
Cartaz promocional da Semana Santa de Sevilha 2024. Foto reproduzida a partir do perfil de X @BlogPageNFound
Invejo de morte a paixão que os cartazes da Semana Santa de Sevilha conseguem despertar. Os sevilhanos importam-se com a sua cidade, as festas e com a imagem que o cartaz projecta, se bem que com o seu quê de possessivo, mas bem melhor que a apatia. Não fossem frases como “É absolutamente uma vergonha e uma aberração” e as missas de desagravo e o quadro cartaz deste ano teria passado ao lado. Sim, foi a polémica de há duas ou três semanas, mas declaro-me militante da contracultura da lentidão.
Devia ir preparadinha para a vergonha e para a aberração, mesmo, e qual Caetano Veloso a São Paulo “Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto”. Assim, sem contexto e sem mais. A mania de ter de ter opinião sobre tudo, em especial sobre o que me afronta, como aquele quadro-cartaz, teima em não se deixar cair. Tão mais fácil cuspir opiniões prêt-a-porter do que experimentar o desconforto que aquele rosto e aquele corpo provocam por serem tão plausíveis, e tão possíveis.
Não me surpreenderia se encontrasse aquele homem numa qualquer rua de Sevilha, Madrid ou Lisboa bem cedo num domingo de Primavera e trocássemos algumas palavras ou o tempo de um café. Não é a vergonha, nem a aberração (ambas inexistentes) que chocam, é o familiar que tudo ali é. A postura e o olhar, o dedo indicando o lado, até as cores tão distantes do púrpura e negro de Sevilha são conhecidas, e sei que não são propriamente andaluzas, mas de um outro lugar.
Tenho pena que nos seja tão difícil desenlear da excitação de turno, descapitalizando a vida interior ao deixar tantas perguntas boas por fazer, e há temas muito mais interessantes do que supostas vergonhas e aberrações. Antes de continuar, pequena pausa dramática para convocar as legiões de psicólogos, psiquiatras e demais habilitados para uma intervenção na aborrecida relação do nosso tempo com o corpo e a sexualidade.
Consigo compreender que a cidade não se reveja nesta estética e que preferisse um cartaz mais “sevilhano”, e consigo compreender o difícil que é imaginar o para lá da Sexta-Feira, mas entristece-me a ideia de que o distanciamento de tudo o que não seja o nosso espelho seja já tanto que nos impeça de reconhecer os imensos ecos de muita pintura ocidental, ainda que não espanhola, naquele quadro. O próprio pintor na resposta, algo surpreendida, às críticas mais violentas, diz que “No hay nada en mi cuadro que no esté ya representado en obras de arte de hace un montón de siglos. Creo que la gente que ha hablado mal de mi obra o que ha visto sexualidad en ella, necesita un poco de cultura artística.” E não há mesmo, daí ter soado tão estranhamente próximo.
Há centenas de quadros e esculturas de Cristo com muito pouca roupa (e umas quantas sem roupa alguma), que, por mil razões, não incomodam nem escandalizam seja quem for. Talvez as vejamos só como arte, desprovidas de contexto e de dimensão religiosa, artefactos de um tempo e de uma visão do mundo que já não é a nossa, e que não nos aproveita tentar compreender, como uma linhagem que declinamos. Talvez uma das boas contribuições do cristianismo para a cultura europeia diga hoje muito pouco a boa parte – não a todos, obviamente – dos católicos europeus. Talvez uma das marcas mais profundas da chamada descristianização da Europa seja precisamente essa: que os próprios praticantes não compreendam nem se reconheçam na cultura da sua tradição religiosa.
Não haverá nada de errado ou de intencional nisto, será um passo natural na retirada do cristianismo do espaço público e força cultural dominante. Fazendo parte do lote cuja fé deve mais ao David (cliché supremo, tinha mesmo de ser) do que à catequese e ao assistencialismo caritativo, é-me inevitável sentir um certo vazio e perguntar qual é, ou melhor, se há lugar para a beleza na vida religiosa comum de hoje, e se o catolicismo mainstream educa para a beleza. É que tenho sérias dúvidas sobre a sobrevivência espiritual de uma qualquer forma de vida, religião incluída, que não cultiva o sentido da beleza. Até pode existir institucionalmente, até pode produzir e encomendar boa arte, agora insuflar o mundo de espírito…
Não sei se o quadro é bom ou mau, é só curioso que este Cristo escandalize numa época em que se fala tanto de tradição. Não faço ideia se Salustiano Garcia é crente, se é praticante e vai à missa ao domingo, mas este quadro pode ser um bom exemplo de como uma tradição pode ser mantida viva. Incorpora e assume as suas referências sem as copiar, sem temor reverencial e com o seu quê de risco.
Mais interessante, propõe realmente uma leitura da Semana Santa e da Páscoa e recorda-nos que o cristianismo é, antes de mais, uma religião do corpo, e de um corpo real, marcado. Uma leitura que não ignora, mas vê para lá da violência. Uma leitura que procura a beleza. E no limite, só a beleza salva. Estamos bem.
Marta Saraiva é diplomata










