Cuidar para que haja paz

| 8 Jan 21

“Cuidar é um imperativo ético.” (Foto retirada de um guião com propostas de oração da Catholic Agency for Overseas Development – Agência Católica para o Desenvolvimento de Além-Mar –, usadas pela Comissão Cuidado da Criação, da diocese de Indianapolis.)

 

Cuidar é um imperativo ético que envolve a pessoa toda. Exige relação fundamentada na empatia e numa atenção ao outro em todos os aspetos da sua condição de ser e de bem-estar global. Cuidar torna-se numa relação profundamente interpessoal. Para assim ser, tem de estar envolta em permanente e perfeito humanismo. Trata-se, por isso, de uma relação muito exigente.

O Papa Francisco considera este valor humano como uma das condições para se alcançar a paz. Por isso, para a celebração do 45.º Dia Mundial da Paz escolheu como tema “A cultura do cuidado como percurso de paz”.

Começa, na sua mensagem, por dirigir saudações aos “Chefes de Estado e de Governo, aos responsáveis das Organizações Internacionais, aos líderes espirituais e fiéis das várias religiões, aos homens e mulheres de boa vontade”[1]. Julgo que mais que uma saudação foi uma chamada de atenção para a sua reflexão.

Ao referir-se “aos líderes espirituais, penso que é coerente que pense, em primeiro lugar naqueles que ele tem a obrigação de “confirmar na Fé” os cristãos católicos. Deveria ser uma obrigação dos bispos diocesanos apelarem aos animadores de todas as paróquias e comunidades religiosas o estabelecimento de um dia para a reflexão sobre esta mensagem. É frequente que, dos documentos do magistério, se fique apenas pelo conhecimento da sua existência e, quando isso acontece, acabem, simplesmente, por ficar “adormecidos” na biblioteca de alguns.

Como é normal, estas mensagens começam por apresentar fundamentos bíblicos; e neste caso, para referir a obrigação que deve ter “A cultura do cuidado, na vida dos seguidores de Jesus”. Reconhece que, desde os princípios da Igreja, sempre tenha havido algumas contradições negativas entre o dever e a prática, e, a propósito, lembra que “em períodos sucessivos, quando a generosidade dos cristãos perdeu um pouco do seu ímpeto, alguns Padres da Igreja insistiram que a propriedade é pensada por Deus para o bem comum”[2].

Este é um tempo em que a gravíssima crise socioeconómica reclama cuidados maiores com os que forem fragilizados por ela. É eloquente a escolha que faz dos princípios da doutrina social da Igreja como base da cultura do cuidado, como sejam “a promoção da dignidade de toda a pessoa humana, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da criação”[3], explanando-os a seguir.

Cada um destes princípios têm merecido uma miríade de páginas, na proporção exigida na sua concretização, para que a Casa Comum seja, cada vez mais, uma realidade. Na sua sempre fecunda criatividade, Francisco usa a figura da bússola, como instrumento para nos guiar na direção do bem comum. Chega mesmo a apontar para a criação de “um ‘Fundo mundial’ com o dinheiro que se gasta em armas e outras despesas militares, para poder eliminar a fome e contribuir para o desenvolvimento dos países mais pobres”![4] Considero um feliz sonho. Tenho dúvidas que os países produtores de armamento queiram abdicar dos monstruosos rendimentos que este comércio gera.

Francisco, talvez reconhecendo essa grande dificuldade, recorda “também o respeito pelo direito humanitário”[5]. Aponta algumas sugestões “Para educar em ordem à cultura do cuidado”[6]. A família é a primeira instância indicada. É óbvio. Mas não se pode ignorar as dificuldades que esta célula social enfrenta. Por isso, a segunda responsabilidade passa para “as religiões em geral”. Importa que elas se interessem por assumirem e difundirem uma maior consciência sobre questões sociais.

Termina a sua mensagem com o alerta de que “Não há paz sem cultura do cuidado” e para que “Não cedamos à tentação de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais frágeis, não nos habituemos a desviar o olhar”, mas empenhemo-nos cada dia concretamente por “formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros”. A indiferença é criminosa, seja quem for que a pratique. Para as cristãs e os cristãos é também uma embaraçosa negação do Evangelho.

Ao refletir sobre mais esta boa provocação de Francisco com esta mensagem, fui buscar o livro Manuel Vieira Pinto – O visionário de Nampula[7] escrito pelo amigo padre José Luzia. Aconselho a sua leitura. Nesse livro, o autor deixa alguns trechos de notas pastorais desse grande bispo, já tão incompreensivelmente esquecido, e dos quais retirei algumas ideias: todas as guerras desonram e humilham e deixam na história memórias de sangue; a paz principia no interior do Homem; é fruto da liberdade de espírito; exige o direito e a justiça; é a ordem da justiça, do direito e do amor; depende de todos; é um bem urgente.

“Encorajo todos a tornarem-se profetas e testemunhas da cultura do cuidado…”[8] é o convite do Papa Francisco. Que, pelo menos, os cristãos católicos não desprezem este apelo.

 

Eugénio Fonseca é presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado

 

Notas
[1] FRANCISCO, Mensagem para o 54º Dia Mundial da Paz 2021 – A cultura do cuidado como percurso da paz (8 de Dezembro de 2020), nº 1.
[2] Ibidem, 5.
[3] Ibidem, 6.
[4] Ibidem, 7.
[5] Ibidem, 7.
[6] Ibidem, 8
[7] José Luzia, Manuel Vieira Pinto- o Visionário de Nampula, Paulinas Editora, 2016, 112-114.
[8] Ibidem, 7.

 

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