“Cristianocídio”

| 6 Nov 19

Quando falamos de liberdade religiosa no mundo temos que falar, antes de mais, em perseguição, e sobretudo sublinhar que os cristãos são os mais perseguidos de todos. Sem qualquer dúvida.

Está em curso um cristianocídio. Do milhão e meio de cristãos existentes no Iraque antes de 2003 restam cerca de 150 mil ou menos. A população cristã da Síria foi drasticamente reduzida para dois terços, desde o início da guerra em 2011. A fé cristã no Médio Oriente está posta em causa, não só devido ao genocídio em si mas por causa dos fluxos migratórios contínuos, das crises de segurança e da pobreza extrema. Os cristãos coptas são regularmente assassinados no Egipto, apesar de constituírem cerca de dez por cento da população. Receia-se que algumas comunidades cristãs na região já não consigam recuperar a tempo.

Mas a perseguição religiosa não se confina ao cristianismo. Segundo as conclusões do Relatório Liberdade Religiosa no Mundo 2018, publicado pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, a situação de fragilidade de grupos religiosos minoritários piorou em 18 dos 38 países onde há notícia de violações significativas da liberdade religiosa, com especial destaque para Coreia do Norte, Arábia Saudita, Iémen e Eritreia.

Pela primeira vez dois outros países foram incluídos na categoria “Discriminação”: Rússia e Quirguistão. Comparando a situação com 2016 registaram-se mais quatro países com sinais de degradação das condições para as minorias religiosas, pelo que se verifica um aumento geral de violações destes direitos humanos, por parte de regimes autoritários e actores estatais. Apesar de tudo, a Tanzânia e o Quénia saíram da classificação como países onde havia perseguição, devido ao declínio da violência militante da Al Shabaad, mas agravou-se noutras latitudes também devido a nacionalismo agressivo.

A ideia de que o mundo está a progredir no bom sentido, em direcção ao respeito pela diversidade religiosa, é falsa. O sucesso militar no desmantelamento do Daesh e outros grupos extremistas ilude a opinião pública ocidental quanto à presente propagação de movimentos islamitas militantes em diversas regiões de África, Médio Oriente e Ásia.

Mas os conflitos entre xiitas e sunitas continuam, assim como os abusos sexuais contra mulheres, a integração de crianças-soldado em grupos guerrilheiros, e os ataques terroristas na Europa e no mundo, contra fiéis de diversas religiões, daí resultando um sentimento de islamofobia, devido à crise migratória mas sobretudo por acção do populismo de extrema-direita. Por exemplo, em Abril de 2017 um agricultor muçulmano na Índia foi assassinado por radicais hindus. Mais de meio milhão de homens, mulheres e crianças rohingya tiveram que fugir do norte de Mianmar para o Bangladesh, devido à violência, violação de mulheres de discriminação em massa.

Estima-se que mais de 300 milhões de cristãos sejam alvo de perseguição em todo o mundo, em especial na chamada “Janela 10/40”, localizada entre 10 e 40 graus a norte do equador. Trata-se de uma área do mundo, com grande pobreza, baixa qualidade de vida e falta de acesso a recursos cristãos. A janela 10/40 compreende uma região que abrange o Saara e Norte de África, bem como muitos países da Ásia Ocidental, Ásia Central, Sul da Ásia, Leste da Ásia e grande parte do sudeste asiático, onde vivem cerca de dois terços da população mundial, predominantemente muçulmana, hindu, budista, animista, judia ou ateia. Grande parte destes governos são contrários a qualquer presença cristã.

A “Voz da Europa” relata que as hipóteses de um cristão num país de maioria islâmica ser assassinado por um muçulmano – simplesmente por ser cristão – são aproximadamente uma em 70.000. O que significa que um cristão que viva num país de maioria islâmica tem 143 vezes mais possibilidades de ser morto por um muçulmano, simplesmente devido à sua fé, do que um muçulmano ser morto por um não-muçulmano em qualquer país ocidental.

E em Portugal? Por cá não existem questões sérias de liberdade religiosa e todos os observadores consideram não existir perseguição religiosa, não só devido às características da nossa Constituição, mas sobretudo devido ao facto de vivermos num estado de direito democrático, estarmos enquadrados por uma Lei de Liberdade Religiosa e por termos uma Comissão de Liberdade Religiosa (CLR), órgão independente de consulta da Assembleia da República e do Governo, presidida por Vera Jardim, criada para acompanhar a aplicação da referida lei.

Em matéria de liberdade religiosa, e apesar de todas as imperfeições, Portugal ainda é um oásis neste nosso conturbado mundo.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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