Editorial

Cuidar do planeta: a hora dos cidadãos e das comunidades

| 15 Nov 21

John Kerry, dos EUA, em discussão com outros participantes durante os trabalhos da COP26. Foto © Kiara Worth | UNFCCC

 

Glasgow não foi uma oportunidade perdida apenas por ter sido a cimeira dos tímidos pequenos passos perante uma urgência inescapável. Foi um desastre porque nunca antes se apresentara tão negro o quadro da emergência climática. Foi uma desilusão porque nos últimos anos instituições de todo o tipo, cientistas e líderes dos mais variados quadrantes clamaram pela urgência de parar a catástrofe climática. Foi uma deceção por ter sido incapaz de expressar a solidariedade mundial que dois anos de devastadora pandemia impunham ter sido aprendida. Sair deste túnel escuro a que nos remeteu a impotência dos responsáveis nacionais exige ação determinada dos cidadãos e das comunidades.

A Cimeira do Clima iniciou-se tendo como pano de fundo o Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2021 divulgado a 26 de outubro pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) que, em síntese, reconhecia que “os compromissos climáticos nacionais combinados com outras medidas de mitigação colocam o mundo no caminho para um aumento da temperatura global de 2,7° Celsius até ao final do século.” Ou seja, pelos dados recolhidos e trabalhados pelas equipas internacionais de peritos não só não estamos a caminhar para um aumento de 1,5°C da temperatura média em comparação com a registada no mundo pré-industrial, como vamos exceder em muito a meta máxima do Acordo de Paris (2°C).

Como se este alarme não fosse suficiente, vários estudos vieram adensar as mais negras previsões de catástrofe climática. Um dos que maior choque provocou terá sido a revelação feita por uma equipa de cientistas trabalhando para o Washington Post de que “muitos países subestimam as suas emissões de gases de efeito estufa nos relatórios que enviam para as Nações Unidas”. Os 196 relatórios de países analisados “revelam uma lacuna gigante entre o que as nações declaram serem as suas emissões e os gases com efeito estufa que na realidade enviam para a atmosfera”. Ou seja, as previsões sobre o futuro do planeta são realizadas com base em dados enganosos e muito subestimados.

A juntar a estes monumentais desvios (o Washington Post calcula que podem não ser contabilizadas “até 13,3 mil milhões de toneladas de emissões por ano”), pelo menos dois trabalhos de reputadas equipas científicas tornados públicos durante a conferência apontam para que cada décima de grau Celsius de aquecimento global tem efeitos mais profundos, mais extremos e mais adversos do que anteriormente avaliado.

Perante este panorama que não pode ignorar a evidência de todas as dramáticas situações vividas nos últimos anos, a COP 26 arrastou-se durante 15 dias entre promessas insignificantes, ausências gritantes (entre as quais a dos líderes da China e Rússia são sintomáticas do seu desinteresse na solução do problema) e ameaças de que nada seria acordado. Finalmente, em benefício de haver acordo, aceitou a redação de um Pacto do Clima em que até uma emenda de última hora, proposta pela Índia, “branqueando” o efeito super-nefasto da queima do carvão, foi aceite.

 

Um planeta doente, uma luta difícil

As manifestações sucederam-se durante a COP26. Foto © Kiara Worth | UNFCCC

 

Ninguém em seu perfeito juízo pode hoje negar que o modo como vivemos está a acabar de vez e rapidamente com o modo como o planeta nos permitiu, à humanidade, viver desde os seus primórdios. Quanto mais tarde alterarmos o atual estado de coisas, mais difícil será conseguir conter os efeitos devastadores das mudanças climáticas. Efeitos que já são irreversíveis (há espécies animais e vegetais que os nossos pais conheceram e que já não fazem parte do nosso mundo e nunca farão parte daquele em que os nossos filhos viverão).

Sendo assim, por que razão os líderes de todo o mundo não se concertam para salvar o planeta? Enfrentar os interesses económicos, provocar as mudanças dos hábitos das populações e alterar a mentalidade vigente, exigidas pela defesa do planeta é uma tarefa ciclópica. E é também uma tarefa desinteressada marcada pela generosidade e pelo altruísmo. Virtudes raras no palco da gestão da coisa comum.

