Cuidado e dignidade humana

| 31 Jan 21

refugiados lesbos moria, Foto_ Comunidade de San'Egidio

Refugiados no campo de Moria, na ilha de Lesbos (Grécia): “…precisamos de ouvir o grito dos necessitados e o da criação.” Foto: Comunidade de Santo Egídio.

 

Na mensagem do Dia Mundial da Paz de 2021, o Papa Francisco recordou-nos a doutrina social da Igreja relativamente ao cuidado. Num momento em que ainda desconhecemos como encontrar soluções para a grave situação em que nos encontramos, em virtude da pandemia, porque as vacinas demoram a produzir efeito duradouro, e porque há que unir novos esforços imediatamente para agir eficazmente nos diversos campos que importa considerar – a saúde, a sociedade, a economia, o meio ambiente, a cidadania e a cultura – somos chamados a revalorizar a entreajuda e a compreensão dos próximos, não apenas como sócios, mas como prolongamento natural de nós mesmos.

Quando se pede que nos protejamos e protejamos os outros, estamos, a um tempo, a apelar para que privilegiemos o valor da sobriedade e para que façamos tudo o que estiver ao nosso alcance para pôr em comum o que pode ajudar-nos a todos. Temos de criar condições no tempo próprio para que voltemos a estar próximos, a olhar-nos nos olhos e a evidenciar os nossos afetos. Mas temos de dar tempo ao tempo e preparar-nos com ponderação e bom senso, usando o cuidado como fator de humanidade.

O cuidado deve ser encarado como prevenção e como amor. Daí a importância da promoção da dignidade e dos direitos da pessoa. “Toda a pessoa humana é fim em si mesma, e nunca um mero instrumento a ser avaliado apenas pela sua utilidade: foi criada para viver em conjunto na família, na comunidade, na sociedade, onde todos os membros são iguais em dignidade.” Assim, os direitos humanos, bem como os deveres fundamentais, ganham dimensão universal, exigindo a responsabilidade de acolher e socorrer os pobres, os doentes e os marginalizados, numa palavra, o nosso “próximo, vizinho ou distante no espaço e no tempo”.

O bem comum torna-se, deste modo, uma decorrência do facto de “cada aspeto da vida social, política e económica” encontrar o “conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição”. Os nossos projetos e esforços devem ter sempre em conta os efeitos sobre a família humana inteira, ponderando as suas consequências para o momento presente e para as gerações futuras. Como vemos na tremenda crise suscitada pela covid-19, as soluções fragmentárias, o egoísmo e a ausência de partilha levam-nos à conclusão de que “ninguém se salva sozinho” e nenhum Estado nacional pode assegurar só por si o bem comum de toda a população.

Já a solidariedade exprime o amor pelo outro de maneira concreta, não como um sentimento vago, mas como “a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos”. Temos de ver o outro, como pessoa, mas também como povo ou nação, em lugar de uma ilusão ou de um número.

Como salienta a encíclica Laudato si’, precisamos de ouvir o grito dos necessitados e o da criação. Na verdade, “paz, justiça e salvaguarda da criação são três questões completamente ligadas”, não podem ser separadas ou objeto de simplificação e reduzidas ao imediato. Eis por que a noção tão justamente em voga de sustentabilidade tem de abranger uma visão complexa – da economia ao meio ambiente, da sociedade à natureza, da educação à criação cultural. A palavra caridade significa cuidado e não pode ficar-se nas boas intenções ou nas palavras que o vento leva…

Ouvimos a Boa Nova: “A que havemos de comparar o reino de Deus? Ou com que parábola o representaremos? É como um grão de mostarda que, ao ser deitado à terra, é a mais pequena de todas as sementes; mas, uma vez semeado, cresce, transforma-se na maior de todas as hortaliças e estende de tal forma os ramos, que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra” (Mc., 4, 30-32).

A cultura do cuidado corresponde a um compromisso comum, solidário e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos. “Neste tempo, em que a barca da humanidade, sacudida pela tempestade da crise, avança com dificuldade à procura dum horizonte mais calmo e sereno – afirma o Papa Francisco – o leme da dignidade da pessoa humana e a ‘bússola’ dos princípios sociais fundamentais podem consentir-nos a navegar com um rumo seguro e comum.” Eis o que tem de ser lembrado e posto em prática. Fomos apanhados de surpresa e é indispensável que recuperemos o tempo perdido como comunidade e como agentes ativos do cuidado.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

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