Abusos sexuais em pano de fundo

Críticas, demissões e acusações na Igreja Católica em França aprofundam crise

e | 29 Nov 2021

Uma troca de acusações sérias: um documento de oito membros da Academia Católica de França critica severamente o relatório sobre os abusos sexuais. Os bispos e o presidente da Comissão que o elaborou responde dizendo que as críticas são ocas e que as vítimas de abuso foram de novo atingidas. Um tremblement no catolicismo gaulês, uma crise que se agrava.

Basílica de Sacré-Coeur, em Paris, antes da pandemia. Foto © Efe Yagiz Soysal | Unsplash

 

Um grupo de intelectuais católicos de diferentes áreas disciplinares critica e propõe-se descredibilizar o relatório da Comissão Independente sobre os Abusos Sexuais na Igreja (CIASE, da sigla em francês), publicado no início de outubro. Os autores são membros da Academia Católica de França (ACF), à qual pertenciam também o presidente da Conferência Episcopal de França (CEF) e a presidente da Conferência dos Religiosos e Religiosas (Corref), que já se demitiram desta instituição.

São oito os autores do documento que questiona a credibilidade do Relatório CIASE. Entre eles, estão vários membros da direção da ACF, ainda que esclareçam que o documento produzido não vincula a Academia. O resultado – provisório, visto que a análise a que procederam vai continuar – foi enviado às entidades que encomendaram o Relatório e ao núncio apostólico para o fazer chegar ao Papa.

No texto de 15 páginas, os autores dedicam um parágrafo a contextualizar a importância de o estudo ter sido solicitado pelos bispos e pelas ordens religiosas (foi “sensato” fazê-lo, referem), para logo concluírem que, “apesar do seu volume”, ele “só muito parcialmente preenche” o que lhe foi solicitado, “de que aliás se afasta de modo perturbador”. A partir daí esgrime argumentos estruturados em três capítulos: a dimensão factual e estatística, a dimensão teológica e filosófica, e a jurídica e financeira.

Relativamente aos procedimentos metodológicos e às estatísticas, os autores apontam contradições de resultados entre diferentes processos de recolha e extrapolações problemáticas de dados. Insurgem-se, sobretudo, com o número de mais de 300 mil vítimas de abusos nos setenta anos apontados pela CIASE como estimativa.

O documento dos membros da ACF aponta, depois, lacunas, limitações e falhas na vertente doutrinal, aventando a possibilidade de isso se ficar a dever à “falta de especialistas” em eclesiologia, exegese e teologia moral.

Em termos gerais, os membros da Academia Católica criticam a CIASE, que foi presidida pelo magistrado Jean-Marc Sauvé, curiosamente também ele membro daquela Academia, por ter adotado uma periodização que terá levado a subestimar o trabalho de erradicação dos abusos, empreendido pela Igreja Católica.

As “limitações mais graves” do Relatório CIASE, porém, entendem os críticos, “além de uma metodologia defeituosa e contraditória e de carências graves nos domínios teológico, filosófico e jurídico, dizem respeito às recomendações”.

A “gravidade” dessa parte reside no facto de o Relatório se colocar no papel de guia da ação da Igreja e dos seus fiéis, sem que a Comissão tenha autoridade eclesial  ou civil para o fazer. “Algumas delas poderiam vir a revelar-se ruinosas para a Igreja”, porquanto poderiam abrir um cenário de “multiplicação de procedimentos desencadeados por falsas vítimas, em detrimento de pessoas que foram realmente vítimas de predadores”. Além disso, há recomendações que “põem em causa a natureza espiritual e sagrada da Igreja, que não é uma simples associação laica temporal, bem como do seu clero e dos seus sacramentos”, acrescentam.

 

Uma crise que se afunda

Presidente da Conferência dos Bispos da Igreja Católica francesa (CEF), o arcebispo Eric de Moulins-Beaufort. Foto © Peter Potrowl

 

O texto dos oito da Academia provocou nos últimos dias um conjunto de reações. Mas o contexto em que o documento aparece não podia ser pior. De tal modo que a revista Le Point observava, na notícia sobre o tema, que “o catolicismo francês não para de se afundar na crise.”

De facto, depois da publicação do relatório Sauvé, no início de outubro, o arcebispo de Paris, Michel Aupetit, colocou na última semana o seu lugar à disposição do Papa, suspeito de ter tido uma relação próxima (“ambígua”, disse o próprio) com uma mulher há alguns anos.

