
” Esta escola sabe que é ela a única estrutura, que vai proporcionar àquelas crianças idas ao teatro, ao cinema, a museus, a locais históricos da cidade, a quintas pedagógicas, a parques de desporto, a uns dias de férias num castelo, a aprender artes circenses,…” Foto © Inês Patrício
Filha de professores, me confesso. A minha mãe, a vida profissional inteira. O meu pai, alguns anos, marcantes.
Pequena, ainda na primária, chegaram a proibir-me de dizer mal da escola. Recentemente, disseram-me que, em muitas coisas, eu tinha razão. Mas era um exagero. Se queria falar teria de encontrar coisas boas para dizer. Lembro-me bem disso. Ainda bem.
A nossa filha está numa escola pública em Berlim. Na Alemanha investe-se pouco na escola pública. Tudo é mais prioritário. As casas-de-banho estão muito degradadas, as obras estão a ser negociadas, há anos, talvez para 2026. As casas-de-banho também estão muito sujas, não há dinheiro para pagar à firma que as limpa. A escola está num meio difícil, em que muitas famílias têm pouco dinheiro e/ou pouco interesse pela escola. A escola tem muitos filhos das mais diversas guerras deste mundo. A escola tem mais de 600 alunos, entre a primeira e a sexta classe. A escola precisava de mais educadores para evitar a violência no recreio, para conseguir ajudar e motivar aquelas crianças a aprender. Mas o país está em esforço de guerra e outras desculpas e tal… não se podem contratar mais e não se pode pagar melhor. Na escola devia comer-se bem, mas os Caterings vieram para ficar. Cozinhar em escala industrial, saudável e barato não parece que exista.
Falar com os educadores é importante. A escola não pode ser um lugar onde se entrega as crianças umas horas e com a qual não temos nada a ver. Os educadores também não estão lá para resolver os problemas, nem ouvir os desabafos mais variados dos pais. É peso, muito peso. Não pode ser. Como chega a cabeça daquelas pessoas ao final de um dia de trabalho?
Dos problemas da escola sabem os educadores muito melhor que nós. Por isso, todos os dias entro na escola, percorro o recreio ou os corredores e a atitude que escolho, com todos eles, é de delicadeza, simpatia e agradecimento.
Tentar a mínima organização dos pais para a procura de soluções é, quase sempre, desesperante. Pais contra a escola não vão resolver nada. Se a direcção é intolerante só se vai fechar mais. Se a direcção é empenhada, vai precisar de todas as forças para mostrar que estamos vivos, atentos e descontentes com as decisões superiores. É possível mudar o discurso dos pais, há sempre alguém que persiste também.
Esta escola, que tem tantas dificuldades também a nível de docentes, pouco motivados e pouco capazes, já levou a nossa filha, em pouco mais de um ano, a mais experiências do que a minha privilegiada, também pública, escola primária em Coimbra. Esta escola sabe que é ela a única estrutura, que vai proporcionar àquelas crianças idas ao teatro, ao cinema, a museus, a locais históricos da cidade, a quintas pedagógicas, a parques de desporto, a uns dias de férias num castelo, a aprender artes circenses,…
Nas aulas de cidadania desta escola, não há conversa bonita sobre diferenças e tolerância. As diferenças estão todas lá. Uma mistura incrível. As dificuldades e o exercício da (in)tolerância, são o pão de todos os dias (expressão bastante usada por aqui). As aulas de cidadania partem dos direitos e seguem pelos caminhos do interesse e da valorização da cultura do outro.
Assim por convicção insisto: delicadeza, simpatia e agradecimento.
Cuidemos a escola.
Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.









