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Entre Margens

«Cristianismo em crise: não é uma novidade»

| 11/09/2025

Escuto, mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

 

«Cristianismo em crise: não é uma novidade». Todos nós temos uma relação imperfeita com este assombro anunciado. De facto, o tutelado, não podemos ficar indiferentes à mutação já presenciada, e vivida, sabendo que, por outro lado, há sempre uma possibilidade, uma vez que uma das características da Igreja é a sua reforma permanente. Na realidade, estará sujeita às dores do parto, ao desapego e aos processos de diferenciação, porque, «como diz o beneditino alemão Elmar Salmann, no momento do nascimento, como em tantos outros começos significativos, sempre há muito que morre, da mesma forma que nos processos de morte há muito que nasce».[1]

Neste sentido, o possível paradoxo do cristianismo [2] torna evidente a necessidade da imaginação para podermos alcançar mais. Como o atesta Salmann, ao imaginar que podemo-nos perder ou nos encontrar, cobrir de mentiras os vazios existenciais ou abrir aqueles espaços fechados à chave por medo, refugiar-se no passado da nostalgia ou apressar o futuro forçando-o a antecipações promissoras, trair a realidade ou salvá-la através de uma nova e ousada forma de atenção.[3]

Sendo assim, importa perceber que instrumentos utilizaremos para pôr à prova as categorias e formulações do Evangelho, de modo a permitir que a Igreja possa oferecer e acolher algo que ainda não tenha sido dito. [4] Bem sabemos que a arte da tradução do Evangelho está sujeita a um diálogo próprio de toda a lei da evangelização: a receção e adaptação, substância e a fórmula. [5] Por isso, e ainda sob a alçada profética do magistério do Papa Francisco, é essencial recuperarmos a sua leitura face ao sentido do proceder e do agir da Igreja. Não só numa postura ad intra, como também nas suas preocupações ad extra, entre as quais o cenário da política internacional, as preocupações económicas e as preocupações ambientais. Na verdade, uma das suas notáveis novidades foi colocar o discernimento como centro e modo operante da Igreja. [6]

Tal consequência acarreta um enfoque pastoral, cuja essência reside em sermos capazes de abrir caminhos, apresentarmos uma bússola e, sobretudo, sermos portadores de um mapa. Trata-se, por conseguinte, de aceitar e reconhecer o “mundo” como a terra natal comum a crentes e não crentes que determina as condições reais de qualquer experiência humana. É sempre assim, e nunca poderá acontecer à margem deste exigente trabalho, o que implica uma disponibilidade permanente para iluminar a realidade, confirmando-a e alargando-a. Dessa forma, recupero os critérios de Congar [7] para podermos manter viva a atenção «aos sinais que o tempo dá ao Evangelho, e o que o Evangelho dá ao seu tempo».[8]

 

1. A realidade pastoral e a sua caridade [9]

Francisco foi perspicaz ao apresentar o critério de que «a realidade é mais importante do que a ideia» (EG 231-233). E, na verdade, é sempre fundamental assumir a realidade e nunca pensar para além dela. Não se trata logicamente de tentar modificar os pressupostos da doutrina em detrimento da realidade, mas, num exercício de hospitalidade, expor-se, abrir-se e dar voz e tentar perceber e reconhecer a habitação de Deus.[10]

Como nos recorda o documento conciliar Gaudium et Spes: «com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente». (GS 44).

Homem que caminha. Alberto Giacometti.

Homem que caminha (1960), Alberto Giacometti.

2. Permanecer na comunhão do todo [11]

Na Evangelii Gaudium é-nos dito justamente que «a unidade prevalece sobre o conflito» (EG 226-230); ou mesmo: «o todo é superior à parte» (EG 234-237). É óbvio que a comunhão não se trata de reivindicar univocidade, ou uma unidade cega, mas exige uma aceitação das diferenças. Na realidade, é sempre na tensão e na escuta, que nos permite encontrar a abertura que nos faz sempre pensar na comunhão, a qual se torna a meta de todo o diálogo (ainda que conscientes da dimensão escatológica).

Porventura, a verdadeira comunhão só acontecerá quando a Igreja trabalhar a sua postura tanto de mestra quanto de aprendiz, reconhecendo, desta forma, a sua densidade espiritual, tal como é afirmado na Dei Verbum:  «Aprouve a Deus na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cfr. Ef. 1,9)» (DV 2). Por outras palavras, será na leitura dos sinais do tempo, e na escuta do Espírito, que se medirá a sua capacidade de anunciar a sua identidade íntima: o Evangelho de Jesus. Caso contrário, corre o risco de se imunizar, enrijecer, autocentrar-se e autocelebrar-se.[12]

 

3. O trabalho da paciência [13]

Na verdade, o sentido da paciência exige compreender que toda a reforma não pode acontecer sem escutarmos a Igreja. Quando não tomamos em atenção a nossa relação com o Corpo de Cristo, corremos o risco de uma degradação progressiva do sentido comunitário, uma vez que todo o exercício ocorre na Igreja e não sobre ela. Nas palavras de Salmann: «a teologia então se descobre parcial e aprende a arte da falta, a paciência diante das respostas que não chegam, a escuta real dos sujeitos, a força para reconhecer a autoridade espiritual a aqueles que se encontram às margens da história».[14]

