Criança no centro?

| 22 Jul 19

Há alguns anos atrás estive no Centro de Arte Moderna (Fundação Gulbenkian) ver uma exposição retrospetiva da obra de Ana Vidigal. Sem saber exatamente porque razão, detive-me por largos minutos em frente a este quadro: em colagem, uma criança sozinha no seu jardim; rodeando-a, dois círculos concêntricos e um enredado de elipses. Ana Vidigal chamou àquela pintura: O Pequeno Lorde. Numa primeira instância, lembrei o romance infanto-juvenil homónimo por Frances Burnett publicado na Biblioteca Azul, que lera na minha infância e me fizera chorar de pena por aquela criança tão só.

 

Ana Vidigal, “O Pequeno Lorde”

 

As formas concêntricas e elípticas acentuam a posição daquela criança no centro. Parece-me poder afirmar que a “criança no centro” é um sinal pouco salutar na sociedade de hoje – e isso explica a minha perplexidade com o quadro. Relaciona-se com a criança que se julga o ser determinante do universo, a criança consumidora compulsiva, a criança “sem limites”, a criança associal: um “reizinho” no meio do seu séquito bajulador; uma “criança-casulo” envolvida em si própria e isolada dos seus pares…

A redução das taxas da natalidade e, ainda, a existência de muitas famílias onde predomina o filho único, o acesso ao consumo desenfreado e ao condicionamento que ele coloca a adultos e crianças, o facto de as famílias frequentemente se demitirem do seu papel educador e formador – seja ele filho único ou um entre irmãos –, remetendo para a escola essa tarefa, todos estes factos têm contribuído para criar novos “meninos selvagens”ao jeito de Truffaut (1970).

O Pequeno Lorde é ilustrativo desta condição infantil: o menino no “centro” com o mundo todo girando à sua volta. Quando ando no metropolitano à hora do regresso da escola, vejo avós ajoujados com as mochilas dos netos. E, como se isso não bastasse, quando há um lugar livre senta-se a criança enquanto o avô/avó fica de pé segurando a mochila. Fico perplexa na certeza de que algo está ao contrário, errado. Esta ideologia da “criança no centro” é perniciosa para as próprias crianças.

Há alguns anos trabalhei em Timor-Lestecomo consultora para a educação,  com o apoio da Fundação Open Society (de George Soros) e da UNICEF. Desenvolvi todo um programa-proposta para a expansão e desenvolvimento da educação pré-escolar nesse país. Nesse processo fui criticada pela UNICEF e várias ONG por não usar suficientemente a perspectiva da “educação centrada na criança”. Mas que quer dizer o discurso da criança “no centro” numa cultura ancestral centrada na comunidade como é a de Timor-Leste? Não se tratará de uma visão contextual  anglo-saxónica – e a respectiva cultura do individualismo – exportada para outros países, com total ausência de sensibilidade cultural? Será que não se trata de um discurso neocolonial? Que quer dizer família centrada na criança, sociedade centrada na criança, currículo centrado na criança? De que “centro” estamos a falar?

A minha interpretação pessoal da pintura de Ana Vidigal é de que o natural na criança é ela querer estar imersa em relações, querer interagir com outros e tornar-se interdependente. O desafio colocado por esta obra de arte – pelo menos para mim – é a necessidade de repensar a educação da criança num mundo de interações realizadas em diferentes comunidades: a família (onde ela é uma entre outros), a escola (uma comunidade de pares e de adultos), uma determinada comunidade imersa num contexto específico, a sociedade em geral. A criança é “central”, mas ela não é “o centro”. O centro é um mundo complexo e intrincado de relações que interagem entre si.

Pergunto se a criança é realmente “o centro” ou se fará parte de um universo claramente policêntrico? Queremos uma família ou uma escola “centradas [apenas] na criança”? Ou será que a criança não fará parte de um universo familiar poli/multicentrado? A nosso ver a criança é central – o que é subtilmente diferente de ser o centro – movendo-se num universo policêntrico: a criança é parte de um rico universo de interações que a estimulam e, simultaneamente, a limitam.

O Pequeno Lorde de Ana Vidigal, na minha interpretação muito pessoal, ilustra esta ideologia dominante: a criança no centro, com o mundo a rodar em torno de si. O quadro de Ana Vidigal confrontou-me com esta ideologia da satisfação imediata que leva à insatisfação imediata. Será que o desejo ou a aspiração não poderão ser um contraponto ao excesso do “ter”?

Assim, a criança é central, mas não é o centro. As crianças vivem num mundo de interações. As crianças não são seres isolados, fazem parte de uma variedade de contextos humanos, sociais, culturais e históricos. O centro do ato educativo é uma rede intrincada de relações da qual a criança faz parte.

Daniel Barenboim, o reconhecido maestro e fundador de uma orquestra que reúne músicos dos dois lados do conflito palestino-israelita, aborda a necessidade, aparentemente contraditória, de cooperação e interdependência para conseguir a plenitude da experiência individual:

Sempre que tocamos música, seja de câmara ou em orquestra, temos de fazer duas coisas muito importantes ao mesmo tempo. Uma é exprimirmo-nos – caso contrário não contribuímos para a experiência musical – e a outra é escutar os outros músicos, faceta indispensável para se fazer música. (…) A arte de tocar música é a arte de simultaneamente tocar e escutar, sendo que uma reforça a outra. Isto passa-se tanto a nível individual como colectivo: a execução é valorizada pela escuta e uma voz é valorizada pela outra. Esta qualidade dialógica, inerente à música, foi a principal razão que nos levou a fundar uma orquestra. (Daniel Barenboim, Está Tudo Ligado: O poder da Música.Lisboa: Bizâncio. 2009,p. 70).

Deixo os leitores com a metáfora da orquestra em contraponto ao “Pequeno Lorde”.

 

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e membro do Graal –   Movimento Internacional de Mulheres Cristãs.

Contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

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