Cuidar o futuro

| 29 Ago 20

A pandemia do coronavírus traz consigo não só um problema de saúde pública, mas também o agudizar dos fenómenos de fragilidade social. Olhando para os desafios com que a população idosa se tem confrontado durante a pandemia, é preciso refletir profundamente sobre os dados demográficos, a realidade do envelhecimento da população e a organização social.

Trabalho realizado por Íris, no âmbito da disciplina de EMRC do Agrupamento de Escolas Abade de Baçal (Bragança)

Desenho de Íris, no âmbito da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, do Agrupamento de Escolas Abade de Baçal (Bragança)

 

Portugal passou, nas últimas décadas, de um índice de envelhecimento, por cada 100 jovens, de 27,5 nos anos 70 do século passado para 161,3 em 2019, havendo um cenário do INE que aponta em 2080 para um índice de 317. Há 50 anos, a esperança média de vida era de 66,7 anos e, em 2018, de 81,5 anos.

A realidade atual do envelhecimento, que não tem tendência para uma inversão acentuada nas próximas décadas, associada a uma baixa natalidade, evidencia a necessidade de repensar estruturalmente a organização social, de modo a poder responder sustentavelmente e adequadamente às necessidades dos cidadãos num processo que garanta qualidade de vida durante toda a sua existência, tornando-se mais eficiente e eficaz na prevenção e na adequação de meios e resposta às necessidades emergentes.

A pandemia veio evidenciar a urgência desta necessidade, porque trouxe consigo o confronto com os desafios da institucionalização, que estão relacionados com as mudanças estruturais desta população que nos confrontam com questões como as doenças associadas à alta idade (idosos com mais de 85 anos), doenças físicas e mentais, ou os desafios que o isolamento das pessoas que vivem em lares acarretam.

Outro confronto da nossa organização social com a realidade prende-se com a estrutura familiar. A verdade é que manter as pessoas idosas em casa hoje, muitas vezes com níveis de dependência elevados, com a organização que temos dos tempos de trabalho e com a deslocalização dos filhos e filhas do interior para o litoral ou para a imigração, ou ainda a realidade de filhas e filhos idosos a cuidar de pais idosos, leva a dificuldades acrescidas que empurram invariavelmente para soluções de institucionalização.

É preciso, perante esta realidade demográfica e social com que nos confrontamos no século XXI, assumirmos que o direito a cuidar e a ser cuidado deveria ser adotado no âmbito das Nações Unidas como um direito fundamental. O caminho para a incorporação deste princípio no enquadramento político, legal e institucional será o primeiro passo para uma mudança profunda de paradigma na nossa vida comunitária.

A partir deste princípio, a mudança tem de ser feita de forma transversal. É necessário investir na conciliação da vida familiar e profissional tendo em conta a correção das assimetrias de género no papel social de quem cuida, que são maioritariamente as mulheres. Por outro lado, valorizar no mercado de trabalho as profissões relacionadas com o cuidado, do ponto de vista de estatuto profissional e salarial. E por fim reestruturar, quer no setor da saúde quer no setor social, o modelo de resposta e intervenção, adaptando-o às novas realidades do envelhecimento, nomeadamente o combate à solidão, a resposta à doença crónica e à dor, a resposta às demências e a manutenção de atividade estimulante da vida ativa, criando em simultâneo condições de adaptação habitacional, sempre que necessário e possível,  para que as pessoas idosas possam permanecer nas suas casas.

Este é um caminho que não se faz num par de meses e não está apenas dependente da vontade de uma das partes. É uma mudança estrutural no paradigma do envelhecimento, a par com a sustentabilidade ambiental, que temos que trilhar como um todo, que valorizará o direito a cuidar e a ser cuidado, como princípio basilar de uma sociedade digna e decente, como preconizou Maria de Lourdes Pintasilgo no seu relatório Cuidar o Futuro: um programa radical para viver melhor, realizado no âmbito da Comissão Independente sobre População e Qualidade de Vida das Nações Unidas.

 

Catarina Marcelino é deputada do Partido Socialista e ex-secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade

 

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Breves

Antigo engenheiro militar sucede a Barbarin como arcebispo de Lyon

O Papa nomeou esta quinta-feira, 22 de outubro, Olivier de Germay, até agora bispo de Ajaccio (na Córsega), como novo arcebispo de Lyon. Está assim encontrado o sucessor do cardeal Philippe Barbarin, cuja renúncia tinha sido aceite por Francisco em março deste ano. 