 

4. A riqueza da tradição [15]

Por sinal, a fidelidade à tradição impulsiona-nos sempre para a mudança. Não podemos entender a tradição sem reconhecer a sua evolução. Assim, cabe a todos, dentro da dinâmica sinodal, a tarefa do discernimento, procurando, desse modo, extrair do nosso património as fontes, os modos e os processos necessários para a tradução exigente da fé.[16] Quando não compreendemos a tradição na sua força dinâmica e histórica, e a reduzimos a uma ideia estática, a-histórica e imóvel, acabamos por confundi-la com formulações e formas incapazes de conter e realizar a força evangélica. [17] Por isso, como nos recorda a famosa sentença: «A tradição é a fé viva dos que morreram; o tradicionalismo é a fé morta dos que estão vivos».

Discípulos de Emaús.

Rembrandt (1606–1669): Os discípulos de Emaús, Museu Jacquemart-André (Paris).

Portanto, a questão não sendo nova, assume agora outros contornos, visto que afirmamos “o fim de uma época histórica do cristianismo”. A Igreja só poderá ser compreendida em relação ao mundo, que se apresenta plural, heterogéneo e em profunda transformação.[18] A pergunta pela sua subsistência nunca estará em causa, dado que a sua origem está no dom de Deus, que se torna visível através da realidade espiritual que a caracteriza como católica. Como afirmava Moingt, «[…] a fé cristã tem a sua origem num acidente de história, como uma “utopia”, sem lugar, sem amarras a um povo, uma região, uma pátria, uma sociedade […]». Contudo, o futuro exige o risco da confiança, abraçando o presente diante da fragmentação como a virtude da práxis.[19] Ao celebrarmos e vivermos o mistério pascal, sabemos que a vida é procurada de outra forma, no lugar onde a morte reinou.[20] Como é dito na Gaudium et Spes: «podemos legitimamente pensar que o destino futuro da humanidade está nas mãos daqueles que souberem dar às gerações vindoiras razões de viver e de esperar» (GS 31).

 

[1] José Frazão Correia, «Que forma assumirá o cristianismo do futuro?», acedido a 1 de agosto de 2025, https://www.ihu.unisinos.br/categorias/627648-que-forma-assumira-o-cristianismo-do-futuro.
[2] Cf. Adolphe Gesché, La paradoja de la fe (Salamanca: Ediciones Sígueme, 2013), 13-19.
[3] Cf. Elmar Salmann, «Fim de uma época da Igreja», acedido a 1 de agosto de 2025, https://www.ihu.unisinos.br/categorias/622783-fim-de-uma-epoca-da-igreja-artigo-de-elmar-salmann .
[4] Cf. José Frazão Correia, «Que forma terá o Cristianismo no futuro?», acedido a 1 de agosto de 2025, https://pontosj.pt/especial/que-forma-tera-o-cristianismo-no-futuro/.
[5] Cf. Christoph Theobald e Philippe Bacq, Uma Nova Oportunidade para o Evangelho: Para uma Pastoral de Gestação (São Paulo: Paulinas, 2013).
[6] Cf. Julio Luis Martínez, «Discernimiento y Moral en el Magisterio del Papa Francisco», Medellín. Biblia, Teología Y Pastoral Para América Latina Y El Caribe 43, nº 168 (2017): 375-408.
[7] Cf. Yves Congar, La reforma en la Iglesia: Criterios históricos y teológicos, trad. Luis Rubio Morán (Salamanca: Ediciones Sígueme, 2019), 33-131.
[8] Theobald e Bacq, Uma Nova Oportunidade para o Evangelho, 24.
[9] Cf. Congar, La reforma en la Iglesia, 33-48.
[10] Cf. Theobald e Bacq, Uma Nova Oportunidade para o Evangelho, 36.
[11] Cf. Congar, La reforma en la Iglesia, 49-88.
[12] Cf. Correia, «Que forma assumirá o cristianismo do futuro?».
[13] Cf. Congar, La reforma en la Iglesia, 89-115.
[14] Elmar Salmann, «Imaginar a teologia», acedido a 10 de agosto de 2025, https://ihu.unisinos.br/categorias/608926-imaginar-a-teologia.
[15] Cf. Congar, La reforma en la Iglesia, 117-131.
[16] Cf. Congar, La reforma en la Iglesia, 129.
[17] Cf. Correia, «Que forma terá o Cristianismo no futuro?».
[18] Cf. Tomas Halík, No limiar de uma nova reforma do cristianismo (Lisboa: Paulinas, 2022).
[19] Cf. José Frazão Correia, «Sinais que o tempo dá», acedido a 16 de agosto de 2025, https://pontosj.pt/especial/sinais-que-o-tempo-da-editorial-broteria/.
[20] Cf. Pier Angelo Sequeri, L’iniziazione: Dieci lezioni su nascere e morrire (Milano: Vita e Pensiero, 2022).

 

Pedro Fraga é sacerdote da arquidiocese de Braga.

 

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