Cultura e Artes

Exposição e debate no Museu de Etnologia

Quando o espaço sagrado passa a património

O que têm em comum o santuário católico mariano de Fátima, a vila muçulmana andaluza de Mértola, a romântica e encantada Sintra e o bairro lisboeta e islâmico da Mouraria? E como podem coexistir em Fátima o catolicismo popular que domina o santuário, e o facto de outros cristãos, mas também hindus, muçulmanos, praticantes de religiões afro-brasileiras e de nova era procurarem o lugar?

Cinema

Plantar uma árvore no mar

Comecemos então por aquele barco no mar que leva uma planta e duas personagens. Apesar de Catarina Vasconcelos dizer que não é crente, ao contrário da avó e do avô, são muitos os sinais e as memórias do que podíamos chamar uma linguagem evangélica. Estou a tentar falar de um dos mais belos filmes que já pude ver, A Metamorfose dos Pássaros.

Na morte do poeta

para o Fernando Echevarría, mas não à sua memória

Conheci o Fernando Echevarría há alguns anos quando juntos animámos no Metanoia uma sessão sobre os nomes de Deus que a poesia enuncia em nós, ou não, ou só. Da sua sala sobre o rio aberta recordo cada gesto afável, a tenaz humildade de quem um dia disse, e fez, e um campo escolheu e o lavrou. Mas sobretudo uma orelha enorme suspensa sobre a tarde, à escuta do que talvez não fale.

(1929-2021)

Fernando Echevarría

Fernando Echevarría era um poeta desafectado, que ria com vontade, quando lhe contavam que um dos seus primeiros livros, “Introdução à filosofia”, constava nas prateleiras de uma biblioteca ao lado de Aristóteles. Considerava-se, às vezes, um simples homem, de modo levemente abrutalhado, com pouco jeito para preitos, vassalagens, convénios, mesuras ou trapalhadas.

Poesia

Ainda…

“Ainda há pouco houve um tempo que nos fechou em casa/ O que era deixou de ser e o presente congelou/ Estalou o verniz e os corações se revelaram/ O invisível deu-se a ver no sofrimento e solidão”…

Saborear os Clássicos (VI )

“Pensa Fraternalmente” – Um Fernando Pessoa desconhecido

Pedro Teixeira da Mota investigou na célebre arca de Pessoa, e também no espólio do poeta na Biblioteca Nacional, textos na sua maioria inéditos, relativos à Metafísica, Esoterismo, Caminho Iniciático. Em geral, não é muito referida nem objecto de estudo e de investigação esta vertente pessoana, sobre a qual Maria Eugénia Abrunhosa se debruça neste texto.

Filmes, debates e edições

Jean Moulin enterrou a pistola, mas cumpriu o “banal dever cívico” de resistir; agora, será evocado em Lisboa

Quando se tornou líder da Resistência francesa ao nazismo, foi-lhe dada uma pistola que ele enterrou e nunca usaria. Jean Moulin foi um cidadão banal que entendeu que o seu dever era resistir à barbárie. Uma quinzena de actividades em Lisboa evoca a sua passagem por Portugal, onde durante cinco semanas redigiu um importante relatório que permitiria unir a Resistência.

José Cardoso Pires por Bruno Vieira Amaral

Um Grande Homem: Integrado Marginal

Integrado Marginal foi leitura de férias junto ao mar, entre nevoeiros e nortadas que me levavam a recorrer a esplanadas cobertas para ler enquanto tomava um café bem quente. Moledo do Minho no seu inquieto esplendor… e capricho! Tinha lido algumas obras de José Cardoso Pires: Lisboa. Livro de Bordo (feito para a Expo 1998); O Burro em Pé (livro para crianças); Alexandra Alpha; De Profundis: Valsa lenta; O Delfim.

Cinema

Às vezes, nem o amor consegue salvar-nos

Falling, que em Portugal teve o subtítulo Um Homem Só, é a história de um pai (Willis) e de um filho (John) desavindos e (quase) sempre em rota de colisão, quer dizer, de agressão, de constante provocação unilateral da parte do pai, sempre contra tudo e contra todos.

Edgar Morin em entrevista

Só a capacidade de nos maravilharmos sustenta a resistência à crueldade e ao horror

“Se formos capazes de nos maravilhar, extraímos forças para nos revoltarmos contra essas crueldades, esses horrores. Não podemos perder a capacidade de maravilhamento e encantamento” se queremos lutar contra a crise, contra as crises, afirmou Edgar Morin à Rádio Vaticano em entrevista conduzida pela jornalista Hélène Destombes e citada ontem, dia 18 de setembro, pela agência de notícias ZENIT

Estreia na Igreja de São Tomás de Aquino

Das trincheiras da Grande Guerra pode ter nascido este concerto sobre o mundo

“Os primeiros esboços deste texto terão surgido nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial”, explica o compositor Alfredo Teixeira, autor da Missa sobre o Mundo, obra para órgão e voz recitante que terá a sua estreia mundial absoluta no próximo sábado, 18 de Setembro, às 16h30 (entrada livre, sujeita ao número de lugares existentes). A obra, construída a partir de excertos do texto homónimo de Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), padre jesuíta e paleontólogo, abrirá a temporada de concertos na Igreja Paroquial de São Tomás de Aquino, em Lisboa.

Cinema

Um machado, uma mulher e um cão

Se gosta de cinema e ainda for a tempo, não deixe de ver o filme de Pedro Almodóvar A Voz Humana. É uma curta-metragem (cerca de 30 minutos), complementada por uma entrevista muito interessante e esclarecedora com o realizador e a actriz, Tilda Swinton.

Terras Sem Sombra

O festival de música vai à pesca no mar de Sines

O Festival Terras Sem Sombra regressa neste fim-de-semana, com uma paragem em Sines e um programa que inclui música com o ensemble checo Clarinet Factory e duas propostas sob o signo do mar: conhecer as artes tradicionais da pesca e o património ligado à actividade piscatória do porto de Sines; e sensibilizar para a biodiversidade aprendendo a reconhecer os peixes, crustáceos e moluscos daquela zona da costa alentejana.

Livro

Conduzidos até ao Sétimo Dia

A escrita de Daniel Faria não permite leituras rápidas ou imediatas: leituras que, por outras palavras, fechem a força do texto e o encerrem numa “mensagem”. Chegará o tempo, a prolongar-se, dos ensaios de leitura pessoais deste inédito agora publicado sob o título de Sétimo Dia; este é o momento de dar a notícia, de chamar a atenção, de convidar à leitura, de dizer: está aqui. É uma ocasião a marcar.

Avanca Film Festival

Há festa na aldeia do cinema

Não é só um festival de cinema no sentido clássico do termo. Antes, cruzamento de várias artes e horizontes, palco dos Encontros Internacionais de Televisão, Vídeo, Multimédia. O Avanca Film Festival é tudo isto e muito mais. Também ajuda a fazer filmes, a desvendar os segredos da câmara e os jovens, cada vez em maior número, chegam atraídos pelo conhecimento e prazer das imagens. Não sei se o país lhes dará a atenção merecida. O festival continua vivo e recomenda-se. Vinte e cinco anos depois, fintou a pandemia e reinventou-se.

Em causa transformação em mesquita

Turquia arrisca conflito com Unesco por causa de Hagia Sophia

O Comité do Património Mundial da UNESCO não concorda com a decisão do governo turco de transformar a igreja de Hagia Sophia, em Istambul, e o mosteiro de Chora em mesquitas. Na sua 44ª sessão, de 23 de julho de 2021, o órgão, que representa 21 países, lamentou a decisão da Turquia, apesar dos repetidos apelos para salvaguardar sua condição de museu aberto a todos (no país existem 82.603 mesquitas e apenas 438 museus, 91 dos quais na cidade do Bósforo).

Monumento e jardim aberto ao público

Capela dos Coimbras, aberta ao público, quer ser “ex-líbris” de Braga

A capela privada mais antiga de Braga, localizada no centro histórico da cidade e que está classificada como monumento nacional, abriu ao público esta quarta-feira, 28 de julho. Os seus proprietários querem torná-la um ponto de paragem obrigatório de Braga, “quer pelo valor patrimonial e artístico que encerra, quer pelo seu jardim com esplanada, onde a partir de agora é possível usufruir do espaço, assistir a concertos e outras iniciativas culturais ou tomar alguma refeição ligeira.