E se se tiver em conta que o catolicismo francês foi, no século XX, o alfobre de grandes vultos do pensamento teológico, de inovações pastorais, de criatividade litúrgica e de diálogo ecuménico e cultural, tornando-se referência para muitas outras realidades, teremos a noção da verdadeira dimensão desta crise.

A reação mais importante ao documento crítico da Academia veio do presidente da CEF, o bispo Moulins-Beaufort. Rejeitando os argumentos dos críticos, escreve ele, num artigo no jornal La Croix: “Nós, bispos, recebemos as conclusões da CIASE pelo que são: um trabalho que devemos levar a sério e que aponta para possíveis caminhos de renovação para a nossa Igreja.”

Vários comentários surgidos na imprensa relacionaram entretanto o aparecimento deste documento com o adiamento da reunião que o Papa convocara com Jean-Marc Sauvé. O presidente da CEF diz também sentir-se desapontado com a prorrogação, mas considera suficiente a explicação da Casa Pontifícia: o Papa chega, na véspera, da sua viagem à Grécia, Chipre e Malta, onde não estará como “turista e, na sua velhice”, o que se deve desejar é “que Deus o deixe lúcido, ativo e exigente para com todos durante muito tempo” – mesmo no sentido de serem as vítimas a “guiar” as escolhas dos líderes católicos.

A reação dos oito membros da Academia, acrescentava o bispo, desvirtua a preocupação central dos bispos com as vítimas. A estimativa de 300 mil casos, que estão no centro das críticas, foi para os bispos “uma indicação”, diz o presidente do episcopado francês. “É ouvindo as pessoas que são vítimas, aqueles cujo testemunho a CIASE reuniu, aqueles com quem nos temos vindo a encontrar há anos, que fizemos progressos. É colocando-nos perante o Senhor.”

Os atos de violência e agressão contra os menores são “em número demasiado elevado para que possamos considerar isto um fenómeno marginal”, defende o presidente da CEF. Moulins-Beaufort refere a “incapacidade global do corpo eclesial ou da sociedade eclesial” em detetar, compreender e denunciar o mal dos abusos e a “falha da instituição em ouvir, em acompanhar, em proteger os mais pequenos e vulneráveis”.

Os bispos escolheram “servir a vida” ao criarem a comissão para o Reconhecimento e Reparação, diz. E isso abriu “um futuro, um caminho exigente mas desejável de verdade, compaixão, atenção mútua” que, além do mais, responde também ao apelo do Papa em “implementar resolutamente a dimensão sinodal que é consubstancial à Igreja”.

 

“Um insulto às vítimas”

Jean Marc Sauvé, responsável da comissão que elaborou o relatório sobre os abusos em França (foto de arquivo). Foto © JB Eyguesier / Conseil d’Etat/Dircom / cc-by-2.0

 

Numa entrevista também ao La Croix, Jean-Marc Sauvé diz que esperava “ataques ao relatório”, mas pensava que eles surgiriam “mais cedo e muito fortes, especialmente dos círculos tradicionalistas”. Vindo da Academia Católica, diz sentir “tristeza” por ele próprio integrar a Academia.

A imprensa tem dado conta de que o relatório Sauvé mereceu reparos também de alguns bispos. Mas, perante a pressão dos seus pares, eles calaram essas críticas e assumiram o plano da CEF para o futuro próximo.

Considerando os argumentos dos oito da ACF como “um insulto para as vítimas”, Sauvé devolve a crítica aos autores: “procederam de acordo com o pior de uma certa cultura católica, ou seja, em segredo, sem debate contraditório”. Pior: Hugues Portelli, um dos signatários, tinha convidado Sauvé para uma apresentação do relatório da CIASE na Academia Católica, no dia 14 de outubro, mas o convite seria adiado sine die, “sem qualquer explicação”.

Em última instância, diz Sauvé, o documento pretende, no fundo, evitar que a Igreja entre num processo de “dolorosas compensações e reformas necessárias e profundas”. E acusa: “Os signatários deste texto insinuam que a CIASE se move por uma agenda ideológica, invertendo e distorcendo completamente as coisas.” A Igreja acaba por ser a “primeira vítima” do ataque, “apesar de ter tomado decisões corajosas ao criar a CIASE, dando-lhe total liberdade, e depois tomar decisões sem precedentes em novembro” – uma referência à resolução de criar o mecanismo para o Reconhecimento e Reparação das vítimas.

O magistrado considera ainda que “a segunda vítima são as pessoas que foram agredidas sexualmente” e a “terceira vítima é o serviço da verdade e, em última análise, a própria Academia Católica, que enfrenta uma onda de demissões sem precedentes e está a fazer tudo o que pode para se tornar um pequeno grupo”.

