino. Apesar das características quase democráticas do exercício, em última análise, um sínodo é apenas um órgão consultivo, e continua a ser o Papa a tomar decisões.

Por fim, uma “proposta modesta”: “Vamos ver se conseguimos passar, pelo menos, as fases iniciais sem usar termos como ‘heresia’, ‘cismático’, ‘reacionário’, ‘mente fechada’ e outros semelhantes. Regra geral, estes pejorativos substituem a reflexão – permitem-nos rejeitar a priori as ideias de alguém, em vez de as levarmos a sério”.

O Vaticano definiu uma metodologia de trabalhos que assegura que, em torno da comunhão, participação e evangelização, cada intervenção seja refletida e ponderada por todos participantes, sem impedir que todos tomem a palavra. Mas não será de estranhar que, da riqueza de tanta diversidade, as surpresas venham a surgir. Porque “o Espírito sopra onde quer”.

 

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