Música, património e natureza

Festival Terras sem Sombra revisita herança judaica em Castelo de Vide

O Festival Terras sem Sombra apresenta, na Igreja Matriz de Santa Maria da Devesa (31 de Julho, 21h30), o concerto pelo reputado Utopia Ensemble, que interpreta obras da polifonia europeia. O festival junta as memórias judaicas de Castelo de Vide, revisitadas na acção de património (31 de Julho, 15h), e as deslumbrantes paisagens da Serra de S. Mamede (1 de Agosto, 9h30), com a rica biodiversidade deste território por horizonte.

Lançamento

Um livro para entender o imaginário católico de Sting

Evyatar Marienberg, historiador da religião na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, escreveu um livro sobre a imaginação católica de Sting e de como ela alimentou a sua criatividade. Antes de ser quem é na cena do rock internacional como o principal compositor e vocalista do Police, Sting (nascido Gordon Sumner em 1951) cresceu na cidade de Wallsend, Inglaterra, e frequentou escolas católicas. Recebeu o Crisma aos 14 anos e casou-se com sua primeira esposa na Igreja Católica aos 25 anos.

Ferreira de Almeida lido por Herculano Alves

A Bíblia atirada ao mar já vai em 200 milhões de cópias

Uma primeira edição da primeira tradução completa da Bíblia para português atirada ao mar por estar “cheia de erros” é um dos pontos de partida da investigação do frade capuchinho e investigador em ciências bíblicas Herculano Alves. Esse trabalho deu origem à obra A Bíblia em Portugal, em seis volumes, que nesta quinta-feira, 1 de Julho, será apresentada em Gouveia, num dos actos preparatórios do congresso internacional A Bíblia na Cultura Ocidental, que se realiza no próximo ano.

Pré-publicação exclusiva

O jovem seminarista que protestou com a má comida e viria a ser patriarca de Lisboa

O 7MARGENS reproduz, em exclusivo e na quase totalidade, o prefácio do actual patriarca e o testemunho do antigo secretário do cardeal Ribeiro, constantes na segunda edição de “D. António Ribeiro – Patriarca de Lisboa”, que será posta à venda na próxima terça-feira, dia 29. O livro, da autoria dos jornalistas José António Santos e Ricardo de Saavedra, é editado pela Paulinas.

Teatro

Leituras encenadas trazem clássicos do século de ouro do teatro português

Quinze textos do “século de ouro” da cultura e do teatro em Portugal serão recriados com leituras encenadas, pelo grupo Teatro Maizum, no Festival de Teatro Clássico Português, que decorre na semana que agora se inicia, entre segunda-feira, 21, e sexta, 25 de Junho, sempre a partir das 19h. O Festival integra ainda, no último dia, entre as 14h15 e as 18h30, as primeiras Jornadas de Teatro Clássico Português, que contarão com a participação de especialistas portugueses e brasileiros.

Cinema

Srebrenica, 25 anos depois

É um filme de visão obrigatória para todos, a começar pelos mais jovens que nem sequer têm memória destes acontecimentos, apesar de tão recentes. E porquê? Porque era fundamental que tragédias hediondas e desnecessárias como esta não voltassem a repetir-se. E, infelizmente, para nossa vergonha, continuam a acontecer, de maneiras várias, em muitos lugares do nosso Mundo, desta Casa Comum que devia ser da fraternidade e da paz, da amizade e da justiça.

Colóquio em Coimbra

Santo António, crítico da “economia viciosa” e “filósofo” da conversão moral

É necessária e urgente uma “economia ética da casa comum”, inspirada no pensamento de Santo António e na sua crítica à “economia viciosa e de pecado”. A ideia será defendida pelo padre franciscano Vítor Melícias, que intervém na manhã deste sábado no colóquio Santo António – 800 anos de vocação franciscana, que decorre no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra.

Livro

As casas e os espaços dos primeiros cristãos

Esta obra apresenta uma coletânea de textos dos quatro primeiros séculos sobre os espaços que os cristãos criaram para celebrar a sua fé, desde homilias a catequeses pascais, de cartas a escritos teológicos. O leitor é introduzido neste património literário por um amplo estudo de Isidro Lamelas.

Concerto em Lisboa

Música de Pärt e Teixeira para um tempo de confiança

Hinário para um tempo de confiança, obra musical de Alfredo Teixeira, sobre textos de frei José Augusto Mourão, e The Beatitudes (As bem-aventuranças), do estoniano Arvo Pärt, raramente interpretada em Portugal, são as duas peças que marcam o regresso do Ensemble São Tomás de Aquino à sua temporada de concertos, neste sábado, 5 de Junho, às 21h, na Igreja Paroquial de São Tomás de Aquino (R. Virgílio Correia, em Lisboa).

Dia Mundial dos Oceanos

“Ilhas de Plástico” no rio Minho apelam à luta ambiental

Artista idealizou como metáfora do tempo um conjunto de 24 esculturas esféricas de grande dimensão forradas com materiais de plástico, garrafas de água, tubos de diferentes cores e feitios idênticos aos utilizados na construção civil. Unidas entre si formam uma mega-instalação flutuante e ondulante, atractiva, pedagógica, capaz de provocar olhares desencontrados. No próximo dia 8 de Junho, Dia Mundial dos Oceanos, estará fundeada no rio Minho.

Giacomo Campanile

O professor que ensinou religião e música ao vocalista vencedor da Eurovisão

Giacomo Campanile, docente de Religião no Liceu Eugenio Montale, em Roma – “estou aqui há 26 anos” – pode afirmar que viu nascer e crescer musicalmente o vocalista do conjunto que pouco tempo antes tinha também arrebatado o primeiro prémio de uma das iniciativas musicais mais importantes de Itália, o festival de San Remo. Agora, os Måneskin venceram o festival Eurovisão 2021,

Saborear os Clássicos V

Júlio Dinis – a modéstia e o perfume das violetas

O escritor Júlio Dinis (1839-1871) – na verdade o médico Joaquim Guilherme Coelho – nasceu de uma família da alta burguesia portuense. O pai, médico; a mãe de origem inglesa e irlandesa – os avós, pelo menos, comerciantes, já cá viviam. Estuda na Escola Médica. Acabado o curso com distinção, torna-se lente nessa Escola. Siga aqui neste artigo o seu percurso como autor

A arte na defesa e promoção dos direitos humanos

O impacto da arte na criação de uma agenda voltada para a defesa e promoção dos direitos humanos estará em debate esta quinta e sexta-feiras, dias 20 e 21 de maio, numa conferência internacional, que decorrerá na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, mas poderá também ser acompanhada através da internet. Na segunda-feira, dia 24, o evento terá uma extensão exclusivamente online. 

“À Sombra do Silêncio” – Elogio ao poeta do ‘pensar emocionado’

Que coisa é a poesia, o pensamento poético, senão o labor silencioso da captação da ausência, do invisível que está aí para que se veja, se apresente? Só um fino olhar, transfigurado e transfigurador, captará tal modo de ser presença. Este pensar sensível, que mantém a tensão entre o conceito e a intuição, a razão e a pulsão, mantem-nos despertos do longo sono do racionalismo estrito, de uma razão tecnológica glicémica, mas estreita e pesada, que nos adormece e embala, de teorema em teorema, não obstante a condição trágica em que os humanos vivem – a permanente e inacabada “noite do Getsémani”.

Ter uma casa não é ter um lar

Apesar de uma carreira já muito premiada (vencendo inclusive os Óscares para Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Actriz, dos seis para que estava nomeado) Nomadland – Sobreviver na América nunca será um filme consensual. E cada um vê-lo-á de um ponto de vista diferente, como sempre. Eu digo, desde já, que é um filme que vale muito a pena ver.

Alusões a um corpo ausente

Cada pessoa que fizer uma evocação de José Augusto Mourão fá-lo-á de um modo diferente. O percurso biográfico de Mourão presta-se a essa pluralidade quase heterodoxa, diferente das narrativas oficiais com as quais se canoniza uma vida e uma determinada biografia da mesma.