O desafio que os responsáveis nacionais enfrentam não é diferente daquele que os cidadãos e as comunidades têm por diante: alterar comportamentos, hábitos e mentalidades para que as gerações vindouras possam viver num planeta amigável da vida. É certo que os atuais cidadãos algo ganharão em evitar a catástrofe climática para que caminhamos. Mas os grandes ganhadores são os que ainda não nasceram. E por outro lado: quanto mais os meus comportamentos permitem salvar a Terra, maiores possibilidades concedo a outros para prosseguirem os consumos que destroem o planeta. Não é, pois, tanto pelo meu interesse direto no assunto, nem pela garantia de que estamos todos do mesmo lado, que nos movemos nesta luta pela sobrevivência da vida como a conhecemos. Só a ação desinteressada, o respeito e a generosidade para com as futuras gerações nos fará mover. Mas se não alteramos o nosso modo de vida é certo e seguro que o nosso planeta deixará de acolher e alimentar a vida como até agora o tem feito… apesar de nós.

Esta é a hora dos cidadãos. À passividade dos responsáveis nacionais, há que responder com maior pressão para que a sustentabilidade do planeta esteja no centro da agenda política. Mas é sobretudo imperioso tornar pública uma mudança de mentalidade, a manifestação de uma nova frugalidade, desenvolver novos comportamentos que permitam reduzir a emissão de gases com efeito de estufa, do carbono ao metano… Viver de forma diferente basta para garantir a sustentabilidade do planeta. O futuro da terra está nas nossas mãos, não depende de poderes incomensuráveis e ocultos.

 

As igrejas e as religiões: à frente e atrás
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Bispos do Bangladesh numa acção de plantação de árvores, promovida no âmbito do Ano Laudato Si (2020-21). Foto: Direitos reservados.

 

Este é um tema a que os cristãos têm dedicado atenção. No campo católico, a encíclica Laudato Si’ (2015) constitui um marco. Mais pragmáticas, as igrejas protestantes têm desenvolvido ações comuns, compromissos e roteiros pedagógicos muito interessantes. Não faltam pronunciamentos de outras religiões e declarações conjuntas de vários líderes religiosos reunidos para clamarem a urgência de cuidar da casa comum. O Papa Francisco cunhou a expressão “ecologia integral”, clarificando como o que estamos a viver apela a uma ecologia ambiental, económica e social. É o planeta e a humanidade, ambos, em simultâneo e “intimamente ligados” que estão em causa e por isso necessitamos de “uma ecologia integral que inclua claramente as dimensões humanas e sociais” (Laudato Si’, 137).

Em termos internacionais, o Vaticano lançou a Plataforma de Ação Laudato Si’ em que instituições, famílias e comunidades se podem inscrever e agir em defesa da sustentabilidade do planeta e onde encontram um manancial de sugestões e planos concretos que são ajudados a desenhar. Entre outras iniciativas, a rede Cuidar da Casa Comum segue, em Portugal, o mesmo perfil, contendo igualmente múltiplas propostas para modos de vidas amigáveis do ambiente.

Infelizmente, como mostrou um inquérito realizado pelo 7MARGENS e pela Família Cristã, apesar de algumas coisas concretas, está muito por fazer no âmbito da generalidade das instituições da Igreja Católica em Portugal.

Como escrevíamos em editorial no início da Cimeira do Clima, “enquanto os políticos, cientistas e ativistas discutem em Glasgow, chegou a hora de vermos com pragmatismo o que é que cada um(a) e todos nós podemos fazer. Aos bispos cabe uma responsabilidade especial nesta matéria que é, no seu alcance profundo, crucial para a salvação do planeta, a justiça social e a paz entre os povos.”

Hoje, sabendo dos fracos compromissos assinados na Cimeira, tudo se torna mais urgente. Para cada um de nós, para cada comunidade, para os bispos. A pergunta do momento é, para todos, simples: que decisões já tomámos, vamos tomar, para reduzir o impacte ambiental da minha vida, das nossas famílias, das nossas comunidades? Ou será que nunca respondemos juntos a esta interrogação?

 

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Onde menos se espera, aí está Deus

Onde menos se espera, aí está Deus novidade

Por vezes Deus descontrola as nossas continuidades, provoca roturas, para que possamos crescer, destruir em nós uma ideia de Deus que é sempre redutora e substituí-la pela abertura à vida, onde Deus se encontra total e misteriosamente. É Ele, o seu espírito, que nos mostra o nosso nada e é a partir do nosso nada que podemos intuir e abrir-nos à imensidão de Deus, também nas suas criaturas, todas elas.

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