Cristo levantado

| 23 Mai 2024

Cristo carregando a cruz, Ticiano, pormenor.

Pormenor da pintura a óleo sobre tela de Ticiano, “Cristo carregando a cruz” (1508-1509). “Não foram os pregos que seguraram Jesus na cruz mas o muito amor com que nos amou.”

 

“E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado. Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:14-15).

 

A serpente de metal levantada por Moisés durante a peregrinação do povo hebreu no deserto foi usada como símbolo de cura e salvação. O conceito bíblico de salvação inclui todas as áreas da vida, incluindo a cura. Nehushtã (no hebraico, objecto de bronze”) é a serpente de metal feita por Moisés e colocada num poste para curar os israelitas das picadas mortais das serpentes venenosas no deserto:

“E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito para que morrêssemos neste deserto? Pois aqui nem pão nem água há; e a nossa alma tem fastio deste pão tão vil. Então o Senhor mandou entre o povo serpentes ardentes, que picaram o povo; e morreu muita gente em Israel. Por isso o povo veio a Moisés, e disse: Havemos pecado, porquanto temos falado contra o Senhor e contra ti; ora ao Senhor que tire de nós estas serpentes. Então Moisés orou pelo povo. E disse o Senhor a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela. E Moisés fez uma serpente de metal, e pô-la sobre uma haste; e sucedia que, picando alguma serpente a alguém, quando esse olhava para a serpente de metal, vivia” (Números 21:5-9).

Mais tarde o rei Ezequias mandou destruir aquela peça, porque se tinha tornado um objecto de culto à maneira pagã.

“E sucedeu que, no terceiro ano de Oséias, filho de Elá, rei de Israel, começou a reinar Ezequias, filho de Acaz, rei de Judá. Tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar, e vinte e nove anos reinou em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Abi, filha de Zacarias. E fez o que era reto aos olhos do Senhor, conforme tudo o que fizera Davi, seu pai. Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou abaixo os bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que Moisés fizera; porquanto até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã” (2 Reis 18:1-4).

A sacralização dos símbolos é uma velha tendência profundamente humana. Veja-se o caso das relíquias, das imagens de Jesus, Maria e dos santos. Um símbolo aponta para uma verdade espiritual profunda. Sacralizar um símbolo empobrece e desvia a tenção do que realmente importa. É como alguém que aponta a Lua com o dedo, chamando a atenção de uma multidão, mas as pessoas só olham o dedo em vez de contemplar a Lua.

A diabolização dos símbolos também é uma tendência humana. Veja-se o caso do fanatismo que associa permanentemente serpentes e dragões com o diabo. Diabolizar um símbolo também empobrece e confunde. Note-se que o símbolo da farmacologia é uma serpente enrolada numa vara, por influência da associação com o episódio da serpente levantado por Moisés no deserto do Sinai. E os dragões são típicos da mitologia e cultura do povo chinês. De resto e para cúmulo da incongruência, o Cristo crucificado é comparado pelo evangelista justamente à serpente de bronze de Moisés, através da qual os israelitas foram curados e salvos da morte.

A sobrevalorização da simbólica, tanto no sentido positivo como negativo, torna-se assim uma negação intrínseca do objecto em si mesmo. Ele está ali apenas para apontar um caminho, mas nunca é o caminho.

O que vemos então no Cristo levantado, segundo João Evangelista?

Vemos um sinal de salvação, pela obediência da fé. O povo hebreu saído do Egipto apenas tinha que levantar os olhos para cima. Deixar de olhar ao nível rasteiro. A poeira do caminho, a espuma dos dias, os circunstancialismos passageiros distraem-nos demasiado. É preciso levantar os olhos para cima.

Vemos também um sinal de amor, pelo exemplo de sacrifício: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” (Jo 12:32). Jesus atrai a todos, mesmo aqueles que a sociedade tende a marginalizar. O ser humano não é (ou não deve ser) atraído por um corpus doutrinário, uma liturgia, uma tradição religiosa, o nome dum grupo religioso ou a figura de um líder. Somos atraídos a Deus pelo seu amor sacrificial revelado em Cristo. Não foram os pregos que seguraram Jesus na cruz mas o muito amor com que nos amou.

Vemos ainda um sinal de vida, pela promessa da vida eterna: “Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (v15,16). A vida eterna na presença de Deus é uma promessa para todo o cristão.

A serpente do deserto era um tipo (símbolo) do Cristo crucificado, que perdurou pelos séculos. O Cristo levantado na metáfora do evangelho joanino dá-nos um sinal de Salvação, de Amor e de Vida.

 

José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.

 

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