Estórias, sentimentos e percepções durante o Ramadão

Crónicas de um jejuador (4): As noites mágicas

| 2 Abr 2024

Iftar, Ramadão. Foto Ievgenii Meyer

“Com as noites vem o júbilo, os banquetes, a magia das cores e do encanto que a vida ganha quando se degusta uma refeição na companhia de familiares e amigos”. Foto © Ievgenii Meyer

 

Há quem diga que os muçulmanos, durante o mês do Ramadão, trocam o dia pela noite.

Talvez seja verdade e, se tivermos em consideração o esforço e a abstinência a que estamos sujeitos durante o dia, é inequívoca alguma quebra de produtividade profissional que se verte num incremento da espiritualidade e da sensibilidade social, moral, humanitária.

Mas o mais interessante, diria mesmo mágico, são as noites. Com elas vem o júbilo, os banquetes, a magia das cores e do encanto que a vida ganha quando se degusta uma refeição na companhia de familiares e amigos, onde há tempo para desenterrar conversas e lugares esquecidos, ou aqueles “tesourinhos” – fotografias de memórias passadas ou de uma época que nos desperta saudade e cujo tempo parecia ser menos efémero e bem mais longo do que o de hoje, e no qual não se sentia o clima de aceleração social que vivemos e ao qual nenhum de nós é alheio.

Estes sacros momentos transportam o nosso horizonte mental para a magia do mês, onde o tempo parece esticado – na verdade dormimos menos horas – mas de repente há tempo para tudo; e dão-nos um conforto e um bem-estar sem precedentes, fazendo deste ciclo o preferido do nosso calendário anual.

Nos países árabes, a preparação para o iftar começa logo cedo, se não na noite anterior. E se as medinas resistem ao calor que se faz sentir durante o dia, assim que o sol se começa a querer pôr assistimos a um festival de cores, de luzes e animação, de negócio, de convívio nas ruas, tal qual a época natalícia numa cidade inspiradora como Nova Iorque – onde parece que o clima e a decoração da cidade se preparam para receber o santo mês.

É também comum existir toda uma programação cultural nas televisões e noutros locais e também os centros comerciais estarem abertos fora de horas para comprar aquele miminho ou presente especial por ocasião desta quadra (O Dubai Mall, sobejamente conhecido, chega a estar aberto 24 horas por dia, sete dias por semana).

Por casa há todo um rebuliço, desde o sacrifício de quem prepara as refeições, com duas características assinaláveis: notem bem que os chefs não estão dispensados da obrigatoriedade do jejum e, portanto, têm um esforço adicional que é passar o dia a preparar um manjar que não podem provar! Por outro lado, nós acreditamos que neste mês tudo é uma bênção reforçada e também aqueles que alimentam o jejuador terão uma recompensa maior – diz-se metaforicamente que o hálito do jejuador é aos olhos de Deus mais aromático do que o perfume do almíscar e que o jejum é só para Ele e só Ele poderá recompensar.

Imaginem os benefícios de alimentar um jejuador? É por isso de assinalar que a Comunidade Islâmica de Lisboa serve mais de 1.000 refeições por dia (entre as que são servidas no refeitório da Mesquita Central de Lisboa e as distribuídas noutros locais de culto) e conta com a habitual presença de um convidado ilustre: o Presidente da República, que se senta modestamente no chão e degusta uma simples tâmara e água, igual a todos no momento da quebra do jejum.

Ver toda esta logística a funcionar e as toneladas de matérias-primas que por lá pairam é incrível e impressiona!

Presto assim, por meio desta, um justo reconhecimento à equipa que torna este sonho de inclusão possível, pois todos, sem exceção, são servidos, sem distinções de raça, etnia, estatuto social ou até mesmo religião! (E há algumas pessoas em situação de sem-abrigo que também beneficiam da mesma).

O mundo precisa de menos “ismos” e mais “ades”: menos egoísmo, menos materialismo, menos oportunismo e até fanatismo; mais sinceridade, generosidade e simplicidade.

Que sejamos todos capazes de concretizar algo tão próprio do espírito deste mês: dar a alguém que tenha sido excluído um lugar nos nossos corações.

 

Khalid Jamal é conselheiro da presidência da direcção da Comunidade Islâmica de Lisboa. Até final do Ramadão, partilhará com os leitores do 7MARGENS algumas reflexões a propósito do mês sagrado do islão. As crónicas anteriores podem ser lidas aqui.

 

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