[A escuta que cura – 1]

Cuidar de mim é o primeiro passo para melhor cuidar dos outros

| 2 Jun 2024

A partir de hoje, e sempre no primeiro domingo de cada mês, o 7MARGENS publicará um conjunto de sete textos sobre a escuta, preparados por voluntários do GEscuta (Gabinete de Escuta), de Lisboa.

“Cuidar pode traduzir-se na atenção ao outro, na empatia pelas suas necessidades, na promoção do seu bem-estar, dar de si, partilhar, interdepender.” (Na foto, padre António Pedro Monteiro, capelão hospitalar). Foto © António Marujo/7MARGENS

Cuidar pode traduzir-se na atenção ao outro, na empatia pelas suas necessidades, na promoção do seu bem-estar, dar de si, partilhar, interdepender. Assenta no amor ao próximo, em querer o seu bem e contribuir para o mesmo, através da doação da sua vida, do seu tempo, dos seus recursos.

Há, desde cedo, na educação, um grande foco em treinar o altruísmo, a empatia, a solidariedade, a entreajuda. Indubitavelmente, valores essenciais para uma vida comunitária harmoniosa e pacífica.

Estes valores contrapõem-se ao egoísmo, pelo que também desde cedo, talvez até cedo demais, são assinalados de imediato quaisquer vestígios de egoísmo na criança, ainda que possam ser perfeitamente naturais para a sua idade, e até estruturantes para a construção de uma autoestima saudável.

A atitude de amarmos os outros, como a nós próprios, deveria refletir nos outros o mesmo cuidado, respeito e compaixão que temos por nós próprios.

Assim, na infância, é necessário encher o reservatório de afeto para, posteriormente, poder dar ao outro. Se este reservatório fica incompleto, pode originar uma carência, que o indivíduo vai procurar completar durante toda a vida, através das relações que estabelece, numa atitude de extração e não de doação (ainda que assim possa parecer).

É importante validar as características individuais da criança, os seus objetos, as suas vontades. Desse modo, estamos a apoiar a construção da sua individualidade, ou seja, a fazê-la entender que é um Ser separado dos outros, único.

Para Andrew Samuels, Bani Shorter e Fred Plaut (1988), no Dicionário Crítico de Análise Jungiana (1988), individuação é um processo que possibilita que a pessoa se torne inteira, indivisível e distinta de outras pessoas ou da psique coletiva. 

Este processo é vital para a construção saudável da personalidade e das relações. Quanto melhor nos conhecermos, e quanto mais gostarmos de nós, melhor compreenderemos os outros e mais empatia seremos capazes de sentir. 

Se não estamos bem, se não desenvolvemos o autocuidado, o respeito e a compaixão por nós próprios, poderá existir a tendência para nos focarmos nessa carência e não estarmos totalmente disponíveis para o outro.

Se nos preocupamos mais com os outros do que connosco, já introduzimos um desequilíbrio que, reiterado, poderá contribuir para relacionamentos pouco saudáveis e, em último caso, para a doença.

Quando o nosso foco é colocado, quase exclusivamente, nas necessidades do outro e, qualquer ato a favor de si próprio é catalogado como egoísmo, abre-se caminho para um afastamento da nossa essência, de quem realmente somos, do que precisamos para estar bem.

Hospital municipal de Koepenick, na região de Berlim (Alemanha): “Qual a tua energia ao cuidar dos outros? É com alegria, gratidão, satisfação? Ou é com peso, cansaço, obrigação, ressentimento?” Foto © Bundesarchiv, Bild 183-08753-0002, CC-BY-SA 3.0, CC BY-SA 3.0 DE, via Wikimedia Commons.

Cuidar do outro a partir da carência ou da suficiência é completamente diferente: 

  • eu cuido do outro para que me validem como uma boa pessoa, para que seja aceite e amada, abdicando de ser quem realmente sou para viver um papel que desempenho, de modo a corresponder às expectativas, ou;
  • cuido do outro, a partir da minha essência, respeitando quem sou, o que posso e quero dar, nutrindo as minhas necessidades e vendo-me como uma pessoa igual e tão importante como a que cuido, relacionando-me com autenticidade e autoconhecimento. E assim, desenvolvo verdadeira empatia pelas fragilidades do outro, num ato verdadeiramente generoso e oblativo.

Desafio quem lê a fazer este exercício de autorreflexão: 

  • Cuidas tão bem de ti como aconselhas os outros a cuidarem-se?
  • Preocupas-te tanto com o teu bem-estar, como com o bem-estar dos outros?
  • Fazes o que dizes? Praticas o que aconselhas? És coerente? O exemplo é a maior influência. A forma como fazemos as coisas é tão importante como as coisas que fazemos.
  • Qual a tua energia ao cuidar dos outros? 
    • É com alegria, gratidão, satisfação? 
    • Ou é com peso, cansaço, obrigação, ressentimento? E talvez, para além de sentires tudo isto, ainda te forças a ter um sorriso na cara, mais uma vez a negligenciares as tuas necessidades, e a convenceres-te de que está tudo bem e a culpares-te pela forma como te sentes, certo?

Para terminar, deixo algumas necessidades a suprir nos cuidadores:

  • Gestão emocional associada ao processo de cuidar;
  • Gestão de expectativas;
  • Gestão de relações familiares, sociais e laborais;
  • Gozo de períodos de lazer e de descanso;
  • Aumento do suporte familiar.

Segundo a Lei da Reciprocidade, é dando que se recebe! Mas para dares, também tens de ter. Ninguém dá o que não tem. Não podes querer regar jardins a colher gotas.

Patrícia Alves Pereira é psicóloga clínica, facilitadora de eneagrama com especialização em relacionamentos e voluntária no Gabinete de Escuta.
Contactos: Tel.: 964 400 675; www.gabinetedeescuta.pt
Próximo texto: 7 de julho, A dimensão espiritual da pessoa humana.

 

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