Declarações do Papa sobre homossexuais “não afetam a doutrina da Igreja”, dizem bispos portugueses

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) considera que as declarações do Papa sobre a proteção legal a uniões de pessoas do mesmo sexo “não afetam a doutrina da Igreja” sobre o matrimónio. Em nota enviada à agência Ecclesia esta quarta-feira, 22, os bispos portugueses sublinham que as afirmações de Francisco contidas no novo documentário “Francesco” já eram conhecidas anteriormente e “revelam a atenção constante do Papa às necessidades reais da vida concreta das pessoas”.

Índia: Bispos fazem greve de fome em defesa das escolas cristãs

Três bispos católicos fizeram greve de fome na passada terça-feira, 20 de outubro, diante da Secretaria de Estado de Kerala (um dos 28 estados indianos), para reivindicar o cumprimento dos direitos constitucionais das escolas cristãs no país, divulgou a UCA News.

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Facebook proíbe conteúdos que neguem ou distorçam o Holocausto

Facebook proíbe conteúdos que neguem ou distorçam o Holocausto

A decisão foi anunciada esta segunda-feira, 12 de outubro, pela vice-presidente de política de conteúdos do Facebook, Monika Bickert, e confirmada pelo próprio dono e fundador da rede social, Mark Zuckerberg: face ao crescimento das manifestações de antissemitismo online, o Facebook irá banir “qualquer conteúdo que negue ou distorça o Holocausto”.

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Luto nacional a 2 de novembro, missa pelas vítimas da pandemia no dia 14

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Camarões: Padre jesuíta detido por fazer uma peregrinação a pé

Ludovic Lado, um padre jesuíta que se preparava para iniciar, sozinho e a pé, uma “peregrinação pela paz” entre as cidades de Japoma e Yaoundé, capital dos Camarões, foi detido pela polícia, que o acusou de estar a praticar uma “atividade ilegal na via pública”. O padre foi depois submetido a um interrogatório, onde o questionaram sobre eventuais motivações políticas e lhe perguntaram especificamente se era apoiante do líder da oposição, Maurice Kamto.

Twitter segue exemplo do Facebook e proíbe negação do Holocausto

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Entre margens

… E as Cuidadoras? novidade

Durante o confinamento reli um livro de que muito gosto, “Passagens” de Teolinda Gersão, que ganhou o Prémio Fernando Namora em 2015. Trata-se de uma obra escrita a várias vozes, tomando como ponto de partida uma senhora idosa (Srª D. Ana, ex-farmacêutica) que morre durante o sono no lar onde residia. Ao longo do livro várias “falas” se fazem ouvir à sua volta, enquanto repousa no caixão na capela do lar.

A pena de morte na visão de Francisco: clareza e inspiração

Em boa hora este documento. Custa acreditar que a Igreja Católica, na sua representação máxima, tenha demorado 20 séculos após o nascimento do fundador do cristianismo – que foi vítima de pena de morte – a tomar posição inequívoca e final sobre o tema. Outros antecessores falaram sobre este assunto, Francisco encerra-o.

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“Todos nós, seres humanos, nascemos nesta terra com a mesma dignidade (…). Se alguém não tem o necessário para viver com dignidade, é porque outrem se está a apropriar do que lhe é devido.” Na encíclica Fratelli Tutti (“Todos irmãos”), caída ao húmus do mundo no início do outono, o papa Francisco desfaz o estuque do grande pilar do capitalismo e da grande ilusão do ocidente: a propriedade privada. E propõe: e se à ideia de propriedade sobrepuséssemos a de solidariedade?

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O capitalismo não gosta da calma (nem da contemplação religiosa)

A editora Relógio d’Água prossegue a publicação em Portugal dos ensaios de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha. O tom direto e incisivo da sua escrita aponta, num registo realista, as múltiplas enfermidades de que padece a sociedade contemporânea, que o autor designa como sociedade pós-industrial ou sociedade da comunicação e do digital, do excesso de produção e de comunicação. A perda dos referentes rituais – análise que o autor refere como isenta de nostalgia, mas apontando o futuro – é uma dessas enfermidades, com as quais a vivência religiosa está intimamente relacionada.

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Uma simples prece

Nem todos somos chamados a um grande destino/ Mas cada um de nós faz parte de um mistério maior/ Mesmo que a nossa existência pareça irrelevante/ Tu recolhes-te em cada gesto e interrogação

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Nesta crise da covid tenho ouvido cada vez mais falar em medo, em “manipulação pelo medo” em “não ceder à estratégia do medo”. Parece que há por aí quem acredite que os governos têm um plano secreto de instalação do totalitarismo, e a covid é apenas uma excelente desculpa para a pôr em prática.

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