Cristãos e compromisso cívico

| 7 Mar 2024

Jogo de xadrez, confronto. Foto Svcos

“A habitual tensão nestes períodos, compreensível na apresentação das propostas tem vindo ultimamente, e não só em Portugal, a atingir patamares preocupantes de intolerância, inimizade, irracionalidade, demonização e, mesmo, de confronto.” Foto © Svcos

 

A procura em diferentes contextos – familiares, laborais, sociais ou políticos – de opções enquadradas por uma matriz enraizada nos Evangelhos, na Doutrina Social da Igreja, no Sínodo em curso e nos marcantes desafios do Papa Francisco, alertando para o compromisso individual, “Não fiquem no sofá, sejam protagonistas da História”, com óbvio reflexo comunitário, sustentaram esta reflexão, em tempo eleitoral.

A habitual tensão nestes períodos, compreensível na apresentação das propostas, por vezes contraditórias de cada força partidária, tem vindo ultimamente, e não só em Portugal, a atingir patamares preocupantes de intolerância, inimizade, irracionalidade, demonização e, mesmo, de confronto. Da pluralidade de razões, destaca-se aqui o discurso, já bem identificado, das forças de direita populista radical orientado, por exemplo para:

– a redução da realidade complexa a uma simplificação artificial, a qual supostamente permitiria a resolução dos problemas, muitos deles sistémicos, e a escalas bem distintas, desde o desenvolvimento sustentável à promoção da economia verde e às alterações climáticas, passando pelos que diariamente afetam as vidas daqueles que estão obrigados a contar o cêntimo;

– a intolerância, materializada numa linguagem de aversão ao que vem de fora, olhando o fenómeno migratório como ameaça à segurança interna, ao “roubo do posto de trabalho”, ou mesmo à identidade nacional, esquecendo que esta nem é estática, nem tem de ser excludente, mas antes inclusiva. A importância do trabalho, por vezes crucial, produzido por quem chega, a sua contribuição para a melhoria de parâmetros indicadores de natalidade numa sociedade envelhecida, ou mesmo os efeitos positivos para o orçamento da Segurança Social, são elementos perversamente escondidos;

– a hostilidade da linguagem para com minorias sociais internas, refletindo um nacionalismo subjacente associado, até à cor de pele e à religião, já que, supostamente, poriam em causa o grupo étnico maioritário, numa visão diametralmente oposta do multiculturalismo que, ao respeitar culturas ancestrais, contribui para uma sociedade em que a convivialidade deve ser regra;

– o cavalgar de erros e de inconsequências das políticas vigentes, refletidas na deterioração das condições de vida, na insegurança do mercado de trabalho, na injusta distribuição da riqueza criada visando, por um lado, apostar na progressiva perda de confiança no sistema político e, por outro, justificando tudo com o antagonismo entre as elites económicas, políticas e corruptas que governam e o povo puro, por si representado. A retórica da luta entre “eles” e “nós”, dos “maus” contra os” homens de bem”.

Estas são situações exemplificativas de um quadro que revela um artificialismo perigoso, um assumido afastamento da realidade, um discurso de medo pretendendo conduzir ao levantamento de muros, à impossibilidade de diálogo, à manipulação das opiniões, a nacionalismos fechados, a uma lógica de todos contra todos. Assim, qualquer” projeto com grandes objetivos para o desenvolvimento de toda a humanidade soa como um delírio” e onde o Mundo deixa de prevalecer para ficar “apenas o «meu» mundo; e muitos deixam de ser considerados seres humanos com uma dignidade inalienável passando a ser apenas «os outros» (Fratelli Tutti, nº 27).

Contrariar esta matriz discursiva de indignação, com reflexos comportamentais, passa em momentos eleitorais, por fazer escolhas claras, votando. Escolhas que rejeitem projetos promotores de perversas e ilusórias simplificações artificiais, de divisões maniqueístas, de segregação de etnias, de nacionalismos redutores associados à xenofobia, de discursos de ódio. Escolhas que se revejam, por exemplo, na Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10: 25-37) sob o signo “Quem é o meu próximo?” Desafio sério para se construir uma cultura de encontro, um modo de nos tornarmos vizinhos, a caminho da almejando paz social.

No contexto deste manifesto, pode igualmente fazer sentido registar o que Karl Popper designou de “O paradoxo da intolerância” para responder à seguinte questão: devemos tolerar os intolerantes? A resposta do filósofo, claramente Não – já que a tolerância ilimitada levaria à extinção da própria tolerância – precisa de se harmonizar com uma atitude plural. Popper também reconhece que “ninguém sabe o suficiente para ser intolerante”, fazendo ponte com a ideia de Alain Touraine: “A procura da tolerância não é aceitável senão quando é acompanhada pela rejeição do intolerável”.

Em síntese, se é certo que, recordando Hannah Arendt, a extinção da tolerância nos conduz ao reino do totalitarismo e à banalidade do mal, também é certo que, em atos anteriores já há espaço para a degradação da democracia, através, por exemplo, da indesejável normalização do conceito de democracia iliberal. Ora, combater todos os caminhos para o totalitarismo, combatendo, assim, o mal, não são atitudes primeiras de quem se reclama da tradição viva cristã e, portanto, dos desafios orais, escritos e comportamentais do Papa Francisco?

É o caminho para valorizar a dignidade inalienável de cada pessoa que urge aplanar, contrariando resolutamente, também através do voto, o discurso populista em ascensão.

 

Alberto Filipe Araújo é Professor Catedrático aposentado do Instituto de Educação da Universidade do Minho.

Luís Manuel Ferreira Marques é Professor Associado com Agregação aposentado do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro.

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