Cristo, Gandhi e Mandela

| 9 Set 2020

Do mesmo modo como uma minoria ateia não pode impor à força a toda uma sociedade a sua forma de pensar, também nenhum sector religioso tem o direito de fazer o mesmo. A isto chama-se democracia.

 

Numa democracia liberal todos os cidadãos devem ter, à partida, direito de opinião, assim como todos devem poder influenciar os seus concidadãos de acordo com as crenças, perspectivas e expectativas próprias. A convivência democrática confere o direito à opinião livre e independente, permitindo a diferença de posições, concepções do mundo e ideais de sociedade. Isto é saudável, não apenas do ponto de vista político, mas também social.

Os problemas começam quando um dos sectores da sociedade procura impor a sua mundovisão aos outros, seja pela lei ou pela força. Este fenómeno é visível tanto no campo religioso como no laico.

Faz muita confusão ver algum produto cultural sair a público sabendo-se que decerto provocará reacções de mágoa e revolta em grupos religiosos, pelo facto de o consideraram blasfemo. Isto tanto sucede com o islão, como foi o caso das caricaturas de Maomé no Charlie Hebdo (Paris, 2015), ou como com o cristianismo, por exemplo, com a apresentação da Escola de Samba Mangueira (Rio, 2020). Não se entende como a liberdade criativa deva ser invocada para agredir a fé de outrem. Mas ainda entendo menos as reacções extremadas por parte dos religiosos, que atiçam os fiéis contra os prevaricadores, procurando calá-los, prendê-los ou matá-los. Não vejo uma ponta de racionalidade em nenhuma das posições.

Será que não se pode fazer arte sem agredir as consciências? Será que não se pode reagir a isso sem retaliação e vingança?

Pergunto aos religiosos: que Deus é esse que não se sabe defender e que precisa dos simples mortais para “lavar” a sua honra? Será que não entendem que as reacções desproporcionadas é que amplificam a suposta transgressão ou blasfémia, tornando-a muito mais visível e impactante à escala planetária, e que fazem duma insignificância um assunto na ordem do dia? Não poderiam marcar a vossa posição e manifestar o legítimo desagrado de modo pacífico?

Quando insultaram Jesus de Nazaré chamando-o “beberrão”, apenas porque se sentava à mesa com aqueles que eram considerados pecadores pelos religiosos, ele não saiu pelas ruas a vociferar contra os que o insultaram e à procura deles para lhes partir a cara. Pelo contrário, ensinou os que o ouviam que era melhor amar os inimigos e orar a Deus pelos perseguidores.

Também será difícil entender, em termos democráticos, como é que uma minoria quer impor a toda uma sociedade a sua ética religiosa. Quem tem fé tem o direito de afirmar aquilo em que crê e viver de acordo com isso. Além disso, a cidadania também lhe dá legitimidade para procurar influenciar os outros no sentido das suas crenças e estilo de vida, mas já não tem qualquer direito de querer impor a sua ética religiosa a quem não tem fé. Isso é abusivo. Não há outra forma de o dizer.

Do mesmo modo como uma minoria ateia não pode impor à força a toda uma sociedade a sua forma de pensar (o que é laico é o Estado, não a sociedade), também nenhum sector religioso tem o direito de fazer o mesmo. Jesus nunca alinhou com os sicários. E quando Pedro puxou da adaga no Getsémani e cortou a orelha de Malco, o servo do sumo-sacerdote, foi imediatamente repreendido pelo Mestre, apesar de estar a ser preso pela guarda da Templo: “(…) Então, aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus, e o prenderam. E eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo o servo do sumo-sacerdote, cortou-lhe uma orelha. Então Jesus disse-lhe: Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?” (Mateus 26:50-53).

Aliás, S. Paulo dizia que as armas do cristão são de natureza espiritual: “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas” (2 Coríntios 10:4), e que a sua única espada é a do Espírito: “Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Efésios 6:17). Esta posição paulina vem em linha com o que já o profeta Zacarias defendia no Antigo Testamento: “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zacarias 4:6).

Retaliar e querer vingar um acto considerado blasfemo fala mais da pequenez de quem o faz do que do inspirador da fé cristã, o príncipe da Paz, aquele que disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14:27). Os religiosos ganhariam muito em ser suficientemente humildes para aprender alguma coisa com Mahatma Gandhi e Nelson Mandela, já que parece nem sempre aprenderem com Jesus Cristo.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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