Flannery O’Connor e “Um Diário de Preces”

Flannery O’Connor foi uma escritora norte-americana (1925-1964), falecida aos 31 anos de lúpus, doença degenerativa precocemente diagnosticada (aos 12 anos) e que, depois de lhe terem sido dados cinco anos de vida, Flannery conseguiu, com uma vontade indomável, prolongar por mais 10 anos. Católica convicta, viveu em Savannah, na Geórgia, no sul protestante e conservador. Escreveu sobretudo sobre a decadência do sul da América. Fez uma licenciatura em Inglês e Sociologia e uma pós-graduação através de um writer’s workshop (oficina de escrita) na Universidade de Iowa. Escreveu 32 contos e dois romances.

O teatro da vida na leitura cristã de Luís Miguel Cintra

A revista E, do Expresso, deste fim-de-semana traz em várias páginas a súmula de mais de duas horas de conversa de Luís Miguel Cintra com a jornalista Luciana Leiderfarb, com as imagens da objetiva do repórter António Pedro Ferreira. Destaca-se dela não só uma grande personalidade do teatro, mas também uma pessoa de enorme sensibilidade e riqueza humanas.

Uma associação para defender os direitos dos mais velhos

Nos bairros Padre Cruz e da Horta Nova, em Carnide, todos conhecem a ARPIC, a associação onde é possível conseguir ajuda, seja para o que for. Para preencher os papéis para o subsídio de desemprego ou para o IRS, para ajudar a encontrar soluções para os idosos isolados, para visitar os que estão nos lares, para facilitar o contacto entre os vizinhos. São ações desenvolvidas no âmbito do programa de intervenção e apoio social, “Pulsar”, para defender os direitos dos mais velhos, tendo em vista a sua formação e informação.

[À volta do 1º de Maio] Estranha forma de vida

Ao aceitar o desafio de escrever sobre o trabalho enquanto artista e profissional da cultura, Rui Aleixo aflora uma panóplia de aspetos que estão intimamente ligados a esta profissão, mas também à vida de um artista, que é muitas vezes indissociável do seu trabalho. Este contributo não pretende esgotar o tema, mas poderá ajudar a desmontar clichés e a tornar menos abstrata esta estranha forma de vida.

Verbalizar o desejo

Em Rezar de Olhos Abertos, José Tolentino Mendonça assume a missão de guiar o crente e a comunidade (alguns textos surgem nesse contexto) na verbalização orante, inserindo-se assim numa tradição espiritual que conhece nos Salmos a sua expressão talvez mais plena e fecunda.

Inquisição em Portugal: Erasmo entre a Contra-Reforma e a Reforma

A presença dos judeus na Península Ibérica é muito antiga, sendo impreciso o momento em que eles aqui se estabeleceram. A certeza é que os judeus sefarditas desempenharam “notável papel” na sociedade medieval peninsular: “é a Idade de Ouro do Judaísmo na Diáspora”. Com a invasão árabe, os judeus viveram em plena liberdade de culto e incrementaram um grande desenvolvimento económico com o Oriente.

“Alguma coisa de tão forte dentro de nós”: Maria Natália Duarte Silva Teotónio Pereira (1930-1971)

Inspirou-se num excerto da Carta aos Romanos para propor uma comissão de apoio aos presos políticos. Desejava que a sua vida fosse uma aventura e envolveu-se em dezenas de iniciativas de oposição à ditadura. Natália Duarte Silva morreu prematuramente há 50 anos, que se completam neste dia 23, antes de ver chegar a liberdade e a democracia pelas quais lutava. À filha Luísa, que aqui a evoca, escreveu que antes de passar qualquer coisa ao papel, é preciso senti-la fortemente dentro de nós.

Dois quadros de Caravaggio

Há dois episódios que recentemente recordámos na liturgia que continuam a deixar-nos cheios de perplexidade. Falo da tripla negação de Pedro e da incredulidade de Tomé. Afinal, somos nós mesmos que ali estamos representados, por muito que isso nos choque. E o certo é que, para que não haja dúvidas, as palavras que pontuam tais acontecimentos são claríssimas. Pedro recusa terminantemente a tentação, quando Jesus lhe anuncia que ele O vai renegar. E nós sentimo-nos aí retratados.

Seminário de Coimbra assinala Dia Internacional dos Monumentos e Sítios com direto na cúpula da igreja

Uma conversa em cima do andaime montado na cúpula da igreja do Seminário Maior de Coimbra irá juntar, no próximo dia 19 de abril, pelas 18h, o padre Nuno Santos, reitor da instituição, e Luís Aguiar Campos, coordenador do projeto de conservação e restauro do seminário. A iniciativa pretende assinalar o Dia Mundial dos Monumentos e Sítios (que se celebra domingo, 18) e será transmitida em direto no Facebook.

A torrente musical de “Spem in Alium”, de Thomas Tallis

Uma “torrente musical verdadeiramente arrasadora”, de esperança pascal, diz o padre Arlindo Magalhães, comentador musical, padre da diocese do Porto e responsável da comunidade da Serra do Pilar (Gaia), a propósito da obra de Thomas Tallis Spem in Alium (algo que se pode traduzir como “esperança para lá de todas as ameaças”).

A Páscoa é sempre “pagã”

A Páscoa é sempre pagã / Porque nasce com a força da primavera / Entre as flores que nos cativam com promessas de frutos. / Porque cheira ao sol que brilha na chuva / E transforma a terra em páginas cultivadas / Donde nascem os grandes livros, os pensamentos / E as cidades que se firmam em pactos de paz.

Ler Saramago em conjunto num zoom de Lisboa a Roma

O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, foi a obra escolhida para dar o mote ao encontro organizado por dois clubes de leitura, um de Roma, outro de Lisboa, que decorrerá via Zoom, dia 16 de abril, às 18h00. Uma segunda sessão, na qual participará Pilar del Rio, presidente da Fundação José Saramago, terá lugar a 25 de junho, também às 18h00. A inscrição é gratuita e está aberta a todos.

50 Vozes para Daniel Faria

Daniel Faria o último grande poeta português do século XX, morreu há pouco mais de vinte anos. No sábado, dia 10, assinala-se o 50.º aniversário do seu nascimento. A Associação Casa Daniel assinala a efeméride com a iniciativa “50 Vozes para Daniel Faria” para evocar os poemas e a memória do poeta.

Performance, expressões, palavras: rituais do acto de contar

A minha avó contou-me que a literatura existe em todos os momentos da vida de um bantu. Eu explico. Embora sejam vastas e sempre inacabadas as discussões sobre o que é literatura, há sempre delimitações possíveis ou básicas, para referir o campo abrangido pelo objecto e compreender, de algum modo, a dimensão do seu alcance.

As ignoradas Mães (Madres) do Deserto (II)

Sabemos hoje que, para além das mais conhecidas ammas do deserto – Sinclética, Theodora, Sarah, Matrona, aquelas que deixaram escritos – houve pelo menos 50 ammas dispersas pelo Egito, Terra Santa, Capadócia mas, também, em França e na Irlanda. Como é possível terem sido ignoradas ao longo de tantos séculos?

… vive nesse canto

A quinta-feira inaugura o tríduo do drama de Jesus, Páscoa de páscoas, passagem pelos lugares da violência, sem heroicidade, narrativa que tece uma outra vida, na qual o verso da história aspira à cidadania. Desafiado a escolher uma obra musical para este dia, não a busquei nos arquivos da “música sacra”, no interior das catedrais, mas na rua.

Uma errata eloquente

A errata que o diário espanhol El País, um dos mais prestigiados jornais europeus, publicou na edição de domingo, 28 de Março, esclarecendo que “no catolicismo, a Trindade está formada pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo; e não pelo Pai, pelo Filho e pela Virgem como se sugeria na reportagem sobre a catedral de Burgos publicada no sábado nas páginas de Cultura”, poderia ser apenas risível. Mas é o sintoma de uma deplorável falta de cultura religiosa que grassa nas redacções dos jornais. E, evidentemente, não apenas nelas.

Bíblia completa traduzida em 66 novas línguas em 2020. E vão 704!

A pandemia foi fecunda para as traduções da Bíblia em novos idiomas, ainda que uma tradução seja um trabalho longo e aturado. Segundo a publicação Evangelicals.info, ao iniciar-se o corrente ano, chegava a 704 o número de línguas em que estava disponível o livro sagrado dos cristãos e dos judeus, mas também dos muçulmanos, mais 66 do que um ano antes.

Sem o Islão não teríamos S. Tomás nem Dante

Devemos ao Islão e aos filósofos muçulmanos Avicena (séc. X-XI) e Averróis (séc. XII) terem mantido a cadeia de transmissão da obra de Aristóteles, sem a qual dificilmente obras-primas da literatura e do pensamento como a Suma Teológica ou a Divina Comédia teriam sido concebidas e realizadas.

