Cuidemos das vítimas

| 15 Mar 2023

“É uma barbárie a forma como se fala da devassa da intimidade e da violentação de um corpo. Demos nomes às coisas. Estamos a falar de violações e de importunações sexuais a crianças e pessoas vulneráveis.” Foto © Ulrike Mai / Pixabay

 

Ao ler e ouvir a voracidade com que se discute o número de casos de abusos cometidos por membros da Igreja, só me vem à cabeça a frase pronunciada por Josef Estaline: “A morte de um homem é uma tragédia, a de um milhão é apenas uma estatística.”

É perfeitamente legítimo discutir os critérios de validação de testemunhos e os métodos usados pela Comissão Independente para chegar a estimativas do número de vítimas; faz parte do rigor e metodologia científica. Mas, por muito legítima que a discussão seja uma coisa é certa: é uma mera distração face à gravidade daquilo a que assistimos.

Os números são um fait divers no meio deste assunto. Não importa quantos casos houve, sendo certo que quantos mais pior. O que importa é que existiram e chegaram ao ponto de causar suicídios. Será que já parámos para pensar no sofrimento e desespero que leva uma pessoa a pôr termo à própria vida?

Não se caia na tentação de dizer que foram muito menos casos, que o número de vítimas é uma extrapolação exagerada. Convenhamos: isso não tem relevância rigorosamente nenhuma para a tomada de decisões necessária. Haja mais ou menos casos, é certo que houve abusos, foram abandonadas vítimas à sua sorte e isso é de uma crueldade sem nome. Não se tenha o atrevimento de usar números seja para defender, seja para atacar a Igreja. Cada abuso tem de ser encarado como único e trágico sob pena de nos afogarmos em estatísticas.

Em cada pessoa abusada, é Deus que foi abusado e violentado (cfr. Mat. 25, 35-46). Este é o tempo de olhar com seriedade para o que passou e não criar guerrilhas com trocas de acusações e explicações de algibeira.

É uma barbárie a forma como se fala da devassa da intimidade e da violentação de um corpo. Demos nomes às coisas. Estamos a falar de violações e de importunações sexuais a crianças e pessoas vulneráveis.

Façamos, por meros instantes, o exercício de imaginar a pessoa que mais nos é querida a ser tocada, apalpada, beijada, penetrada, com medo, vergonha, culpa, a não perceber o que se passou e ficar abandonada ao terror, à dor física por vezes e à sensação de impureza. Tentemos pôr-nos no lugar das vítimas com os seus critérios e formas de pensar e sentir, não com as nossas certezas. Não o façamos para alimentar desejos de vingança ou ódios, mas antes de empatia.

Por trás dos números de casos estão vidas, caras, olhares, lágrimas, frases de súplica a um agressor para que pare, gritos de angústia e, quem sabe, por socorro. Este cenário dilacera-nos por dentro. Esse é o sentimento que deve ficar. A dilaceração.

Lembremo-nos de um aspeto próprio dos abusos cometidos por clérigos ou pessoas com responsabilidades pastorais: nestes casos a vítima, para além do abuso sofrido, fica ainda com uma imagem de Deus deturpada, uma vez que quem age diz representar o próprio Deus. Não existe maior mal que se possa fazer a uma pessoa do que afastá-la de Deus. Isso é um exclusivo que têm os abusos no seio da Igreja. E esse é, provavelmente, o maior pecado que os membros da Igreja cometeram. Não sejamos condescendentes em relação a esta matéria. A relação com Deus é um espaço íntimo que merece a nossa maior reverência e sacralidade.

Não é tempo para a Igreja se tentar proteger e lavar a face, nem para se usar esta situação para atacar a Igreja e desacreditá-la. É tempo de coragem e assunção de responsabilidades por parte de todos os batizados. Não é tempo de reivindicar exigências ao clero, mas com o clero encarar este problema. Não podemos deixar as vítimas ao abandono, não é essa a nossa forma de estar no mundo. Respondamos à pergunta que nos é feita nesta hora: onde está o teu irmão? E não, o nosso irmão não são só as vítimas. O nosso irmão é a vítima antes de tudo, mas é também o agressor, os que o encobriram e todos os que nesta hora contestam a credibilidade da Comissão Independente que conduziu este estudo.

O Papa Francisco foi a única pessoa capaz de expressar o seu respeito pelas vítimas. E não o fez com longos discursos, considerações frívolas ou explicações rápidas. Simplesmente, chorou. Face às lágrimas do Papa, nada mais pode ser dito, nem nenhum pedido de perdão pode ser melhor formulado.

 

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