Deram-lhes nomes de gente – Anna, Elsa, Greta e Rudi – mas são burros que acabam de dar entrada no Jardim Zoológico de Oppenheim, na Alemanha. “Deixaram para trás a fome e a miséria, os espancamentos e o trabalho penoso … e encontraram um novo lar” na Alemanha, segundo conta o jornal Allgemeine Zeitung Mainz.
A subdiretora do Zoológico, Anke Eppensteiner, conta àquele jornal, que a ideia de resgatar burros da “distante Gaza” já tinha surgido, visto que o espaço de que é responsável adota o conceito de “operação inclusiva”. Foi, então, estabelecido um contacto com uma organização israelita de ajuda animal que “havia resgatado 50 burros de Gaza – com o objetivo de os trazer para a Europa”, por ter alguns “santuários” de acolhimento.
Os amigos dos animais do lado alemão viram aqui um campo em que podiam ajudar. Ainda consideraram possíveis críticas que poderiam surgir, da parte de quem entendesse que retirar os burros aos palestinianos seria retirar-lhes “o seu sustento”. Mas sentiram-se confortáveis com o facto de os animais resgatados se encontrarem, pelo menos em alguns casos, em “condições lamentáveis” – “animais de trabalho maltratados que provavelmente se libertaram ou foram escorraçados”, acrescenta a reportagem.

‘(…)fica-se a perceber que a versão de que os soldados israelitas “resgataram” os burros” não joga com a versão do lado palestiniano, que fala em “roubo”.’ Foto © Safe Haven for Donkeys
De facto, nos últimos meses, jornais como o Haaretz, de Israel, ou a BBC News deram espaço às preocupações com animais abandonados, nomeadamente na Faixa de Gaza. No caso do Haaretz, fica-se a perceber que a versão de que os soldados israelitas “resgataram” os burros” não joga com a versão do lado palestiniano, que fala em “roubo” e que chama a atenção para o papel dos burros no transporte de doentes ou pessoas com deficiência, ou mesmo dos pertences das famílias, nas sucessivas deslocações forçadas a que a população tem sido compelida. Na situação de fome, que foi aplicada como medida de guerra por Israel, e que afetou também os animais, alguns palestinianos chegaram a apresentar os burros, cães e gatos como merecedores de ajuda alimentar, já que os humanos a isso não tinham direito.
Entretanto, esta terça-feira, 18 de novembro, o jornal digital, sediado no Reino Unido, Middle East Monitor retomava a notícia do jornal alemão e do “resgate” de quatro burros de Gaza, comentando que se trata de “mais uma prova do cinismo desumano dos líderes alemães”. Enquanto os animais são bem recebidos, afirma aquela publicação, “praticamente nenhum ser humano de Gaza foi admitido na Alemanha”, desde outubro de 2023. Enquanto terá concedido cidadania a israelitas que foram feitos prisioneiros nas operações militares em Gaza após o 7 de outubro, a Alemanha “não priorizou o resgate de cidadãos palestinos com passaportes alemães vítimas do genocídio em Gaza”, refere o Middle East Monitor.
Relativamente a situações de emergência de crianças palestinianas feridas ou doentes que necessitavam de tratamento urgente no estrangeiro, a peça observa que países como a Espanha, por exemplo, aceitaram receber vários contingentes para tratamento, só no primeiro ano do conflito, ao passo que a Alemanha terá autorizado não mais de duas crianças, em mais de dois anos, mesmo depois do cessar-fogo e apesar de vários hospitais deste país se terem disponibilizado para esse fim.
Finalmente, sobre os maus tratos alegadamente dados aos burros pelos palestinianos, o jornal inglês cita o jornal alemão, segundo o qual ” [os burros] suportaram fome e miséria, espancamentos e trabalho”, para criar a ideia de que os habitantes de Gaza são “abusadores de animais”, além de “não mencionar quem é responsável pela fome dos burros – ou pela privação de [alimentos a] quase dois milhões de palestinianos”.