Um coral protestante de Bach para cantar a fidelidade e a esperança

“Jesus continua a ser a minha alegria”, “é quem me dá força para viver”, por isso “mantenho Jesus no meu coração e como meu horizonte” – são expressões contidas num dos mais famosos corais de Johann Sebastian Bach, Jesus bleibet meine Freude, hino que traduz a atitude de fidelidade e esperança do crente, nos tempos bons como nos maus, na paz como no sofrimento.

A Estátua da Liberdade, o rabino patriota e o príncipe mercador – Os judeus portugueses na América (pré-publicação 7M)

A Liberdade, que desde 1886 recebe de chama na mão quem se aproxima de Manhattan, guarda aos seus pés a memória de uma diáspora com origens no lado de cá do Atlântico. Emma Lazarus, a autora do poema gravado no pedestal da estátua, conseguia recuar a sua ancestralidade até um judeu de Lisboa que, em 1738, chegara àquela mesma cidade de Nova Iorque.

Francisco celebra Dante Alighieri como profeta da esperança

A Divina Comédia é “expressão sublime do génio humano”, “fruto duma nova e profunda inspiração” escreve o Papa Francisco na Carta Apostólica “Esplendor da Luz Eterna” que dedica ao poeta florentino na passagem do 700º aniversário da sua morte.

As feridas da contemporaneidade em música da Paixão

“O século XX foi o século do regresso da Paixão como forma musical, particularmente depois da I Guerra Mundial. Diria que se pode fazer uma história do século XX a partir das criações musicais sobre as narrativas da Paixão”, escreve o compositor Alfredo Teixeira.

Os Dias da Semana – As pedras da poesia

O Dia Mundial da Poesia celebrou-se domingo passado, dia 21. Em diversos lugares a efeméride foi, talvez, aproveitada para tirar da estante alguma antologia de poemas sobre o amor, os gatos, o mar ou a saudade. Sobre pedras, não há ainda qualquer colectânea.

Uma biblioteca do Médio Oriente e Norte de África em Lisboa

A Junta de Freguesia de Arroios (Lisboa) inaugurou uma Biblioteca pública dedicada ao Médio Oriente e Norte de África, com livros originais, cujo objectivo é “promover a interculturalidade” naquela freguesia lisboeta, onde vivem pessoas de quase uma centena de nacionalidades.

Guerra Junqueiro: Peregrino em contínuo desenraizamento

Abílio Manuel Guerra Junqueiro nasceu em Freixo de Espada-à-Cinta (Bragança, Trás-os-Montes), de uma família abastada. Matriculou-se em Coimbra na Faculdade de Teologia; dois anos depois mudou para a Faculdade de Direito. Pertenceu à Geração de 70, denominação do grupo de intelectuais que, na década de 1870, quiseram renovar a cultura portuguesa, na fase decadente do Romantismo.

Rumi, Al-Sistani e o Papa Francisco

A propósito do encontro entre o Papa Francisco e o Ayatollah Ali al-Sistani, no Iraque, traduzo este poema da tradução inglesa sobre o original, que já referia a dificuldade de penetrar nesse mundo interior. Esforcei-me por manter uma fundamentada empatia e um fraseado elegante. Utilizei especialmente as seguintes obras: The Religious Experience of Mankind (Ninian Smart, Collins, 1971); The Message and the Book (John Bowker, Yale University Press, 2012 – donde o poema, p. 156-157):

Os lugares do Papa no Iraque: uma viagem de regresso, reencontro e reafirmação de fraternidade

Os lugares da viagem do Papa ao Iraque erguem memórias que abarcam desde o berço da civilização nas planícies do sul da Mesopotâmia e de toda a sua história até ao berço da expansão judaico-cristã, nos vales e montanhas entre a Assíria e a vizinha Arménia. Ali começou a viagem de Abraão, ali Francisco regressa numa visita que traduz o reencontro e a reafirmação da fraternidade. Um percurso pelos lugares da viagem, ao encontro da memória desses lugares.

Arte de rua: amor e brilho no olhar

Ouvi, pela vida fora, incontáveis vezes a velha história da coragem, a mítica frase “eu não era capaz”; é claro que não, sempre que o preconceito se sobrepõe ao amor, não é possível ser-se capaz. Coragem?? Coragem eu precisaria para passar pela vida sem realizar os meus desejos, nesse louco trapézio entre doses paralelas de coragem e cobardia.

O Karimojong português

O padre Germano Serra, um missionário comboniano português, acaba de publicar o dicionário mais completo da língua karimojong, uma tribo semi-nómada do Uganda por que se apaixonou há quase quatro décadas.

Precisamos de nos ouvir (22) – António Durães: Talvez a arte nos possa continuar a salvar

Por força não sei de que determinação, o meu mundo, o mundo teatral, divide-se, também ele, em duas partes. Não há Tordesilhas que nos imponha o mundo assim, mas a verdade teatral determina-o: o mundo da sala e o mundo do palco. A cortina de ferro divide esses dois mundos de forma inexorável. Por razões de segurança, mas também por todas as outras razões. E esses dois mundos apenas se comunicam, quando o Encontro, como chamavam alguns antigos ao espectáculo, se dá.

CRC promove homenagem a Luís Salgado Matos

O Centro de Reflexão Cristã promove no próximo dia 10 de março um encontro de homenagem a Luís Salgado de Matos, falecido a 15 de fevereiro, autor com um largo contributo para o estudo da história religiosa contemporânea com muitas obras e artigos.

Os Dias da Semana – Um mau poema suja o mundo

Bons espíritos sustentam que a poesia ocidental fala quase exclusivamente de amor e de morte. Não seria, também por isso, de estranhar o tema do poema inédito de Joan Margarit, que poderá ter sido escrito no período em que o autor teve de enfrentar o cancro que o vitimaria.

Canções para estes tempos de inquietação 

No ano em que Nick Cave se sentou sozinho ao piano, para nos trazer 22 orações muito pessoais, desde o londrino Alexandra Palace para todo o mundo, numa transmissão em streaming, o australiano dedicou-se também à escrita de 12 litanias a convite do compositor neoclássico belga Nicholas Lens.

Franz Jalics, in memoriam: a herança mais fecunda

Correr-se-ia o risco de passar despercebido o facto de ser perder um dos mais interessantes e significativos mestres da arte da meditação cristã do século XX, de que é sinal, por exemplo, o seu reconhecimento como mestre espiritual (a par de Charles de Foucauld) pela conhecida associação espanhola Amigos del Desierto, fundada por Pablo d’Ors.

A luta de Abel com o Caim dentro dele

Como escrever sobre um filme que nos parece importante, mas nem sequer foi daqueles que mais nos entusiasmou? E, no entanto, parece “obrigatório” escrever sobre ele, o último filme de Abel Ferrara, com o seu alter-ego e crístico Willem Dafoe: Sibéria.

Silêncio, que se vai rezar (a ouvir) o fado

Podem os olhos, as mãos ou o rosto de quem canta o fado exprimir uma atitude de religiosidade? Cátia Tuna investigou o tema e descobriu como a canção – que começou por ser boémia e se tornou “nacional” – preencheu um vazio que o catolicismo orgânico tinha deixado a descoberto. Silêncio, que se vai rezar (a ouvir) o fado.

As ignoradas Mães (Madres) do Deserto

As “Mães” do Deserto foram, de par com os Padres do Deserto, mulheres ascetas cristãs que habitavam os desertos da Palestina, Síria e Egito nos primeiros séculos da era cristã (III, IV e V). Viveram como eremitas tal como muitos padres do deserto e algumas formaram pequenas comunidades monásticas.

Encarnar a vida

Avanço entre os clamores do desespero e da esperança/ Sem olhar para trás como a mulher de Ló/ Levo o passado nos pés e o futuro na voz/ Com eles vou desenhando à mão o caminho.

José Marques (1937-2021), padre e medievalista

Padre e historiador, José Marques faleceu aos 83 anos. Foi a sepultar na terça-feira, 2 de Fevereiro, no cemitério de Braga. “Com o desaparecimento do Professor José Marques, a historiografia portuguesa perde um dos seus mais distintos medievalistas”, refere a nota de condolências do Presidente da República.

