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Cabo Delgado

Cristãos e muçulmanos juntos para promover pacificação

| 04/01/2022

O bispo católico António Juliasse com os restantes líderes que assinaram declaração conjunta que rejeita atribuir actos terroristas ao islão e repudia a deturpação da religião para justificar qualquer tipo de violência. Foto: Direitos reservados.

 

Líderes cristãos e muçulmanos da província de Cabo Delgado, em Moçambique, publicaram uma declaração conjunta em que rejeitam atribuir actos terroristas ao islão e repudiam a deturpação da religião para justificar qualquer tipo de violência.

O documento, enviado ao 7MARGENS, foi publicado depois de um encontro de três dias (14, 15 e 22 de Dezembro), em Pemba, capital da província de Cabo Delgado, onde desde há mais de três anos se regista uma vaga de violência terrorista, praticada por grupos que se reivindicam do islão extremista. Este fenómeno provocou já mais de três mil mortos e cerca de 800 mil deslocados internos (dos quais mais de metade são crianças e 27% são mulheres)

A declaração, em 15 pontos, afirma “rejeitar que sejam atribuídos os actos terroristas à religião muçulmana e qualquer afirmação que associe tais actos aos princípios do islão”. Ao mesmo tempo, os líderes dizem “estar cientes” de que as religiões se destinam a “criar felicidade, reconciliação e paz na sociedade” e por isso repudiam “actos e pessoas que deturpam as doutrinas religiosas para justificarem qualquer tipo de violência”. 

No texto, os seis signatários – quatro muçulmanos e dois cristãos – referem o contexto em que a declaração é redigida e publicada: Cabo Delgado está mergulhado “numa crise humanitária profunda causada pela violência terrorista” e vive “uma regressão dos indicadores de desenvolvimento integral também agravada pelas consequências das medidas restritivas de prevenção contra a pandemia. Além disso, permanecem desigualdades sociais como o “elevado índice de analfabetismo, a crise de valores éticos-morais e as polarizações étnicas e religiosas que ameaçam o actual contexto e convívio social, entre outros problemas que violam a dignidade humana”.

Os líderes religiosos comprometem-se a trabalhar “pelo verdadeiro sentido da religião” para que a sociedade não veja a religião, e em particular o islão, “a mais afectada pelos preconceitos”, como causa de qualquer conflito.

Comprometendo-se ainda a manifestar uma atitude positiva em relação a membros de diferentes religiões, “vencendo resistências, desconfianças e atitudes preconceituosas”, os líderes prometem “trabalhar para impulsionar o conhecimento mútuo e a partilha entre os religiosos”. Concretamente, comprometem-se a “fazer palestras nos cultos de modo que os crentes não dominem apenas as escrituras, mas também a ciência para melhor interpretar a realidade”, mobilizar e sensibilizar os jovens para a recusa da violência e a fazer “orações em conjunto em prol da paz duradoura”. 

Compromisso com os direitos humanos, apoio ao trabalho e acolhimento psicossocial aos jovens que têm sofrido a violência e a promessa de colaboração com o governo e outras instituições para estabelecer a paz em Cabo Delgado são outros dos compromissos assumidos no documento. 

No seminário inter-religioso, os líderes tiveram como pano de fundo o Documento da Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial, assinado em Abu Dabhi em 2019, pelo Papa Francisco e pelo xeque Ahmad Al-Tayyeb, grande imã da Mesquita de Al-Azhar. 

A “Religião como parte da solução ao conflito em Cabo Delgado” foi o tema genérico do seminário, que levou os líderes envolvidos a defender que “nenhum verdadeiro líder religioso ou profeta ensinou jamais a violência”. 

O documento é assinado, do lado cristão, pelo actual administrador da diocese católica de Pemba, António Juliasse Sandramo, e pelo pastor Alberto Sabão, do Conselho Cristão de Moçambique. Do lado muçulmano, assinaram a declaração os xeques responsáveis do Conselho Islâmico de Moçambique, Nzé Assuate; do Congresso Islâmico de Moçambique, Nassurulahe Dulá; da Comunidade Islâmica de Cabo Delgado, Abdul Latifo Incachada; da União de Jovens Muçulmanos, Vitorino Luís Promoja; e do Conselho dos Álimos de Cabo Delgado, Ismail Selemane. 

A iniciativa foi organizada pelo Centro Interreligioso para a Paz (Ci-Paz), com o apoio da Comissão Diocesana (católica) Justiça e Paz e do Centro de Estudos e Ações para a Paz (CEAP).

 

Notícia actualizada dia 5/01 às 15h, com o acrescento das instituições organizadoras.

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