AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Padre Max, Braga
Parede em Braga, com inscrição perguntando quem matou o padre Max: a resposta ainda é muito incompleta. Foto © Eduardo Jorge Madureira/7MARGENS

Assassinato foi há 50 anos

Crime contra um padre e uma estudante: o CDS, a extrema-direita e o cónego

| 01/04/2026

Cinquenta anos depois do atentado na aldeia da Cumieira (Vila Real), parte dos factos que envolveram o assassinato do padre Maximino de Sousa e da estudante Maria de Lurdes Correia continuam por esclarecer. Na noite de 2 de Abril de 1976, depois de a Assembleia Constituinte ter aprovado a Constituição democrática, a pequena aldeia transmontana foi abalada por um atentado que vitimou aqueles dois membros da JEC (Juventude Escolar Católica) – ele assistente, ela militante [ver outro texto no 7MARGENS].

Segundo o tribunal, o acto terrorista foi perpetrado pelo Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), uma das organizações bombistas de extrema-direita que existiram em Portugal no início da democracia. Terá sido executado por mercenários contratados por pessoas com ligações ao CDS, e envolvendo figuras políticas e eclesiásticas – neste caso, o cónego Eduardo Melo Peixoto, da arquidiocese de Braga, que acabaria absolvido mais tarde pelo tribunal, mas nunca se livraria das suspeitas de ter estado envolvido de alguma forma no acontecimento.

Um trabalho do jornalista Delfim Machado, no Jornal de Notícias, domingo passado (acesso exclusivo a assinantes), recorda, com novos detalhes, que o crime nunca teve culpados condenados; mas, nas últimas décadas, vários fragmentos da história foram sendo revelados. Um deles, a confissão assumida por um dos operacionais que colocou a bomba no carro do padre Max: Manuel Vicente da Cruz Gaspar contou, em entrevista ao jornalista Ricardo Saavedra, publicada no livro O Puto (edição Quetzal, 2014), que ele foi um dos que executou o atentado, encomendado por alguém que trabalhava na segurança de um dos quadros de topo do CDS, o deputado e general Galvão de Melo.

Manuel Gaspar, refere o JN, nascera em Moçambique, ligou-se à Frente Nacional de Libertação de Angola, um dos movimentos independentistas e não gostava da forma como foi feita a descolonização. Veio para Portugal participar em acções terroristas, entre as quais o atentado contra o padre Max: “O objectivo era o carro de um padre comunistóide de Trás-os-Montes, que usava boina à Che e, embora professor, precisava de uma lição à antiga”, contava ele.

Na manhã do dia 2, Gaspar foi à Figueira da Foz, onde recolheu Carlos dos Santos Favas, um parceiro de assaltos e do Esquadrão Chipenda. Em Vila Real, ambos se encontraram com o mandante e outros dois executores, que Gaspar desconhecia. O mandante seria Carlos Alberto Ribeiro, que vivera em Angola e também integrara o Esquadrão Chipenda, “membro do MDLP e do CDS e ocasional guarda-costas de destacadas personalidades, onde se incluía o general Galvão de Melo”, que planeara um ataque à embaixada de Cuba.

De acordo com o relato do JN, os cinco foram para a Cumieira e programaram a bomba para daí a três horas e meia, que colocaram no carro, que tinha ficado aberto. Ficou pousada “no chão entre os bancos de trás e os da frente”.

 

“Não vos mataram, semearam-vos”

Cónego Melo, Braga, Padre Max

Inscrição na estátua do cónego Melo, em Braga, insinuando o seu envolvimento no assassinato do padre Max. Foto © Eduardo Jorge Madureira/7MARGENS

Na última viagem, Max deu boleia a Maria de Lurdes Correia e ao seu namorado, Carlos Alberto Pinto. Os três saíram da Casa da Cultura, onde tinham participado numa acção de alfabetização. Trezentos metros depois, segundo o processo judicial consultado pelo JN, o padre deixou Carlos Alberto em sua casa, e seguiu viagem para casa de Maria de Lurdes, que vivia com a avó e uma irmã, e em casa de quem Max arrendara um quarto.

Antes disso, Carlos Alberto ainda dera conta do embrulho no chão do carro e de uma luva no assento de trás. Max, que já andava a receber ameaças de morte, desvalorizou ambos.

O atentado seria condenado por instâncias políticas mas, na Igreja Católica, além de declarações tímidas, só a 8 de Abril o semanário católico Nova Terra – que existiu entre Maio de 1975 e Fevereiro de 1977, era feito por jornalistas e dirigido pela escritora Maria de Lourdes Belchior – escrevia, numa nota assinada por O.L.: “Até aqui, os atentados bombistas tinham-se limitado a estragos materiais, por vezes avultados, mas nunca tinham feito vítimas, entre os directamente visados. Agora há duas mortes a lamentar, isso acontece em região tradicionalmente cristã. São dois militantes cristãos que tombam e um deles é padre.”

Uma tese sobre o jornal, da autoria de Rui Martins, cita textos publicados pelo Nova Terra a propósito do atentado. Naquele artigo, o mesmo autor acrescenta, de acordo com a tese a que o 7MARGENS acedeu: “inserido na Igreja como padre, em união com o seu bispo, assistente de jovens militantes cristãos do movimento JEC, [Max] lutava por uma Igreja que pudesse dar ao Mundo um testemunho mais límpido de Cristo e do seu Evangelho. Procurava vivê-lo já, numa experiência cristã de empenhamento pelos pobres, verdadeiramente libertadora. A sua aceitação até ao fim dos riscos inerentes às opções que assumira era proverbial.”

Entre os nomes ligados à rede bombista, esteve também o do cónego Eduardo Melo, na altura vigário-geral da arquidiocese de Braga e que mais tarde seria arguido no processo, acusado com base em testemunhos de elementos da rede.

Tal como os restantes membros acusados, o cónego Melo acabaria absolvido. Ainda assim, foi visto em reuniões e encontros com operacionais e líderes da rede bombista e do MDLP ou do ELP (Exército de Libertação de Portugal) – como Ramiro Moreira, por exemplo. Em Outubro de 1975, num almoço no Seminário de Santiago, em Braga, conta ainda o JN, o padre preparou o regresso do general António de Spínola ao país. O almoço foi interrompido por militares de esquerda e o cónego Melo escondeu três elementos no telhado: Alpoim Calvão (chefe operacional do MDLP), Paradela de Abreu (dirigente do Plano Maria da Fonte) e Ângelo do Nascimento, do MDLP. Alpoim referia-se ao cónego como “pedra-chave de toda esta movimentação”. Eduardo Melo morreu em 2008, com 80 anos.

Padre Max assassinado à bomba: afinal quem era ele? – um testemunho

Logo a seguir ao atentado, vários grupos católicos que criticavam o silêncio de boa parte da hierarquia, homenagearam Max e Maria de Lurdes com a frase: “Não vos mataram, semearam-vos.” Cinquenta anos depois, será esse lema que presidirá ainda a três homenagens: às 15h30 desta quinta-feira, dia 2, haverá deposição de flores e leitura de poemas no cemitério de Santa Iria, Vila Real; às 18h30, na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (Rua Rodrigues Sampaio, 140) haverá uma sessão evocativa. Para dia 9, está a ser organizada uma outra sessão no Porto, ainda sem hora e local designados. O 7MARGENS dará dela notícia oportunamente.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This