“Menina e Moça”, os judeus sefarditas e a emanação feminina de Deus

Gritos de espanto e assombro do poeta judeu português, Samuel Usque, face à perseguição e tragédia do seu povo. Dor que transcende o Universo. Atracou em Sepharad – nome judaico dado à Península Ibérica – nos séculos II ou III, numerosa comunidade judaica que aqui se estabeleceu: artesãos, cientistas, comerciantes, escritores, filósofos, juristas, médicos, frequentadores das cortes e conselheiros de reis.

A pacifista Mafalda e as armas nucleares

As armas nucleares foram um sério e persistente motivo de preocupação para Mafalda, a menina criada por Quino. Em várias circunstâncias, a pacifista Mafalda partilha um medo mundialmente vivenciado durante o período da Guerra Fria, mostra a irracionalidade da escalada armamentista e enaltece a paz.

A máscara – espelho da alma

A propósito da recolha, compilação e publicação de alguns contos e lendas do concelho de Bragança, todos eles belíssimos e inspiradores, resolvi escrever sobre um deles (A Máscara de Ouro), por três razões principais: a primeira razão prende-se com o facto de unir a memória e o território, na figura do Abade de Baçal, patrono do meu Agrupamento de Escolas;

A vida, o sofrimento e Jesus

Dois autores, ambos presbíteros com profundas experiências e preocupações pastorais – Valdés é biblista argentino, Bermejo é especialista na pastoral da saúde em Espanha – oferecem em Peregrinar a Jesus um contributo notável para aprofundar as difíceis e exigentes questões relacionadas com a saúde, o sofrimento e a relação de fé.

O olhar da raposa

Infelizmente, são ainda muitos os lugares deste mundo onde a pena de morte continua a existir e a ser praticada. Sirvam de exemplo estas notícias do Público de sexta, 11 de Dezembro e Domingo 13 de Dezembro: “Trump autoriza onda de execuções como não se via há 124 anos”; “Alfred Bourgeois é o segundo executado em dois dias pela Administração Trump”; “Irão executa jornalista por inspirar protestos de 2017 contra o regime”.

A pegada de religiosidade na obra de João Cutileiro

“Na vasta obra de João Cutileiro, há uma intermitente, mas persistente, pegada de religiosidade que deixou plasmada em poemas de pedra”, escreve o padre Mário Tavares de Oliveira, cónego da diocese de Évora, num texto que evoca a arte do escultor que morreu no passado dia 5.

Egito: Avança criação do “Caminho da Sagrada Família”, uma das mais extensas rotas de peregrinação do mundo

Apesar da pandemia de covid-19, está a avançar o ambicioso projeto patrocinado pelas autoridades egípcias para a criação do “Caminho da Sagrada Família”, um itinerário turístico-religioso que irá ligar os lugares que, de acordo com a tradição, Maria, José e Jesus teriam atravessado quando procuraram refúgio no Egito para escapar à violência do rei Herodes e que será uma das mais extensas rotas de peregrinação religiosa do mundo, avançou o Vatican News.

Palavra e Palavras

Durante as semanas de Advento li o novo livro de Valter Hugo Mãe (VHM), Contra Mim. Trata-se de um livro que revela quem é Valter Hugo Mãe. A sua leitura literalmente me encantou e fez emergir múltiplas epifanias.  Um grande livro, um grande escritor. Uma prosa lindíssima e original. Uma profunda busca de Deus.

Auscultar a expressão de um Povo

A chamada Caixa de Correio de Nossa Senhora constitui um arquivo do santuário de Fátima no qual se conservam as mensagens ali enviadas de todo o mundo, a partir da década de 40 do século passado, dirigidas à Mãe de Jesus. Trata-se de cartas, bilhetes, postais, ex-votos, num número que atinge os milhões e que constituem uma expressão de devoção íntima e pessoal de inúmeros católicos de todas as origens sociais, económicas e familiares.

Eduardo Lourenço, pensar livre…

Uma das visitas mais fascinantes que fiz ao Museu do Prado foi na companhia de Eduardo Lourenço. Não me lembro de quanto tempo tivemos juntos, percorrendo as salas de um modo totalmente desprendido, esquecidos das horas e do tempo. Aconteceu como nos velhos contos medievais em que um minuto se torna mil anos, como com o monge que se distraiu a ver a paisagem e ao voltar já não conhecia os companheiros do convento, pois tinha passado um ror de tempo naquele minuto esquecido.

Um Natal muito (pouco) sentimental…

Os relatos do Nascimento de Jesus não são meramente sentimentais. Os relatos são ao mesmo tempo pessoais e políticos. Falam de transformação pessoal e política. Situados no contexto do século I, são visões globais e apaixonadas por uma outra maneira de ver a vida e de viver as nossas vidas. Levam a tribunal a vida actual corrente, o status quo da maioria dos tempos e lugares. Causam tensão e dificuldade. Confrontam aquilo a que chamamos a “normalidade da civilização”.

Alfredo Teixeira e João Andrade Nunes em entrevista: a música como arte de dizer Deus

Há um movimento de renovação na música litúrgica, que oscila entre a recriação de uma herança musical litúrgica e uma “via culturalizante, abrindo a liturgia aos diferentes idiomas musicais disponíveis”. A propósito do disco Vimos do Mar e da Montanha, apresentado há um mês em Lisboa, o 7MARGENS entrevistou os dois compositores autores das peças que o compõem. Alfredo Teixeira e João Andrade Nunes falam dos movimentos de renovação da música litúrgica, dos limites e potencialidades que encontramos na criação contemporânea, das linguagens que os têm inspirado e das potencialidades da música como experiência comunitária a merecer hospitalidade. A música pode ser uma arte de dizer Deus, afirmam.

Memória de Maria

Neste dia nasceu Jesus
Todos os anos vos conto como foi
Para que se mantenha viva a Sua memória

A alma de Eduardo Lourenço

Em entrevista realizada em 2006 Eduardo Lourenço afirmava: “O que define o Homem é o facto de ele ser uma alma”, querendo significar que a pessoa humana está muito para lá da mera corporeidade. O país tem prestado homenagem ao insigne pensador, em especial nas últimas semanas, devido ao seu desaparecimento, mas o facto é que estamos perante um pensador com alma.

A Caixa de Correio de Nossa Senhora 

Quando, durante vários anos, antes de 25 de Abril de 1974, o Natal se aproximava, a RTP incluía na sua programação uma espécie de tempo de antena que muitas famílias portuguesas aguardavam com desmedida ansiedade. A partir de várias zonas das então designadas “províncias ultramarinas”, a televisão portuguesa dava um módico de voz aos soldados que para lá tinham ido combater.

“Peregrinação pelas igrejas de Lisboa”, inédito de Felicidade Alves em livro electrónico

A obra inédita de José da Felicidade Alves, Peregrinação pelas Igrejas de Lisboa, começou nesta segunda-feira, 14 de Dezembro, a ser publicada em formato de livro electrónico, no portal de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. A data coincide com o dia em que se assinala o 22º aniversário da morte do antigo pároco de Belém (Lisboa), suspenso a divinis pelo então cardeal Gonçalves Cerejeira, patriarca de Lisboa.

A alegria do Papa e o Presépio de Castelli

O Domingo da Alegria, na liturgia católica do tempo do Advento, é dia escolhido para o Papa benzer as figuras dos Meninos Jesus que serão colocadas nos presépios. Por isso, neste domingo, 13 de dezembro, a Praça de S. Pedro fugiu à pandemia e encheu-se (mas cumprindo as regras sanitárias…) para um Angelus muito especial.

“Uma Vida à sua Frente” – Amizade Social

Quando sugeri a amigos e conhecidos que vissem na Netflix o filme/documentário do grande realizador Wim Wenders Francisco, um Homem deste Mundo, sugeri-lhes que prestassem atenção, já que Francisco tinha um “olhar de Deus”, nomeadamente quando aparecia em primeiro plano, olhando de frente para o entrevistador.

Uma peregrinação interior com “Triságia”

Ao percorrer as páginas do livro Triságia, fi-lo em diferentes modos, ritmos e olhares, numa cadência que passou pela curiosidade, atravessou a espessura do desconhecido e mergulhou na profundidade. Primeiro, o livro ficou à espera, à minha espera em cima da mesa, junto de outros livros não lidos. De vez em quando deitava de soslaio o olhar àquela capa manchada de tinta alilasada. O título Triságia empurrava-me para o dicionário, mas tinha preguiça de procurar. Aliás, quando falei do livro a uma amiga, a pergunta saltou: Que significa essa palavra?

