Críticas a “Igrejas que afastam de Deus?”

| 11 Out 21

Eucaristia. Padres. Igreja

“Acabam (os sacerdotes) por ser apontados como pessoas demasiado diferentes. E sentem-se sós. Agrava-se o problema quando os leigos não se preocupam com ajudá-los, espicaçá-los, e acolhê-los nas suas próprias casas, nos cafés…”  Foto © Applegate / Unsplash

 

Recebi várias críticas ao artigo em referência, duas delas cuidadosamente analíticas. Organizo-as em parágrafos (vários deles pertencem ao mesmo crítico), seguidos de breve comentário:

1. Contrariamente ao que eu pareço dar a entender, há muitos padres cultos e dialogantes.

2. É pena que a propósito da Igreja Católica, e ao longo da sua história, se possa falar de hipocrisia.

3. A minha afirmação de que a procura de Deus é tanto mais credível quanto mais aprofundamos a história, precisa de ter presente a falsidade (ou pobreza) intrínseca à História. Uma história onde abunda a crueldade e nos faz perguntar “mas onde está Deus?”.

4. Ao afirmar que só compreende a religião quem compreende a separação, podia esclarecer que o “outro polo” do ser humano é como o horizonte: quando parece próximo, ao nosso alcance, afasta-se continuamente, revelando a sua “diferença”. A relação religiosa provém de uma aproximação continuada a esse horizonte. Culto e devoções podem apoiar esta aproximação, mas também a podem travar. Culto e formulários de rezas facilmente se transformam em prisões.

5. Precisamos de alimentar a vontade de correr o risco de “separação”. Mas religião é uma relação amistosa, mais do que conflituosa.

6. “A exigência religiosa não pode ser desculpada para “facilitar” a vida aos mais “responsáveis” – ou que assim se consideram. O pecado tem que ser assumido pelo pecador.

7. Será frutuosa a presença de leigos e leigas como formadores dos novos sacerdotes. De outro modo, perdem a capacidade de visão e atenção aos diversos ângulos que nos permitem conhecer e experimentar a realidade.

8. A minha “crença” é muito “romântica”. “Se até para ser Papa há lutas eleitorais, o que será nas aldeias?”

9. Disse Jesus aos apóstolos: “Vós não sois deste mundo” – mas “harmoniosamente” inseridos nele. Porém, manifestam uma cultura eclesial, isolada; parecem viver numa redoma própria de quem é formado dentro do mundo de seminaristas, de casas religiosas, à sombra do bispo… Por isso, muitos deles não têm jeito para visitar idosos, presos… nem entrar dentro dos problemas próprios da cultura do nosso tempo. Falta espírito crítico e mão na massa. Terão medo de perder os fiéis? Acabam por ser apontados como pessoas demasiado diferentes. E sentem-se sós. Agrava-se o problema quando os leigos não se preocupam com ajudá-los, espicaçá-los, e acolhê-los nas suas próprias casas, nos cafés… e dizer claramente quando deles discordam.

 

Comentário final

Devo a muitos padres uma excelente educação e formação. Mas também devo dizer que muitos outros falhavam, até perigosamente, no campo das relações humanas.”  Foto © Nazim Coskun / Unsplash

 

De facto, devo a muitos padres uma excelente educação e formação. Mas também devo dizer que muitos outros falhavam, até perigosamente, no campo das relações humanas.

Ser culto está muito longe de ser uma “enciclopédia falante” (expressão condenatória, que ouvi a vários educadores meus e que por vezes repeti como professor). O que interessa é enriquecer permanentemente o nosso pensamento, o que implica “curiosidade por tudo o que é humano”. Os padres cultos sabem pedir ajuda a “especialistas”, leigos ou não. E estes têm a obrigação de trocar ideias e factos com eles.

Na formação dos sacerdotes, há a sensação de faltar um conhecimento mais aberto em História das Religiões, sem distorções causadas pela perspectiva cristã ou católica. Frequentemente tomam posições rígidas quanto ao que pode ser a tendência religiosa e o que é, para o ser humano em geral, ser religioso (situando-se ou não entre as várias religiões).

Há ainda muitos padres de autêntica vocação, com grande sabedoria para acompanhar as diversas facetas dos problemas ligados à vivência religiosa. E que, no entanto, podem não sentir afinidade com o aprofundamento de áreas do conhecimento. Mas o mais importante é que o dom de relações humanas faz deles eficazes enriquecedores da espiritualidade de quantos se cruzam e falam com eles; e por vezes basta a sua “simples” presença (manifesta pela simplicidade no enquadramento social) para provocar a harmonia do Homem com Deus e com o Universo. A vida espiritual das pessoas consagradas é a grande qualidade: à semelhança de Deus, “que tudo abarca” e “em tudo está presente”.

Como aceitam alguns teólogos, “a religião é uma invenção humana” – mas “in-venção”, pela história da palavra, significa “vir ao encontro”, nem que seja de um mistério (sentido ou não como Alguém). Atenda-se, porém, ao sentido pejorativo aplicável a invenção (mas já não a “invento”).

Na tradição cristã, Jesus Cristo aprofundou a bíblica imagem de Deus como Pai tão perfeito que contém todo o amor de Mãe. Um Pai que entregou à liberdade, que dele herdámos, o “Jardim do Paraíso”, sem se cansar de nos incentivar a corrigir o mal, a promover o bem e a mostrar, como “filhos que saem aos pais”, que também temos capacidade para criar coisas maravilhosas e vivermos todos como uma grande família.

Essa incansável presença paterna é a base de uma espécie de “teologia descendente”: a nossa relação com Deus é descrita e construída como efeito da “Palavra de Deus”, revelada pelos tempos fora e sob as mais diversas formas, mas como “palavra inquestionável”.

Hans Küng é bom exemplo da “teologia ascendente”: não nos compete dizer o que Deus é ou faz, como se ele nos tivesse ditado uma cartilha – mas sim como podemos penetrar infindamente no mistério de Deus, discretamente presente como o mais perfeito dos Pais. O que implica profundo conhecimento e reflexão sobre o que se faz e pensa neste mundo. À imagem desse Pai, também cada um de nós pode ser uma presença simples, mas autêntica e amigavelmente questionante.

 

Manuel Alte da Veiga é professor aposentado do ensino universitário.

 

Nós somos porque eles foram. E nós seremos nos que vierem a ser.

Nós somos porque eles foram. E nós seremos nos que vierem a ser. novidade

A homenagem aos que perderam as suas vidas nesta pandemia é uma forma de reconhecermos que não foram só os seus dias que foram precoce e abruptamente reduzidos, mas também que todos nós, os sobreviventes, perdemos neles um património imenso e insubstituível. Só não o perderemos totalmente se procurarmos valorizá-lo, de formas mais ou menos simbólicas como é o caso da Jornada da Memória e da Esperança deste fim-de-semana, mas também na reflexão sobre as nossas próprias vidas e as das gerações que nos sucederão.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Parlamento aprovou voto de solidariedade com vítimas da pandemia e iniciativa cidadã

Jornada da Memória e da Esperança

Parlamento aprovou voto de solidariedade com vítimas da pandemia e iniciativa cidadã novidade

A Assembleia da República (AR) manifestou o seu apreço pela Jornada de Memória e Esperança, que decorre neste fim-de-semana em todo o país, através de um voto de solidariedade com as vítimas de covid-19 e com as pessoas afectadas pela pandemia, bem como com todos os que ajudaram no seu combate, com destaque para os profissionais de saúde.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This