A notícia da morte do Papa Francisco, ocorrida esta segunda-feira no Vaticano, provocou uma onda de comoção nas comunidades cristãs da Terra Santa, especialmente em Gaza, onde o pontífice manteve contacto constante com a pequena paróquia católica durante o conflito que devasta o território há mais de um ano. “A última vez que falei com o Santo Padre foi há dois dias, na sexta-feira passada”, revelou Gabriel Romanelli, pároco da igreja da Sagrada Família em Gaza, único templo católico do enclave palestiniano. “Ele telefonou-me para perguntar sobre a situação e manifestar a sua proximidade à comunidade. Poucos podiam imaginar que seria o seu último telefonema para nós.”
Segundo o sacerdote argentino, o Papa mostrou-se “muito preocupado com a situação humanitária em Gaza” durante a conversa. A paróquia, que alberga cerca de 600 pessoas deslocadas, tem sido um dos poucos refúgios seguros numa zona devastada pelo conflito israelo-palestiniano. “O Papa Francisco nunca esqueceu Gaza. Ligava-me frequentemente para saber das condições da população e para expressar a sua solidariedade. Mesmo debilitado pela saúde, manteve Gaza no seu coração”, acrescentou o padre Romanelli.
Em Belém, na Cisjordânia ocupada, o patriarca latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, expressou profunda tristeza pela morte do Papa. “Perdemos não apenas o nosso Santo Padre, mas um verdadeiro defensor da paz na Terra Santa e um grande amigo do povo palestiniano”, afirmou o cardeal, que foi nomeado por Francisco em 2020.
Pizzaballa recordou as várias ocasiões em que o pontífice pediu o fim dos combates e a proteção dos civis. “Nas suas audiências semanais e nos seus discursos, Francisco referiu-se ao ‘martírio de Gaza’ mais de 30 vezes desde outubro passado. Era uma voz incessante pela paz quando tantos outros permaneciam calados.”
O custódio da Terra Santa, frei Francesco Patton, destacou a sensibilidade especial que o Papa argentino demonstrou pela situação dos cristãos na região: “Ele compreendia profundamente o significado de ser uma minoria vulnerável num contexto de tensão permanente. A sua opção preferencial pelos pobres refletia-se no seu constante apelo à proteção das comunidades cristãs do Médio Oriente.”
Na Síria, país devastado por mais de uma década de guerra civil, a notícia da morte do Papa provocou igual consternação. O arcebispo maronita de Damasco, Samir Nassar, descreveu Francisco como o “pai dos refugiados sírios”. “Quando ninguém falava do nosso sofrimento, o Papa Francisco fez da Síria uma das suas prioridades”, afirmou o arcebispo. “Os sírios nunca esquecerão o seu apelo de 2016, quando incentivou cada paróquia europeia a acolher uma família de refugiados.”
O bispo de Alepo, Georges Abou Khazen, recordou a visita que Francisco realizou ao campo de refugiados de Lesbos, na Grécia, em 2016: “Aquele gesto de levar consigo no avião papal famílias sírias muçulmanas para o Vaticano mostrou ao mundo que a solidariedade não tem fronteiras religiosas. Foi um testemunho poderoso.”
Enquanto em Roma se preparam as cerimónias fúnebres do pontífice, nas comunidades católicas de Gaza, Jerusalém, Belém e da Síria multiplicam-se as missas em sufrágio de Francisco.









