Crise económica e espiritualidade da vida

| 4 Mai 19

Espiritualidade em tempo de crise (II)

A Porta de Brandemburgo, em Berlim, foi durante décadas o lugar simbólico da divisão entre o Ocidente democrático e capitalista e a “Cortina de Ferro” totalitária e comunista. Foto © António Marujo

 

Para algumas e alguns de nós que vivemos na segunda metade do século XX, parece-nos óbvio recordar que assistimos nessa altura a um mundo tremendamente dualizado e polarizado (a chamada “Guerra Fria”, no entanto com vários locais de “guerra quente”).

De um ponto de vista económico, contrapunham-se, de uma maneira um tanto simplista, economia capitalista e economia socialista. A economia capitalista, superada a crise terrível de 1929, estava em franco crescimento nos anos 60 (até à chamada “crise do petróleo” de 1973), no designado “Primeiro Mundo”. Era tido como um modelo que defendia a liberdade (dos mercados e dos capitalistas) e o desenvolvimento (de vários países do bloco ocidental, certamente, em detrimento de outros, de capitalismo periférico). Por outra parte, o mundo comunista, que defendia a economia socialista, dizia preocupar-se mais com a igualdade e a justiça social (era acusado, porém, de não respeitar os direitos humanos).

Não sou economista, mas sociólogo, e aí parece-me observar que no Primeiro Mundo (linguagem da época) imperava, no seu melhor (Europa nórdica e não só) um capitalismo de maior orientação social, proteção humana, respeito pelos direitos individuais (dos proprietários e das empresas). Pretendia-se o Estado de bem-estar, levado a cabo (ou não) por partidos social-democratas. Pretendia contrapor-se ao modelo económico soviético, dizendo: “nós também, capitalistas, preocupamo-nos pelos direitos das e dos trabalhadores, e até o fazemos melhor do que vós.” A acusação do bloco comunista, o “Segundo Mundo”, era que os países ocidentais se preocupavam somente com os direitos individuais mas tinham esquecido os direitos sociais, económicos e políticos.

 

Um debate de hipocrisias

Todo este debate, porém, estava cheio de ambiguidades, de hipocrisia e de mútua propaganda.

O tipo de capitalismo ocidental praticado não era universalizável. Já nessa época se dizia que, se todos os países do mundo tivessem o nível de consumo dos EUA, seriam precisos pelo menos cinco planetas para o realizar. O capitalismo nunca resolveu totalmente – e até incrementou – as enormes diferenças económicas entre os diversos países do “Primeiro” e “Terceiro Mundo”, e entre as minorias governantes e empresariais e os seus trabalhadores/as. Ou seja, aumentou a desigualdadea nível planetário. Que o diga a maioria dos povos da África, Ásia e América Latina, naquela época designados de “Terceiro Mundo”. A questão complicou-se ainda mais quando este capitalismo dos anos 1960 gerou posteriormente, já na década de 1980, o capitalismo neoliberal, impulsada pelo presidente Ronald Reagan, dos EUA, e Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido.

Por parte do Bloco do Leste conseguiram-se eliminar as mais gritantes diferenças, fomentou-se a educação e a saúde, por exemplo, mas, paradoxalmente, perdeu-se a “mística originária” e tudo derivou mais num capitalismo de Estado do que noutra coisa. O patrão era agora o Estado como tal e o Partido era quem mandava, em último termo. A dominação social não vinha agora pelo âmbito económico, como acontecia basicamente no modelo capitalista, mas desde o âmbitopolítico: quem dominava os aparelhos administrativos do Partido dominava o Estado e dominava também a sociedade e a sua organização económica. A nomenklaturaacabou por ser uma casta de privilegiados dentro de um mundo chamado “comunista”.

Chamamos então aqui “crise económica” ao facto social de que nem o capitalismo social (e depois neoliberal puro e duro), nem o socialismo/capitalismo de Estado, resolveram realmente os problemas económicos da Humanidade.

O “Terceiro Mundo” foi sempre vítima da hegemonia ocidental ou da hegemonia soviética. Alinhados em definitivo com um dos dois blocos, foram sempre os explorados de ambos, económica e politicamente. Com a implantação progressiva do modelo económico de capitalismo neoliberal, as assimetrias aumentaram imenso nos interiores dos próprios países, ficando à frente uma casta cada vez mais rica e minoritária (com negócios fabulosos), e outra realidade social maioritária, cada vez mais ampla e progressivamente desprotegida de direitos sociais adquiridos, tendo por base muita luta histórica.

As grandes vítimas foram – e são ainda – os países ironicamente chamados de “países em desenvolvimento”, especialmente as camadas mais pobres, e também as mulheres, as crianças, @s jovens, os indígenas e outras etnias secundarizadas.

 

O que dirá uma Espiritualidade holística?

Foto © Erik Brolin/Unsplash

 

E agora a pergunta: como se situa a Espiritualidade neste contexto?

Uma Espiritualidade sã e holística não pode deixar de criticar os chamados “valores burgueses”, conservadores, os chamados valores do “individualismo”, da “liberdade” (sem equilíbrio da igualdade), do “consumismo”, do “materialismo”, do crescimento de uma hiper-tecnologia imune à crítica do humanismo e, além disso, anti-natureza, etc. Mas também terá que criticar a hipocrisia do que foi o chamado modelo de “socialismo real” (ou “irreal?), burocrático, incapaz de resolver sadiamente a dialética entre oferta e procura, de estagnação com controlo centralizado de tudo…

(Estamos assim – e continuamos – no reino das “in-verdades”, como se diz agora, onde as palavras escondem e mentem sobre a realidade, ocultando-a, invertendo-a, desfigurando-a… Um reino “orwelliano”).

Uma Espiritualidade que se preze não pode ficar, porém, equidistante de uma crítica condenatória de ambos os modelos. Pessoalmente, penso que sentirá mais simpatia por um modelo socialista, já que este promove, ao menos em teoria, os valores sociais da coletividade, da justiça social, do bem comum e da predominância do “nós” sobre um “eu” isolado e individualista. Claro, terá de ser um socialismo diferente daquele socialismo de Estado, chamado marxista-leninista (ai, se Karl Marx levantasse a cabeça!), ou da social-democracia, um mero capitalismo com algum controlo social por parte do Estado (“grilhões de ouro”, mas grilhões ao fim e ao cabo).

Deveria atrever-se a procurar um caminho novo.

O que há de novo nesta dinâmica é que a Espiritualidade deverá acompanhar este processo de socialismo humanista. Talvez respeitando o mercado, procurando uma organização económico-social sem imposições externas do Estado (não seria melhor que este último desaparecesse, pois ele nunca foi um “Estado neutro”, como é apregoado, mas sempre um “Estado de classe”?). Todavia, terá que conjugar liberdade com igualdade e justiça social, de género e ecológica (eco-socialismo) e um longo etc. Será possivelmente uma organização social cujos meios de produção estejam por fim nas mãos das e dos trabalhadores (e não do Estado). Ou seja, uma sociedade com auto-organização integral, e não governada de cima para baixo, e de fora para dentro.

Porque não chamar a isto “socialismo autogestionário”?

Uma nova espiritualidade, holística, terá que acompanhar este socialismo autogestionário, para que não se distorçam, uma vez mais, as grandes utopias da Humanidade.

 

Rui Manuel Grácio das Neves é frade dominicano, “Bodhisattva” da “Sangha” Zen de Lisboa e trabalha presentemente sobre a Espiritualidade Holística

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