Listen: um filme para ser escutado nas entranhas

Podemos entrar neste filme pela lente partida da máquina fotográfica a fingir de Lu, a filha surda-muda daquela família. Uma lente que faz lembrar as teias onde as aranhas apanham, prendem e comem outros insectos. É disso que se trata neste filme: o Estado, no seu suposto zelo de cuidar das crianças melhor do que a família, cegamente e violentamente, vigia, julga e retira os filhos aos pais.

Cardeal Tolentino evoca “um caixão com a forma de Portugal” e Lídia Jorge fala do “menino de 15 anos oferecido ao futuro” nas exéquias de Eduardo Lourenço

O cardeal José Tolentino Mendonça lembrou nas exéquias do ensaísta e pensador Eduardo Lourenço, que morreu terça, dia 1, “o explorador e o cartógrafo”, “o psicanalista do destino e o decifrador de signos”, “investigador generoso e iluminado” a quem Portugal deve maior entendimento de si. No final da missa no Mosteiro dos Jerónimos, nesta quarta-feira, 2 de Dezembro, a escritora Lídia Jorge disse que o autor de Heterodoxias permanecerá como “alguém de 15 anos, dentro de uma estante, oferecido ao futuro”.

Eduardo Lourenço (1923-2020): O pensador levantou-se mais cedo para tentar apanhar Deus

Ficou por entregar pessoalmente o Prémio Árvore da Vida, que lhe foi atribuído pela sua busca de uma “sabedoria trágica da vida porventura conciliável com a vivência eclesial da Fé” e a “incomensurável Transcendência divina”. O pensador, ensaísta e professor Eduardo Lourenço morreu na madrugada de dia 1, em Lisboa. O funeral é nesta quarta-feira. Portugal, a Europa, a literatura e a poesia, a música e o cinema foram objectos da sua atenção fina e crítica. Como também o cristianismo, experiência e matriz da qual nunca de desligou e que considerava a “grande revolução humana que se operou na história” cujos efeitos ainda “nem sequer começaram.”

Não podemos ignorar

Há muitas razões que tornam este pequeno livro maior do que a sua dimensão física. A bibliografia sobre a luta antifascista é já extensa, mas este ensaio é diferente. Ao fazer a história da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP) nos seus cinco anos de existência (1969-1974), Edgar Silva escolhe retratar a sociedade portuguesa daquele período a partir do conceito de medo.

O futuro será bom, se o presente o for

E, já agora, falando em mulheres e em livros, escrevo, também, numa altura em que me encontro a fazer um prefácio a uma antologia de textos literários de mulheres, juntamente com Ana Mafalda Leite. Eu e ela, bem como Ana Rita Santiago, ambas docentes de literaturas; a primeira em Portugal e a segunda no Brasil, temos trabalhos nos quais recenseámos a existência de mulheres escritoras em Moçambique (nascidas no país e lusodescendentes), das quais pouco se fala e escreve. Aproveito este espaço para divulgar os nomes dessas escritoras e mais adiante, neste texto, explicarei a razão da sua invocação. Colocarei em itálico, os nomes das que me consta não estarem entre nós.

“Vimos do mar e da montanha”, um disco contemporâneo apresentado sábado, 28, em Lisboa

Vimos do Mar e da Montanha é o título do projecto discográfico que será apresentado neste sábado, 28 de Novembro, às 11h, na Igreja de São Tomás de Aquino (Lisboa). Com edição da Paulus Editora, o disco tem música de Alfredo Teixeira e João Andrade Nunes, e textos de José Augusto Mourão e do Missal Romano, sendo interpretado pelo Ensemble São Tomás de Aquino.

Descoberto esboço de retrato de Jesus atribuído a Leonardo da Vinci

Um equipa de investigadores italianos encontrou recentemente, numa coleção privada na região da Lombardia, o esboço de um retrato de Jesus Cristo que acreditam ser da autoria de Leonardo da Vinci. O desenho, feito a giz vermelho – técnica que era frequentemente utilizada pelo pintor renascentista – tem semelhanças com algumas das suas obras mais emblemáticas, nomeadamente “Mona Lisa” e os seus autorretratos, revelou o jornal britânico The Telegraph.

Abrir as “páginas seladas” do livro bíblico do Apocalipse em tempo de pandemia

O livro bíblico do Apocalipse (ou da Revelação) é uma profecia para tempos de crise e por isso é importante abrir agora as suas “páginas seladas”. Com esse mote, a comunidade católica da Capela do Rato propõe três sessões sobre o último dos livros da Bíblia cristã. Uma conferência de João Duarte Lourenço, uma leitura de Luís Miguel Cintra e um percurso proposto por Emília Nadal através da arte inspirada naquele texto serão as três etapas propostas para este itinerário.

Dois retábulos em restauro no Mosteiro de Pombeiro

Os retábulos de Nossa Senhora das Dores e de Santo António (bem como as respectivas esculturas) na nave da igreja do Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro (Felgueiras) estão a ser sujeitos a uma operação de conservação e restauro, com o objectivo de melhorar a estabilidade estrutural, valorizar a vertente conservativa e restituir, tanto quanto possível, uma leitura integrada do conjunto.

Gonçalo – o jardineiro de Deus

Gonçalo Ribeiro Telles foi um católico inconformista e determinado. Subscreveu em 1959 e 1965 três importantes documentos de católicos em denúncia da ausência de liberdade, da censura, e da repressão, arcando com as consequências de uma tal ousadia. Os textos de 1959 intitulavam-se significativamente: “As relações entre a Igreja e o Estado e a liberdade dos católicos” e “Carta a Salazar sobre os serviços de repressão do regime”; ambos tinham como primeiros subscritores os Padres Abel Varzim e Adriano Botelho.

Biblioteca Apostólica do Vaticano dedica Agenda de 2021 à “mulher e os livros”

“Não é possível fazer a história da Biblioteca dos Papas sem iluminar o contributo das mulheres”, escreve o cardeal português José Tolentino Mendonça, bibliotecário da Santa Sé, na apresentação da nova Agenda 2021 da Biblioteca Apostólica Vaticana, dedicada ao tema “A mulher e os livros. A mulher como construtora e guardiã das bibliotecas no tempo”.

Bonhoeffer, teólogo e resistente ao nazismo

O autor desta obra, escritor e historiador italiano, descreve pormenorizadamente o processo espiritual de um homem religioso do luteranismo alemão, Dietrich Bonhoeffer (1906-1945). Viveu na trágica situação da Europa antes da II Guerra Mundial, a ascensão do nazismo e do racismo anti-semita que colocou como objectivo final o extermínio total dos judeus: cerca de seis milhões de judeus foram massacrados; ciganos sinti e rom – entre 250 a 500 mil, além de muitos milhares de outros homens e mulheres.

O Espírito surpreende-nos

Este livro não tem índice. Não tem nem precisa. Seria redundante. É uma coleção de diários. Todos os dias, de 24 de março a 29 de maio. Um exercício de diálogo com a Palavra, com os acontecimentos do dia – dos mais próximos e pessoais, aos mais longínquos e de todos conhecidos –, com as inquietações, as esperanças e as alegrias de cada dia.

#o_avesso_da_casa

Integrado no desafio “Quanto tempo tenho que esperar para que a realidade se torne extraordinária?”, no contexto pandémico da covid-19, que se alastra dramaticamente em todo o mundo, ceifando milhares de vidas, resolvi centrar a minha atenção na CASA, sua ausência, sua presença. A CASA em que vivo, as várias casas onde estou, a CASA maior que é o planeta. A CASA vazia, deserta, virada ao avesso. O confinamento em CASA pode representar uma prisão ou um confronto connosco e mesmo a liberdade, o nosso direito de ir e vir, que agora não se vive na plenitude, guarda ressaibos de saudade.

Os filhos dos dias, de Eduardo Galeano

Fazer corresponder a cada dia do ano uma breve história ocorrida nesse dia em tempos mais ou menos recentes ou mais ou menos remotos é o propósito de Eduardo Galeano em “Os filhos dos dias”. Protagonizadas por todo o tipo de gente, anónima ou famosa, desprezível ou admirável, de múltiplos cantos do planeta (incluindo Portugal), as histórias oferecem um testemunho quotidiano, que pode ser também um ensinamento ou uma interrogação.

