
Lida a legenda, permanece a admiração perante o “Cristo ressuscitado”. Foto © Eduardo Jorge Madureira
Antes de me curvar para ler a legenda, permaneço intrigado perante esta pintura de Jesus Cristo que nos olha de frente numa sala do Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, em Madrid, no dia 25 de Março de 2023. As razões são várias e uma delas é simples: não sou capaz de perceber que se trata de “Cristo ressuscitado”. Não sou sequer capaz de imaginar em que século a obra terá sido concretizada.
A autoria, fico a saber depois, foi atribuída, no começo do século passado, a Bartolomeo Suardi, conhecido como Bramantino, um discípulo de Donato Bramante. Antes, considerou-se que o criador tinha sido o mestre. O quadro pertenceu à família Pusterla della Porta de Milán, desde, pelo menos, o fim do século XVI, até ao início do século XX. Foi adquirida para a colecção Thyssen-Bornemisza em 1937.
Bramantino, indica a legenda, terá nascido por volta de 1465, provavelmente em Milão, cidade onde morreu em 1530. A pintura sobre madeira, pode ainda ler-se, terá sido executada por volta de 1490. Bramantino teria, portanto, 25 anos quando realizou este “Cristo ressuscitado”, tido como uma das suas obras-primas.
Ao contrário do que podemos mais comummente observar nas obras mais famosas sobre a Ressurreição, e em particular nas do século XV italiano (nas de Giovanni Bellini, Piero Della Francesca ou Pietro Perugino, por exemplo), não encontramos aqui um Cristo glorioso, elevando-se, vitorioso perante a morte. O “Cristo ressuscitado” de Bramantino não só não ostenta qualquer característica triunfante como parece destroçado. O olhar que exibe afigura-se de uma desconsolada tristeza.
Não será, de resto, por acaso que, como refere o texto do museu alusivo a este quadro, as interpretações que dele se fizeram não foram sempre convergentes. Antes de ser apresentado como “Cristo ressuscitado”, o retrato, de facto, de uma “palidez quase fantasmagórica”, foi considerado como um “Ecce Homo”. Deixou de o ser por faltarem os elementos iconográficos habituais na figuração de Jesus Cristo flagelado e coroado de espinhos, o que não obsta a que a primeira interpretação subsista, como se pode constatar, por exemplo, na página da Wikipédia dedicada a Bramantino.
Depois de “Ecce Homo” – e também “Cristo das dores” ou “Cristo ferido” –, “Cristo ressuscitado”. Talvez não seja, afinal, motivo de espanto. Como, a propósito de outra pintura, escreve o filósofo Giorgio Agamben (Studiolo. Turim: Giulio Einaudi, 2019), citando o teólogo ortodoxo Pavel Florensky, “o episódio de Tomé nos Evangelhos mostra que o corpo glorioso do ressuscitado ainda tem evidentes cicatrizes do seu suplício”. O relato do Evangelho de João (20:24-29), amplamente retratado na pintura (a mais poderosa é a de Caravaggio), demonstra ainda que “Tomé não duvida da ressurreição de Cristo, mas quer a confirmação da sua própria fé. A ele se deve a declaração por parte da Igreja da verdade da ressurreição de Cristo, da sua ressurreição corporal”.
Lida a legenda, permanece a admiração perante o “Cristo ressuscitado”.
Boa Páscoa.










