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Porto, Racismo, Manifestação

Família não denunciou o caso "por medo"

Criança nepalesa agredida com violência, por colegas, numa escola em Lisboa

e | 14/05/2024

Porto, Racismo, Manifestação

Protesto contra o racismo na Avenida dos Aliados, no Porto, em Junho de 2020. Foto © Catarina Soares Barbosa

Um rapaz nepalês de nove anos foi alvo de agressões por parte de colegas numa escola em Lisboa, no início deste ano. Para além disso, os colegas terão proferido frases discriminatórias, de índole racista e xenófoba. A notícia, divulgada nesta terça-feira, 14, pela Rádio Renascença (RR), já mereceu a reação da ministra da Administração Interna, Margarida Blasco, que considerou a situação “de uma gravidade imensa”.

“Todos os crimes, e sobretudo os crimes de ódio, são de uma gravidade imensa”, afirmou a governante, citada pela Agência Lusa. “Aquilo que eu posso adiantar é que, em conjunto com as autoridades policiais, vamos reforçar quer o policiamento junto das escolas, quer o policiamento de proximidade, no sentido de recolocar o dispositivo de forma a prevenir, que é uma primeira fase”, acrescentou.

Em causa está uma denúncia feita por Ana Mansoa, diretora executiva do Centro Padre Alves Correia (Cepac), uma instituição ligada à Congregação do Espírito Santo (Missionários Espirittanos), de um caso de agressão a uma criança nepalesa que ocorreu há dois meses numa escola lisboeta. “O filho de uma senhora acompanhada pelo Cepac, que tem nove anos e que é uma criança nepalesa, foi vítima de linchamento no contexto escolar por parte dos colegas. Foi filmado e divulgado nos grupos do WhatsApp das crianças”, relata Ana Mansoa, que opta por não revelar o agrupamento em que tudo se passou, pois a família ainda recorda a sucedido com medo e apreensão.

De acordo com Mansoa, a agressão foi levada a cabo por cinco colegas da criança, aos quais se juntou um sexto para filmar o sucedido e consequentemente publicar nas redes sociais. “Foi muito grave e com um impacto muito grande, não só no bem-estar físico, mas também emocional e psicológico desta família, que acabou por pedir transferência da escola, [que] acabámos por conseguir concretizá-la para a segurança da criança”, refere a diretora do CEPAC.

“O menino ficou com hematomas pelo corpo todo e feridas abertas. Acabaram por ser tratadas pela mãe porque teve medo e quis evitar ir a um hospital ou centro de saúde”, afirmou, citada pela mesma fonte, acrescentando que tais agressões físicas dão a estas pessoas “a perceção de que não são bem-vindas, não são bem tratadas e não são bem acolhidas”. Esta mãe, diz ainda Ana Mansoa, “por medo”, manteve o filho em casa para tratar dele. Não foi, por isso, apresentada queixa às autoridades. “O menino acorda de noite com pesadelos e a chorar, não quer ir para a escola”, conclui.

Esta família nepalesa encontra-se há dois anos em Portugal. “Estão integrados socialmente, têm rendimento fixo e a situação contributiva regularizada”, afirma Mansoa. No que diz respeito às motivações do ataque, diz que no filme há palavras racistas e xenófobas das crianças agressoras em relação à vítima. “A criança foi agredida também verbalmente com nomes que não posso proferir, a que se somaram frases como “Vai para a tua terra”, “Tu não és daqui”, “Não queremos nada contigo”.

Um dos agressores foi suspenso por três dias, ação que Mansoa critica. “Foi muito insuficiente para a gravidade dos factos. Tanto assim é que a família [nepalesa] não se sentiu segura na escola e pediu transferência”, menciona. “Foi uma abordagem muito conservadora. Foi um discurso que pôs o enfoque em serem crianças, não poderem valorizar estes comportamentos e que a mesma tinha sido uma situação isolada. A própria escola não denunciou o caso. A meu ver isto é grave, pois as pessoas vão-se sentindo não acolhidas, num país que já é o delas”, refere.

Esta denúncia surge pouco depois dos ataques do início deste mês de maio, no Porto em que mais de uma dezena de imigrantes foram atacados em três lugares diferentes da cidade.

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