Estórias, sentimentos e percepções durante o Ramadão

Crónicas de um jejuador (3): A fome

| 28 Mar 2024

Fome. Foto Stas_V

O jejum no Ramadão tem um duplo simbolismo: foco na espiritualidade e lembrança de que ainda há quem morra de fome em pleno século XXI. Foto © Stas_V

 

Num mundo em que 700 milhões de pessoas, o equivalente a 10% da população mundial – de acordo com as estatísticas – passam fome, a segunda maior religião do planeta pretende, no cume do seu calendário, enfatizar a renúncia a esta necessidade fisiológica, num duplo simbolismo: foco na espiritualidade e lembrança de que ainda há quem morra de fome em pleno século XXI.

Que impacto tem tal na nossa introspecção e quais são os sentimentos que nos invadem a alma neste período?

Hoje procuro trazer-vos através de um conjunto de experiências narradas na primeira pessoa os sentimentos mistos que perpassam por nós, enquanto é dia durante o mês sagrado de Ramadão.

Há um misto de sensações muito amplo e até diria ambivalente enquanto se jejua. Se por um lado é inegável o sacrifício que tal comporta, especialmente considerando que o nosso jejum é uma total e absoluta abstenção de comer e beber, traduzido brutalmente na expressão “nada passa na goela”, contenta-nos o facto de tal sacrifício conduzir a um bem maior, orientado por um fim último que é o de satisfação e de dever cumprido com O Criador. E assim os dias vão passando, neste clima de aceleração social até que rapidamente o mês chega ao fim e nos arrependemos de não termos feito mais.

Nos primeiros dias, e dado que somos animais de hábitos, é custoso, mas só quando nos esquecemos de que afinal temos de almoçar é que começamos a saborear os benefícios da penitência. E aí chegamos à conclusão que porventura consumimos demasiado do nosso tempo com uma preocupação tão primária; parece mesmo que tudo roda em volta da mesa e do alimento, desde que acordamos até à hora do recolher; e que uma boa parte da nossa fixação é vertida numa obsessão pelo consumo.

O jejum é um excelente instrumento para o treino dessa contenção.

E parece que, milagrosamente, nos sobra tempo para tudo! Para aquela mensagem que vimos adiando, para a tarefa de arrumar algo ou de ler um livro que há muito havíamos prometido a nós próprios, para dar atenção aquela pessoa que merece e precisa.

Contudo, e dado que vivo num país em que integro uma minoria, a agenda não está alinhada nem preparada para os preceitos do Ramadão e tal obriga a um esforço ainda maior. Quanto maior for o embate e os desafios de um dia intenso de trabalho, mais difícil será o jejum.

Desde uma ida ao hospital com a minha filha e ter de passar por toda aquela dolorosa experiência emocional, de espera, da escuta de notícias desagradáveis, de não poder saciar a sede ou a ansiedade próprias do momento com um chocolate ou um cigarro, até ao facto de nesse dia o sol ter espreitado e ter-nos brindado com um dia digno de Verão, a pedir um valente gole de água.

É curioso que todos aqueles que jejuam dirão que, durante o jejum, têm desejos semelhantes aos das grávidas. Já para não falar no sacrilégio que é alguém saborear o vosso prato preferido ou aquela pizza magnífica que vocês queriam tanto experimentar nas vossas redondezas! Parece que neste mês o nosso olfato está ultra-apurado. E há dias em que nos apetece especialmente este ou aquele alimento – felizmente podemos satisfazer o nosso recalque na hora do Iftar, a quebra do jejum.

Imaginem aqueles que vivem este sentimento sem o poder satisfazer de todo. O valor que se dá ao alimento relativiza-se e a paciência que nos é imposta treina-nos de um jeito que à hora do Iftar a comida já não é, afinal, assim tão importante, tendo-se ultrapassado esse desejo.

Por outro lado, cada um de nós vive de forma diferente o seu jejum. Se alguns de nós ficam bem mais impacientes e numa espécie de síndrome de pré-burnout, com um pavio curto e à espera de rebentar a qualquer momento, outros há que se tornam uma paz de alma, tendo a isenção de alimento um efeito de depuramento da nossa veia emocional, tornando-nos mais neutros e indiferentes. Creio que o pacote do jejum, que inclui a oração e o zikr (recordação de Deus) são vitais, neste contexto.

No plano da minha experiência pessoal, muito embora às vezes até me esqueça de que estou a jejuar, os benefícios são múltiplos:

  • Sinto que tenho uma maior consciência do meu auto-controlo, é como se de repente tal tivesse sofrido um boost, um estímulo sem precedentes;
  • Sinto-me mais conectado comigo próprio e consigo mais facilmente fazer o exercício de me distanciar dos problemas e analisá-los na sua complexidade e dimensão própria;
  • Sinto mais a presença de Deus (quando era criança, tinha a tentação de fazer diretas até ao Suhoor – hora em que se faz a refeição precedente ao período de ingresso ao estado de jejum, e por vezes perdendo a noção do tempo, querendo comer depois da hora de início; mas havia algo que me impelia a não o fazer e creio ser a percepção fina da omnipresença de Deus)
  • Sinto mais fortemente o propósito da vida.

Em termos de ocupação, eu diria que o ideal neste mês não é estar completamente desocupado, pois aí o jejum custa mais; mas também não nos sobrecarregarmos com tarefas do foro físico, por exemplo. Confesso que quando era mais novo e o jejum calhava no Verão ia à praia, embora desaconselhado pela minha mãe, o que me dava um enorme prazer e refrescamento! (O Ramadão é integrado no calendário islâmico lunar e, portanto, retrocede em função do gregoriano cerca de dez dias por ano.)

Em suma, e para além dos benefícios ora comprovados pela ciência, recomendo vivamente este ritual, que é simultaneamente reflexivo, inquietante e transformador!

 

Khalid Jamal é conselheiro da presidência da direcção da Comunidade Islâmica de Lisboa. Até final do Ramadão, partilhará com os leitores do 7MARGENS algumas reflexões a propósito do mês sagrado do islão. As crónicas anteriores podem ser lidas aqui.

 

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