Cristianismo: humanismo e dignidade integrais num mundo cindido

| 4 Nov 2023

“Esse humanismo que decorre de, na Cruz de morte e ressurreição, Deus ter dito que nos amava mais do que a si.” Pintura:  Chagall, Ressurection (1952) – pormenor

 

Numa das minhas viagens no Metro no Porto, uns estudantes conversavam entre si sobre os malefícios do cristianismo para a sociedade. Pessoas enganadas por outras pessoas enganadas.

Não se ser fiel aos princípios professados é uma realidade em qualquer grupo social. Creio que não vale a pena negar que, ao longo de séculos, os contraexemplos de cristãos a não serem cristãos são abundantes.

Cuidado, pois, com os nossos tristes telhados de vidro. Telhados esses que impedem que se reconheça que o cristianismo é a religião do humanismo e da dignidade humana. Se Jesus é o âmago do cristianismo, toda a sua mensagem aponta, em derradeira análise, para o ser humano. O próprio abraço escatológico do capítulo 25 do Evangelho de Mateus o mostra.

Mas quem é o ser humano? É aquele ser que pressente que há em si algo mais do que ele mesmo e que o infinito no amor forma as suas fibras essenciais. É esse ser que, no livro medieval Acerca da Benevolência, é dito como sendo como que o deus do Deus-Amor que só o cristianismo conhece.

Humanismos há muitos, mas o cristão é singular. E é-o não por qualquer mérito dos cristãos, mas por o Deus que é professado por estes ser, justamente, Amor e nada mais do que Amor. Esse humanismo que decorre de, na Cruz de morte e ressurreição, Deus ter dito que nos amava mais do que a si.

Se assim é, conforme o Papa Francisco tem dito de diversas formas episodicamente criticadas, a Cruz é a grande fiança da liberdade e da dignidade humana. Se Deus foi até ela, é porque a nossa vida tem um valor infinito, supremo. Um valor irrefragável pela doença, a idade, a crença, o sexo, etc.

Não há outra pista explicativa daquela Cruz, símbolo da máxima generosidade gratuita, que não seja o lava-pés efetuado por Jesus e relatado no cap. 13 do Evangelho de João. Esse episódio em que Jesus, ajoelhando-se, diz que o coração de cada um de nós é o seu Paraíso, o seu Jardim das Delícias.

Eis um Deus que não é violento, que não coage, que não se impõe, que não nos humilha exigindo submissão. Ele, pelo contrário, implora de modo desarmado, pedindo que regressemos a ele tal como se pode ler no livro do Profeta Miqueias.

Nós, assim, somos a esperança desse Deus que, por amor, quer depender de nós, recusando qualquer forma de salvação só operada por si. Repito: Ele deseja depender de nós, que somos uma sede saciável da Presença do Infinito que borbulha em todo o nosso ser.

Se voltarmos as costas a Deus, este reduz-se à impossibilidade de intervir por ser Amor. Eis, de novo, a Cruz, onde o Deus des armées [dos exércitos] se revelou como sendo o Deus désarmé [desarmado]. O Deus dos cristãos é o Deus cuja única força é a do amor que não pode tudo, mas que pode com tudo. O único Deus que não só a promove, como é a fonte da plena liberdade, do autêntico humanismo e da suprema dignidade graças ao seu eros louco por nós.

A dignidade humana é respeito divino de Deus no ser humano. Divino, sim; mas sem deixar de ser humano. Deus e o ser humano não são rivais, como cria infantilmente Sartre, a ponto de termos de fazer tudo contra ele e, no fim da vida e como cantaram tantos, dizer, sem glória nem humanidade, I did it my way.

Se procurarmos verdadeiramente esta dignidade unida pela liberdade ao humanismo cristão de que tenho falado, então não há como não nos querermos empenhar em nos transformarmos continuamente, e na senda do amor melhor, até que um novo modo de viver possa continuar a surgir.

Uma nova existência em que o sotaque do carinho é tão importante como a palavra do léxico e que nos faz reconhecer que jamais poderemos ser humilhados, degradados ou rebaixados. E isto porque, no sobredito lava-pés, Deus, qual mendigo de amor, nos exaltou amorosamente num apelo a um mútuo despojamento.

Felizmente que no cristianismo, e acerca do apontado nos parágrafos anteriores, o ideal e o real ainda vão coincidindo. Mas não é assim noutras religiões, e quanto a isto deveríamos protestar até que isso fosse uma realidade.

Mas, tal como espelham as ações os nossos políticos, não os preocupa. Eis algo que, como disse Tourgueniev, só acabará na desvalorização de todos os valores e na desumanização de todo o ser humano, impedindo, drasticamente, o reconhecimento da nossa dignidade e das suas exigências.

Face a isto, deixo no ar apenas uma pergunta: o que importa se nos for dado todo o prestígio, o poder, a riqueza, etc., se, em contrapartida, nos for negada, a nós e aos demais, a dignidade? Essa dignidade inflamada e indelével que não pode ser esmagada por um Universo materialista, uma sociedade primo-darwiniana e quaisquer religiões ferinas.

 

Alexandre Freire Duarte é teólogo católico, docente da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e investigador do Centro de Estudos de História Religiosa da mesma Universidade.

 

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