Nada no documento põe em causa a análise da CIASE, considera Sauvé, nem a opinião dos seus membros, “que esperavam resultados diferentes do inquérito geral à população – ou seja, um menor número de vítimas”. O presidente da comissão acrescenta que fala de si próprio em primeiro lugar: “É preciso ter a humildade de reconhecer factos que não se esperam e de que não se gosta.”

Sauvé conclui dizendo que a comissão a que presidiu prepara uma “refutação do documento”, acrescentando que convida a Academia a fazer “um estudo sobre a violência sexual na nossa sociedade e na Igreja Católica em particular”, com “todas as garantias científicas necessárias”. “Aguardo os seus resultados com serenidade”, conclui.

Outra reação é a do comentador e jurista católico Erwan Le Morhedec – o primeiro, aliás, a dar notícia das demissões na Academia na sua página na rede Twitter.

“Os bispos colocaram todas as primeiras pedras de um caminho de reconstrução, tanto para as vítimas como para a Igreja. Falta tomá-lo e fortificá-lo”, escreve o cronista na sua coluna no semanário La Vie.

“Alguns dos fiéis não se consideram responsáveis. Eu digo que não somos legalmente responsáveis, estamos fraternalmente empenhados”, acrescentava Le Morhedec na sua página do Twitter. “Como advogado e como católico, lamento ver que o documento da ACF se alimenta de um legalismo frio.”

 

Silêncio: a luz adentra no corpo

Pré-publicação 7M

Silêncio: a luz adentra no corpo novidade

A linguagem não é só palavra, é também gesto, silêncio, ritmo, movimento. Uma maior atenção a estas realidades manifesta uma maior consciência na resposta e, na liturgia, uma qualidade na participação: positiva, plena, ativa e piedosa. Esta é uma das ideias do livro Mistagogia Poética do Silêncio na Liturgia, de Rafael Gonçalves. Pré-publicação do prefácio.

pode o desejo

pode o desejo novidade

Breve comentário do p. António Pedro Monteiro aos textos bíblicos lidos em comunidade, no Domingo I do Advento A. Hospital de Santa Marta, Lisboa, 26 de Novembro de 2022.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Bahrein

Descoberto mosteiro cristão sob as ruínas de uma mesquita

Há quem diga que este é o “primeiro fruto milagroso” da viagem apostólica que o Papa Francisco fez ao Bahrein, no início de novembro. Na verdade, resulta de três anos de trabalho de uma equipa de arqueólogos locais e britânicos, que acaba de descobrir, sob as ruínas de uma antiga mesquita, partes de um ainda mais antigo mosteiro cristão.

Manhã desta quinta-feira, 24

“As piores formas de trabalho infantil” em conferência

Uma conferência sobre “As piores formas de trabalho infantil” decorre na manhã desta quinta-feira, 24 de Novembro (entre as 9h30-13h), no auditório da Polícia Judiciária (Rua Gomes Freire 174, na zona das Picoas, em Lisboa), podendo assistir-se também por videoconferência. Iniciativa da Confederação Nacional de Ação Sobre o Trabalho Infantil (CNASTI), em parceria com o Instituto de Apoio à Criança (IAC), a conferência pretende “ter uma noção do que acontece não só em Portugal, mas também no mundo acerca deste tipo de exploração de crianças”.

Porque não somos insignificantes neste universo infinito

Porque não somos insignificantes neste universo infinito novidade

Muitas pessoas, entre as quais renomados cientistas, assumem frequentemente que o ser humano é um ser bastante insignificante, senão mesmo desprezível, no contexto da infinitude do universo. Baseiam-se sobretudo na nossa extrema pequenez relativa, considerando que o nosso pequeno planeta não passa de um “ponto azul” situado num vasto sistema solar.

Mais do que A Voz da Fátima

Pré-publicação

Mais do que A Voz da Fátima

Que fosse pedido a um incréu um texto de prefácio para um livro sobre A Voz da Fátima, criou-me alguma perplexidade e, ao mesmo tempo, uma vontade imediata de aceitar. Ainda bem, porque o livro tem imenso mérito do ponto de vista histórico, com o conjunto de estudos que contém sobre o jornal centenário, mas também sobre o impacto na sociedade portuguesa e na Igreja, das aparições e da constituição de Fátima e do seu Santuário como o centro religioso mais importante de Portugal. Dizer isto basta para se perceber que não é possível entender, no sentido weberiano, Portugal sem Fátima e, consequentemente, sem o seu jornal.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This