As ruas de Jerusalém continuam vazias de turistas e os postos de controlo militares israelitas que se multiplicaram desde o início da ofensiva em Gaza estão a desencorajar até os cristãos palestinianos de visitar os lugares que consideram sagrados na cidade e onde muitos se dirigiam frequentemente para rezar, em especial na Semana Santa.
De acordo com o Escritório de Protocolo da Custódia da Terra Santa, o governo israelita emitiu, até ao passado dia 13 de abril, autorizações de uma semana para que sete mil cristãos palestinianos que residem na Cisjordânia ocupada possam entrar na cidade. Mas mesmo aqueles que obtiveram a autorização receiam ir.
Razan Nassar, 34 anos, é um deles. “Tenho a autorização, o que significa que posso ir. Mas o posto de controlo militar (para Jerusalém) fecha às 13h”, refere o jovem, citado pelo jornal Religión Digital nesta quarta-feira, 16 de abril. Como as celebrações de quinta-feira são ao final do dia, Razan não sabe se o exército israelita o deixará entrar.
Nabil Jakman, também cristão, conta que a crise o forçou a fechar uma das lojas de artesanato que tinha no centro de Belém e está a lutar para manter a fábrica a funcionar. Em anos anteriores, por esta altura, ele e a família costumavam deixar os negócios entregues a colegas muçulmanos para poderem visitar Jerusalém e participar nas celebrações da Semana Santa.
“Tinha uma autorização de 24 horas para o ano inteiro, mas quando a guerra começou, eles cancelaram. Agora, na Páscoa, deram-nos uma por uma semana, mas é difícil”, afirma, reconhecendo que, embora pudesse viajar para Jerusalém, não o fará por medo dos postos de controlo militares na entrada e saída de Belém: “Quero ir rezar, não ficar sob vigilância deles”, diz.
Jhon, cuja família administra um restaurante em Belém há mais de 50 anos, sente o mesmo. “Eles podem deter-te, podem manter-te no posto de controlo. E tudo sem motivo algum, ou melhor, ser palestiniano é o único motivo”, lamenta.
“Não temos o direito, mas o dever de celebrar a Páscoa”, diz Patriarca de Jerusalém
“Como todos sabem, estamos a viver um momento muito difícil, não apenas aqui na Terra Santa, mas acredito que também em muitas partes do mundo. Portanto, parece difícil falar de vida e esperança, que é a mensagem da Páscoa, a mensagem do Senhor ressuscitado”, reconhece por seu lado o Patriarca Latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, numa mensagem em vídeo divulgada esta quarta-feira.
“A ressurreição de Jesus é o sinal do poderoso amor de Deus. O amor de Deus que se manifestou na nossa vida como humanidade, que é cheia de pecado, cheia de ódio, cheia de escuridão e, apesar de tudo, por causa do seu amor, conseguiu transformar tudo em luz, alegria, relação e desejo de vida. E é isso que quero lembrar a mim mesmo e a todos nós, que pertencemos a esse Deus, que Jesus Cristo nos apresentou com a sua vida. O amor de Deus foi mais poderoso do que a morte”, sublinha o cardeal.
E insiste: “Pertencemos a esse amor. Portanto, esse amor também deveria superar todos os nossos medos. Todo o ódio e a frustração que às vezes temos nos nossos corações. E é isso que vejo em muitas pessoas, muitos indivíduos, muitas comunidades, em toda a nossa diocese. Em todas as partes da nossa diocese, inclusive aquelas de Gaza, que têm todo o direito de estarem com raiva e cheios de ódio. Não deve ser assim”.
Para o Patriarca, a prioridade é ser testemunha de Cristo. “Portanto, a minha mensagem é esta, em primeiro lugar para nossa Igreja em Jerusalém: não temos o direito, mas o dever de celebrar a Páscoa. Devemos celebrar porque devemos anunciar com as nossas vidas, com os nossos gestos, que pertencemos ao poderoso amor de Deus em Jesus”, defende.
E termina com um pedido e uma garantia: “Não tenham medo. O amor de Deus é mais poderoso do que qualquer sinal de escuridão e morte. Feliz Páscoa”.
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