Estórias, sentimentos e percepções durante o Ramadão

Crónicas de um jejuador (1): O icebergue

| 13 Mar 2024

Família muçulmana durante o iftar, no Ramadão. Foto .shock

Há quem pense que o Ramadão se resume ao jejum e aos iftares (quebra do jejum, que ocorre ao fim do dia). Mas este mês é muito mais do que isso. Foto © .shock

 

O Ramadão é uma época mágica. Disso, não restam dúvidas. O que faz então deste mês um mês tão especial, no qual se confundem o reboliço dos convívios sociais e dos iftares (quebra do jejum, que ocorre ao fim do dia) com o expectável e almejado incremento da espiritualidade?

Comecemos pelo princípio. O Profeta ﷺ disse ser um sortudo aquele que tem o privilégio de vivenciar mais um Ramadão e que nos meses precedentes devíamos enfatizar a adoração e pedir que lá cheguemos. Tal significa que os meses anteriores, de Rajab e Shaban, são uma espécie de treino, aconselhando mesmo que se jejue, como forma de preparar a longa maratona deste santo mês. A somar a tal, e num crescendo de ansiedade na espera do nono mês do calendário islâmico, penso que contribuem para tal um conjunto de vicissitudes, a saber:

  • O incremento da consciência ou da percepção da incerteza e falibilidade da vida humana, e da incerteza da chegada ao sagrado mês
  • A imprecisão da data em relação ao seu início, que acreditamos estar nas mãos de Deus e que se faz através de um critério de observação da Lua, que determina o fim do mês de Shaban e consequentemente o início do Ramadão
  • A preparação que ocorre, não só a nível espiritual, mas também a nível material, ajustando rotinas, mas também a despensa e todos os outros aspetos de natureza mais operacional
  • A convicção de que será um mês intenso e preenchido a todos os níveis, mas muito compensador

Notem que esta preparação tem subjacente e como denominador comum o pressuposto de um dos fins do jejum, que é o de reforçar a crença e sentir a omnipresença de Deus.

Mas não só. O bom do Ramadão é que ele não se fica por aqui. E a melhor forma que temos de ilustrar alguns dos seus benefícios é transportando-nos para a ideia de um icebergue:

Ramadão_icebergue

 

Há o que as pessoas veem, e o que nós, enquanto jejuadores, sentimos.

Desde sempre que a renúncia é entendida como um caminho para a libertação; aliás o jejum não é um exclusivo da religião islâmica, muito embora os formatos sejam diferentes quando comparados com os dos nossos irmãos hindus, judeus ou cristãos.

O nosso pugna pela sua exigência e tem como propósito, para além da renúncia de uma necessidade primária, diria mesmo fisiológica, que em princípio é contranatura, mas com um fim específico e pré-determinado que é obedecer a uma ordem de Deus, tendo como foco a espiritualidade (daí que jejuar não seja o mesmo que uma mera abstenção de comer).

Numa comparação infeliz diria que é como fazer uma direta: todos nós já o vivenciámos e sabemos que há picos de cansaço; contudo há ali um momento em que parece que superamos a barreira do sono, obtendo nesse contexto e num vernáculo cartesiano uma “clarividência assinalável” a que se segue não raras vezes uma necessidade de sono e uma quebra, naturalmente.

No caso do jejum, e no meu plano pessoal, posso dizer que a cada dia é uma experiência deveras interessante e que (não vos minto) custosa no início, especialmente pelo hábito que temos nas rotinas e no almoço (creio que é o período em que mais custa) mas superada pelos benefícios obtidos como consequência desse sacrifício.

O jejum é também contenção e a aprendizagem da disciplina e do autodomínio. É eu ser capaz de contrariar a minha ira e a tendência natural que teria de estar mais irascível por conta de estar a jejuar, mas ser capaz de, racionalmente, controlar-me por amor a Deus e porque estou num estado que se considera sagrado e muito querido por Deus.

A experiência de diálogo com uma mãe diz-me que mesmo embora o hálito da sua “cria” seja terrível, ela vai sempre apreciá-lo e amá-lo espontaneamente, sem precisar de o treinar ou exercitar. É algo que lhe é inato. Do mesmo modo, Deus ama incessantemente o jejuador, apreciando o seu hálito 70 vezes mais do que o aroma do almíscar.

Por último, não nos esqueçamos que este gesto faz-nos lembrar, constantemente, embora com as interrupções próprias das preocupações quotidianas, que infelizmente ainda há quem jejue não de forma voluntária ou com fundamento religioso, mas por força da necessidade.

Esse lembrete, embora fugaz, é motor para criação de uma maior empatia e consciência social, e das necessidades do próximo. A minha palavra de solidariedade para com todos aqueles que sofrem.

E são estes sentimentos que poderiam passar despercebidos aos olhares mais incautos e nunca narrados e que me permito, doravante e em resposta ao magnífico desafio lançado pelo António Marujo e pelo 7MARGENS, partilhar convosco, apesar da atipicidade das rotinas deste mês!

Peço que me creiam, e desejo-vos um óptimo dia, remetendo um abraço afectuoso e em jejum!

 

Khalid Jamal é conselheiro da presidência da direcção da Comunidade Islâmica de Lisboa. Até final do Ramadão, partilhará com os leitores do 7MARGENS as suas reflexões a propósito deste mês. 

 

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Este texto do Padre Joaquim Félix corresponde à homilia do Domingo IV da Páscoa na liturgia católica – último dia da semana de oração pelas vocações – proferida nas celebrações eucarísticas das paróquias de Tabuaças (igreja das Cerdeirinhas), Vilar Chão e Eira Vedra (arciprestado de Vieira do Minho).  

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