Nas margens da filosofia (XXXIX)

Cultivemos a amizade na era das redes sociais

| 23 Nov 2021

“Os amigos são os irmãos que escolhemos”
(José Tolentino Mendonça [1])

AMIZADE

“Ser amigo de alguém é um percurso que se cimenta num diálogo face a face, que exige tempo disponível, abertura e aceitação da diferença.” Foto © Tyler Nix / Unsplash

 

As redes sociais em que hoje nos movimentamos põem em causa o conceito de amizade e as suas exigências. Todos os dias somos inundados com mensagens de pessoas que se apresentam como amigos e que permanentemente nos comunicam os seus estados de alma, partilhando alegrias e tristezas, anunciando eventos, dando-nos conta das suas preocupações, revelando intimidades que as mais das vezes preferíamos ignorar. Interrogo-me no entanto se essa constante exposição contribui para criar laços de confiança e de solidariedade e se poderemos considerar como amigos a multidão de pessoas que connosco se relaciona numa cumplicidade que nos surpreende e cujas bases ignoramos.

O facto de WhatsApp, Facebook e outras redes semelhantes nos proporcionarem conversas diárias com centenas de pessoas que desconhecemos mas que se intitulam amigas dá-nos a falsa ideia de que nos movemos num círculo de afectos, de que gostamos todos uns dos outros, de que partilhamos valores, rindo das mesmas graças, indignando-nos com as mesmas notícias, comungando dos mesmos entusiasmos. As redes sociais fomentam a ilusão de que estamos permanentemente acompanhados, rodeados de pessoas com as quais sintonizamos. É uma situação enganadora que nos faz esquecer o modo como se constrói uma amizade. Ser amigo de alguém é um percurso que se cimenta num diálogo face a face, que exige tempo disponível, abertura e aceitação da diferença. Ser amigo requer uma aprendizagem, um conhecimento progressivo do outro, feito de partilhas e fomentando cumplicidades. Implica tempo, paciência e silêncio, tal como Saint-Exupéry nos relata ao falar do modo como o Principezinho se fez amigo da raposa: “Era uma raposa perfeitamente igual a cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e, agora, ela é única no mundo.” [2]

A exigência de reciprocidade entre amigos é uma das diferenças entre o amor e a amizade. Podemos amar sem ser amados mas não somos amigos de alguém que não é nosso amigo.

Quando pensamos nos amigos que fizemos ao longo dos anos temos presente um espaço, um tempo e uma circunstância, recordamos fases da nossa vida, lembramos gestos, revivemos situações, refazemos percursos. A amizade acontece, constrói-se na consciência de afinidades, na partilha de crises, na atracção pela diferença e no reconhecimento de gostos comuns. Os amigos são a nossa memória, permitem-nos trilhar um mesmo caminho, aberto à novidade, onde as afinidades se fruem e as diferenças não constituem obstáculo, colocando-se como enriquecimento mútuo. Um amigo não é um espelho nem um eco. Há necessariamente uma sintonia que nos atrai mas que não é impeditiva da diferença. Somos amigos de pessoas que não pensam como nós. E se há verdadeira amizade a discordância não a abala pois existe um terreno firme que resiste às zangas e transforma as opiniões contrárias em pontos de vista. A amizade implica atenção e escuta. Interessamo-nos pelos nossos amigos, ficamos contentes com o que os alegra e partilhamos as suas dores.

Contrariamente ao que se passa nas redes sociais onde constantemente somos inquietados por notícias perturbadoras, uma amizade verdadeira obriga a uma segurança sem pressão, valoriza o entendimento e a cumplicidade, acompanha os nossos sonhos e projectos, mantém-se fiel à lógica do dom e da empatia. O universo das redes sociais é apressado, requer resposta imediata, não aceita o silêncio e a lentidão, transmite informações, inquieta-nos, diverte-nos e muitas vezes perturba-nos.

A não ser nas redes sociais, não pedimos a alguém que seja nosso amigo. O afecto que nos une é paulatinamente construído sem que seja necessário recordar o seu começo ou festejar a sua evolução. Por vezes é difícil perceber quando começa ou acaba uma amizade. Há amigos que conservamos ao longo do tempo e que nos são sempre presentes, mesmo quando as circunstâncias nos afastam e a vida que levamos não proporciona encontros. Há amigos que morreram mas cuja memória constantemente recordamos, lembrando ocorrências e frases que nos ajudaram a crescer. Fazemos amigos na infância, na adolescência, na idade madura e na velhice. E este permanente diálogo com o outro é a prova maior de que somos seres inacabados, carentes de alguém que nos complete, que nos escute e nos apoie.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

  

[1] José Tolentino Mendonça, Rezar de olhos abertos, Lisboa, Quetzal, 2020, p. 125.
[2] Antoine de Saint-Exupery, O Principezinho, Lisboa, Caravela, s.d., p. 72.

 

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