Estórias, sentimentos e percepções durante o Ramadão

Crónicas de um jejuador (2): O sofrimento 

| 19 Mar 2024

Unicef, Crianças, Guerra

As crianças perdem sempre a guerra. Imagem criada por Victor Torres, Fabián Ovando, Kenneth Foweraker, Ricardo Börgel/Agência de publicidade HavasCreative, de Santiago do Chile; produção: Semilla Studio (Santiago do Chile).

 

O que será verdadeiramente o sofrimento? Diz-nos o proclamado “deus do saber”, o Google, através da Wikipedia, que o sofrimento é qualquer experiência aversiva (não necessariamente indesejada) e a sua emoção negativa correspondente. Ele é geralmente associado à dor e infelicidade, mas qualquer condição pode gerar sofrimento se ela for subjetivamente aversiva.

Daqui extraímos que o sofrimento não se confunde com a dor e pressupõe uma variável emocional à qual não é indiferente, i.e, o sofrimento perpassa a dor física e implica necessariamente um trauma de natureza emocional.

Numa lógica religiosa, acrescenta-se que o mesmo é sobrenatural e até libertador, pois radica no mistério divino da redenção e amplia-o, tendo por base o amor e almejando a salvação.

Neste contexto, diria que neste Ramadão, os muçulmanos do mundo todo sofrem, mais do que nunca, não com o sacrifício habitual do seu jejum, mas com o sentimento de injustiça e de impotência ao assistirem em direto e ao vivo e a cores ao que se passa na Faixa de Gaza.

Como assistir de forma passiva ao martírio de uma sociedade inteira, sem que se possa fazer absolutamente nada, nem postar algo numa qualquer rede social de forma aleatória sem que tal seja objeto de uma polémica ou crítica alheia, uma vez que o assunto se tornou mais politizado do que humano?

Como ser indiferente e apático ao sofrimento alheio e às imagens bárbaras que nos chegam, que vitimizam seres indefesos, designadamente mulheres e crianças e que não mais merecem do que o mero sofrimento instantâneo da duração de uma história?

Quando terá a nossa sociedade atingido este grau de tamanha anestesia em que a vida humana é desvalorizada e alterna com imagens de bens de consumo?

Será que o tema não nos deve despertar uma atenção superior? Não saberemos nós ser capazes de contornar os nossos egos e contrariar os nossos instintos primários e de assegurar, a expensas de tal, a tão grande conquista da paz entre os povos?

Empatia, onde estás tu?!

Unicef, Crianças, Guerra

As crianças perdem sempre a guerra. Imagem criada por Victor Torres, Fabián Ovando, Kenneth Foweraker, Ricardo Börgel/Agência de publicidade HavasCreative, de Santiago do Chile; produção: Semilla Studio (Santiago do Chile).

 

Estou profundamente convicto de que o primeiro a ceder não é necessariamente o perdedor ou o mais fraco, mas aquele que mais rapidamente conquistou o amor de Deus e o tem no seu coração; tal revela-se através desse gesto nobre e compassivo de ceder.

A expressão “Ikram” no islão materializa isso mesmo – quando eu sou capaz de renunciar a uma necessidade minha, seja ela de que dimensão for para satisfazer a necessidade do próximo.

Numa linguagem para jovens daria como exemplo a última fatia de pizza, que parece a mais apetitosa e que nos parece sempre estar a sorrir para nós, custando-nos cedê-la ao nosso irmão. (Seríamos capazes de lhe ceder um rim, mas jamais a última fatia de pizza)

A pergunta que se impõe neste contexto é, porque razão parece que enquanto sociedade perdemos a capacidade ou até o anseio de sofrer – como se esta experiência tivesse um saldo necessariamente negativo – ansiando a todo e qualquer custo a vontade de termos experiências que nos conduzam à felicidade, afastadas de qualquer laivo de sofrimento?

Será isto real ou apenas uma felicidade efémera por meio da qual mascaramos os nossos verdadeiros sentimentos, criando aversão a tudo aquilo que os exponencia?

Nietzsche, contrariando esta tendência, dizia que “aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes” e portanto sem a pretensão de querer apontar soluções milagrosas, parece-me que o parti pris é o de não termos receio de enfrentar situações menos confortáveis e de encará-las com naturalidade.

Por outro lado, se ambicionamos momentos realmente bons, também temos de ter alguns maus, sob pena de existir um manifesto desequilíbrio, que nos conduz a uma vivência num nível de superficialidade indesejável quanto a mim.

É certo que muitos entendem que a neutralidade e a inexistência de picos é a constância ideal para se viver bem e feliz; contudo, no plano pessoal posso dizer que tal tem como consequência a percepção de que nos falta algo e que o nosso coração já mais não palpita. Numa comparação é como aquele que não se apaixona, que é incomparavelmente mais infeliz do que aquele que sofre diversas vezes por amor, até encontrar o verdadeiro, compatível e recíproco.

Unicef, Crianças, Guerra

As crianças perdem sempre a guerra. Imagem criada por Victor Torres, Fabián Ovando, Kenneth Foweraker, Ricardo Börgel/Agência de publicidade HavasCreative, de Santiago do Chile; produção: Semilla Studio (Santiago do Chile).

 

Na dimensão espiritual, também este sofrimento é caminho para uma libertação e parte inerente da vivência humana.

Não nos esqueçamos que o livre arbítrio encerra aqui um papel fundamental, na medida em que o ser humano é livre de caminhar no sentido da luz ou das trevas.

Muitos acreditam que o ser humano abusa do livre-arbítrio que lhe fora concedido e das dádivas divinas, sacrificando por consequência quem mais precisa.

Agora imaginemos por um momento a vida sem esse livre-arbítrio. Seríamos nós apenas marionetas sem sentido e sem a possibilidade de ser responsabilizados pelos nossos atos. Assim sendo, vale a pena pagar o preço deste livre-arbítrio e a solução para isentar o sofrimento é fazer bom uso deste!

Há ainda quem diga que o chamado “sofrimento natural” é necessário – por exemplo crianças que nascem com doenças congénitas – pois se tal não existisse, as pequenas diferenças entre os seres humanos seriam tão visíveis e tal reconduzir-nos-ia à necessidade de sermos todos iguais, o que culminaria numa sociedade monótona e monocromática, sem interação social tal e qual robôs.

Um dos efeitos que a pandemia veio acelerar foi aquilo que designo como a progressiva desumanização da sociedade.

Ora, uma sociedade mais desumana é uma sociedade necessariamente mais injusta e mais exposta a este tipo de guerras a que estamos a assistir.

O Chat GPT, no âmago da sua genialidade, até consegue simular a empatia, mas ainda não é capaz de ler a geometria emocional dos humanos e ser naturalmente bondoso, reflexo da natureza de Deus plasmada na sua criação. Não é por isso surpreendente que não extraia informação de enunciados ou perguntas e que se considere incapaz de entender a ironia ou alguns registos de humor. Também não consta tão pouco que sofra, por amor a Deus ou a determinadas causas, singularidade esta própria dos seres humanos.

Saibamos nós, nesta era repleta de desafios, ser capazes de privilegiar algo tão próprio da natureza humana: tocar alguém que tenha sido excluído num gesto de verdadeiro amor incondicional.

 

Khalid Jamal é conselheiro da presidência da direcção da Comunidade Islâmica de Lisboa. Até final do Ramadão, partilhará com os leitores do 7MARGENS algumas reflexões a propósito do mês sagrado do islão. 

 

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