Sociedade Bíblica “oferece” +Bíblia e evoca João Ferreira de Almeida

A Sociedade Bíblica de Portugal (SBP decidiu alargar os conteúdos e o acesso gratuito ao site Bíblia.pt e à aplicação Bíblia para todos. Em ambas as plataformas, há um ano que é possível aceder gratuita e integralmente ao texto bíblico na tradução de a BÍBLIA para todos, e na de João Ferreira de Almeida – o primeiro tradutor da Bíblia para o português.

De Covadonga para o mundo: Cuevas abre Misty Fest

O embrulho do flamenco com a eletrónica não é uma novidade, nem o mundo do folclore e das tradições populares se mantém impermeável às investidas sonoras mais contemporâneas. Não nos faltam exemplos, mas de Espanha chegam bons ventos com este casamento: Rodrigo Cuevas sobe esta quinta-feira ao palco, em Lisboa, na abertura do Misty Fest – que decorre num formato mais contido, sob o signo da pandemia.

Roubaix: um conto de Natal (em Novembro)

Ao ler uma entrevista (Público/Ípsilon, 11 de setembro) do realizador Arnaud Desplechin, ainda antes de ir ver o filme, houve logo duas coisas que me fizeram pensar no Papa Francisco e no caminho que ele insistentemente propõe aos baptizados. Essa impressão foi agora, no momento em que escrevo, alargada pela leitura da sua nova encíclica Todos Irmãos (Fratelli Tutti).

Francisco de Assis, a fecundidade de um Corpo

A Editorial Franciscana prossegue o seu importante labor de publicação das chamadas Fontes Franciscanas, apresentando-nos agora o seu quarto volume. Depois dos volumes dedicados aos escritos e legendas de São Francisco (volume I), de Santa Clara (volume II) e de Santo António (volume III), o volume agora publicado regressa ao Santo de Assis, com um conjunto de Crónicas sobre os inícios dos Frades Menores e alguns Documentos de fontes externas à Ordem.

Todos os Santos

Todos os Santos/ Mesmo aqueles que não conhecemos/ Que viveram no silêncio e anonimato/ Com pequenos gestos e palavras/ Mas que nos cuidam em cada dia…

Música e desporto, ou a teologia prática da ascese

A ascese como exercício espiritual e corporal, como experiência artística, como prática comunicacional ou como metáfora da casa comum. Estes serão os próximos temas da X Jornada de Teologia Prática, dedicada ao tema O Apelo do Essencial, que é promovida pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (FT/UCP)

Museus do Vaticano com cursos e iniciativas online

Os Patronos de Artes dos Museus do Vaticano lançaram uma série de iniciativas e cursos em vídeo, que incluem conferências ao vivo ou uma “hora do café” de perguntas e respostas com especialistas. O objectivo é que os participantes e apoiantes dos museus permaneçam ligados durante a pandemia.

O mosaico de todos os dramas da humanidade no filme “Francesco” que o 7MARGENS já viu

Um mosaico construído pelos dramas da humanidade, que o Papa assumiu como seus, é como se pode definir o filme-documentário Francesco, do realizador russo Evgeny Afineevsky, que foi apresentado na Festa do Cinema de Roma na passada quarta-feira. Na noite deste domingo, 25, a obra ficou disponível no Savannah Film Festival (EUA), podendo ser alugado e visto até ao próximo sábado.

O capitalismo não gosta da calma (nem da contemplação religiosa)

A editora Relógio d’Água prossegue a publicação em Portugal dos ensaios de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha. O tom direto e incisivo da sua escrita aponta, num registo realista, as múltiplas enfermidades de que padece a sociedade contemporânea, que o autor designa como sociedade pós-industrial ou sociedade da comunicação e do digital, do excesso de produção e de comunicação. A perda dos referentes rituais – análise que o autor refere como isenta de nostalgia, mas apontando o futuro – é uma dessas enfermidades, com as quais a vivência religiosa está intimamente relacionada.

“À sombra das palavras”

Faz agora quase um ano pintei no meu atelier, durante cinco semanas quase sem parar, com duas outras artistas, os poemas da Sophia escolhidos para integrarem um Memorial evocativo do centenário do seu nascimento.

Documentário sobre Ferreira d’Almeida disponível na RTP Play

O documentário abre com Carlos Fiolhais professor de Física na Universidade de Coimbra, a recordar que a Bíblia é o livro mais traduzido e divulgado de sempre – também na língua portuguesa. E que frases conhecidas como “No princípio criou Deus o céu e a terra” têm, em português, um responsável maior: João Ferreira Annes d’Almeida, o primeiro tradutor da Bíblia para português, trabalho que realizou no Oriente, para onde foi ainda jovem e onde acabaria por morrer.

Uma simples prece

Nem todos somos chamados a um grande destino/ Mas cada um de nós faz parte de um mistério maior/ Mesmo que a nossa existência pareça irrelevante/ Tu recolhes-te em cada gesto e interrogação

Quino (1932-2020) e os desenhos do nosso desassossego

A imagem mostra um anjo estendido no chão depois de ter sido agredido pela multidão que o cerca. Interrogado pela Radio Z sobre o que se tinha passado, um homem de óculos escuros, com um bastão na mão, declara: “Chegou falando de coisas esquisitas,… bondade, amor, tolerância, caridade, quando aqui o que necessitamos é segurança, casa, pão e trabalho. Mas o que nos fez a seguir suspeitar dele foi não nos recordarmos de o ter visto sequer uma vez na televisão.” Neste cartoon de Quino, assim como nas histórias protagonizadas pela sua Mafalda, a realidade apresenta-se incapaz de estar à altura dos grandes valores.

Papa assina carta apostólica inspirada em São Jerónimo e incita a um maior uso da Bíblia

Francisco assinou a nova carta apostólica “Sacrae Scripturae Affectus” (em português, “O Afeto à Sagrada Escritura”), esta quarta-feira, 30 de setembro, dia em que a Igreja celebrou o 16º centenário da morte de São Jerónimo. Durante a audiência geral, o Papa referiu várias vezes o exemplo do padroeiro dos biblistas, que “colocou a Bíblia no centro da sua vida”, e ao saudar os peregrinos de língua portuguesa deixou o apelo: “façam da Bíblia o alimento diário do diálogo com o Senhor”.

Encarnando o irmão Luc

Michael Lonsdale era, naquele final do dia, em Braga, o irmão Luc, assim dando corpo e espírito ao monge com o mesmo nome que foi assassinado na Argélia, em 1996. E é inesquecível a sua participação no filme Dos Homens e dos Deuses, que evoca a vida dos monges do mosteiro argelino de Tibhirine, sete dos quais (Bruno, Célestin, Christian, Cristophe, Michel, Paul, além de Luc) raptados e assassinados por um grupo de islamitas.

Michael Lonsdale: “Gostaria de morrer tranquilamente. Em Deus sobretudo”

Um dos mais fascinantes actores franceses, Michael Lonsdale morreu na passada segunda-feira, 21. Uns lembrar-se-ão de ele ter sido o vice-cônsul de Lahore no filme India Song, de Marguerite Duras, outros não ignorarão o facto de ele se ter empenhado em fazer a vida negra a James Bond. Mas Michael Lonsdale participou em filmes de Truffaut, Malle, Buñuel, Spielberg e outros realizadores não menos relevantes.

Um Poema sobre Deus

Nestes últimos dias, ao ler o livro de José Luís Peixoto, O Caminho Imperfeito – que descreve a sua experiência de viagens à Tailândia e a Las Vegas (Quetzal, 2017) –, emerge subitamente, saído do nada e sem quaisquer comentários do autor o poema muito belo que abaixo transcrevo, o único poema do livro (p. 106). 

Um desejo furioso de sacrifício

O primeiro mérito do último filme de André Téchiné O Adeus à Noite – que começa com a profusão e beleza de um imenso cerejal em flor rapidamente ensombrado por um eclipse – é o de nos obrigar a (re)pensar – a não deixar esquecer, apesar de aparentemente estar mais adormecido – o complicado problema que é a sedução exercida pelo jihadismo sobre muitos jovens, franceses nomeadamente.

Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo: coração e renascimento

Ramalho Ortigão e Eça de Queirós estiveram em Notre-Dame, em Paris, no dia 10 de Agosto de 1883. O escritor encontra-se já na Alemanha quando recorda aquela que considera ser “a catedral do romantismo”. Notre-Dame, afirma Ramalho Ortigão, é, para ele e para os que, como ele, são “artistas latinos, latinos pela raça, latinos pela religião, latinos pela família literária”, “a igreja paroquial, a igreja da grande freguesia do espírito a que pertencemos”.

Pontifícia Academia para a Vida criticada por publicar fotomontagem da Pietá com Jesus negro

“Uma imagem vale mais do que mil palavras”, diz a legenda da fotomontagem que a Pontifícia Academia para a Vida publicou este sábado, 12 de setembro, na sua conta de Twitter. Nela, pode ver-se a escultura Pietá, de Miguel Ângelo, segurando um Jesus de cor negra, em vez do branco original. O tweet recebeu centenas de comentários positivos, mas gerou também fortes críticas, nomeadamente da parte de sites católicos norte-americanos conhecidos pelo seu conservadorismo.

Hoje nasceu-nos uma menina (poema)

Já não esperávamos filhos, nem futuro/ mas entre nós o puro amor ainda ardia/ e assim nasceu a fonte eterna, de um deserto de um sonho e de um beijo na porta áurea.

Uma obra que fazia falta

Dois anos após a sua publicação, a exortação Amoris laetitia permanece como um dos documentos mais significativos do magistério de Papa Francisco. A “redução” da mensagem da exortação à questão sobre o acesso de católicos divorciados à comunhão eucarística (ainda que uma questão profundamente vital) contribuiu de certo modo para a criação de um ambiente de polémica em torno ao documento, distraindo o público daquele que seria o seu contributo mais fundamental.

Alegria e Misericórdia: as revoluções de Francisco

Inflexão na doutrina e mudança nas práticas pastorais são os dois temas mais polémicos associados à exortação apostólica Amoris Laetitia que o Papa Francisco publicou há quatro anos e meio. Mas os especialistas reunidos por Miguel Almeida, sj, no livro Alegria e Misericórdia – A teologia do Papa Francisco para as famílias mostram que as revoluções operadas por Francisco na exortação não se limitam àqueles dois aspetos. E estas são para a Igreja desafios tão grandes ou maiores do que aqueles.

O menino que não via o sol, mas que o tinha dentro de si

Mussa era o menino cego que não via o sol. Mas via o que não viam nenhum dos outros meninos e meninas da aldeia, nenhuma das mulheres grandes ou dos homens crescidos. O modo de Mussa ver era sentir. E foi a sentir, com uma luz que vinha do coração, que, um dia, Mussa salvou os outros meninos e meninas seus amigos. Mussa não via o sol, porque tinha o calor dentro dele.

Do prazer da leitura como exercício espiritual – as comunidades de leitores como um outro modo de ser crente? (ensaio)

Por todo o lado se constituem comunidades de leitores de literatura universal, de pessoas que encontram nos livros o motivo para a hospitalidade da alteridade. Como é sabido, a prática da leitura comunitária e pública da Torah era fundamental para o judaísmo rabínico em torno do Talmude. A chamada lectio divina (meditação orante da Palavra), praticada primordialmente nos mosteiros, assume essa linha da tradição hebraica e amplia-a como modo de ser fundamental da experiência cristã do evento originário crístico.

Brincar com a claridade e a escuridão

“Creio que o filme evoca, subtilmente, que há algo que nos transcende enquanto seres humanos. Talvez seja o hálito divino. Na Galiza, a natureza é forte, está todos os dias a dizer-nos que somos pequenos.” Estas são palavras de Olivier Laxe, o realizador galego, acerca do seu filme “O Que Arde”. Estamos em Agosto, como quase sempre – e às vezes de maneira muito dramática – já com imagens de incêndios que matam pessoas, destroem casas e floresta, deixando nas vidas e na terra cicatrizes bem fundas e difíceis de apagar.

Theodor W. Adorno contra o radicalismo

Um dos mais influentes pensadores do século XX, o alemão Theodor W. Adorno, que durante a II Guerra Mundial se tinha refugiado nos Estados Unidos da América para escapar ao nazismo, analisou numa palestra, que decorreu no dia 6 de Abril de 1967, na Universidade de Viena, os “aspectos do novo radicalismo de direita”. Publicada em Portugal no início deste ano pelas Edições 70, com tradução de Marian Toldy e Teresa Toldy, a intervenção, como recorda Volker Weiß no posfácio, reflecte sobre a ascensão, na República Federal da Alemanha, do Partido Nacional-Democrático da Alemanha (NPD), fundado em 1964.

A carne, a história e a vida: uma viagem fascinante

A tradição espiritual cristã, radicada na Boa-notícia gerada pelo Novo Testamento, permanece ainda um continente a explorar para muitos dos discípulos de Jesus. A expressão mística contém uma carga associada que não ajuda a visitar o seu espaço: associamo-la a uma elite privilegiada, a fenómenos extraordinários, a vidas desligadas dos ritmos e horários modernos.

Manuel Cargaleiro oferece painel de azulejos a paróquia de Lisboa

Foi como “escrever uma oração” ou fazer “o ramo mais bonito para Deus”. Assim definiu o pintor e ceramista Manuel Cargaleiro o seu mais recente trabalho: um painel de azulejos, que ofereceu à Paróquia de São Tomás de Aquino, em Lisboa. A cerimónia de inauguração e bênção decorreu esta segunda-feira e contou com a presença do autor, avança o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Mais de 700 músicos britânicos unidos contra o racismo

De Rita Ora a Placebo, passando por James Blunt, Leona Lewis, Lewis Capaldi, ou Little Mix, a lista de músicos, bandas, compositores, produtores, agentes e editores que assinaram uma carta aberta contra o racismo e a discriminação conta com mais de 700 nomes. A missiva foi publicada este domingo pela revista Variety e surge na sequência dos protestos Black Lives Matter e de uma polémica recente envolvendo o rapper britânico Wiley, acusado de fazer publicações antissemitas nas suas redes sociais.

Sociedades Bíblicas em risco de fechar em 88 países, incluindo Portugal

A Sociedade Bíblica, organização cristã inter-confessional sem fins lucrativos que se dedica à edição e divulgação da Bíblia, arrisca-se a ter de encerrar a sua atividade em quase metade dos 200 países e territórios em que está presente. A Sociedade Bíblica Portuguesa é uma das 88 que está em vias de fechar. A crise provocada pela covid-19 levou a uma quebra de 64% na distribuição de Bíblias logo no mês de março, e obrigou ao cancelamento dos principais projetos previstos para este ano, revela o diretor executivo da Sociedade Bíblica de Portugal (SBP), Miguel Jerónimo.

Sopas do Espírito Santo dão a volta ao mundo em novos selos de correio

Um “teatro”, um bodo e uma coroa para a circulação de âmbito nacional; foliões, um “balho” e uma pomba para a Europa; e uma bênção do bodo, as sopas e uma rosquilha de massa sovada para o resto do mundo. O culto do Paráclito, ou seja, “aquele que ajuda, conforta, anima, protege, intercede” está desde a última quinta-feira, 30 de Julho, representado numa emissão filatélica dos Correios de Portugal, dedicada às festas do “Senhor Espírito Santo”, como é habitualmente designada nos Açores a terceira pessoa da Santíssima Trindade cristã.

Um tempo suspenso. Um espaço confinado

Ao falarmos de tempo e de espaço imediatamente nos lembramos dos muitos filósofos que escreveram sobre esta temática. De facto, dos pitagóricos aos nossos dias, o espaço, o tempo e as relações que entre si estabelecem, têm dado azo à produção de textos que se tornaram clássicos para todo o estudioso de filosofia. Com a presente pandemia a vivência do tempo e do espaço impôs-se-nos como objecto de reflexão.

Da Amália à religião do Fado

Já se sabe que os cépticos acharão que a perspectiva religiosa do fado será um disparate, e os fanáticos da religião dirão o mesmo, mas por outras razões. Uns porque pretendem remeter a fé para o submundo da sociedade e outros porque temem a dessacralização da expressão do sagrado e se pensam proprietários privilegiados da fé cristã. Mas para o universo do fado nem uns nem outros contam lá muito.

Hagia Sophia, música de uma sublime respiração

“Lost Voices of Hagia Sophia” (“Vozes perdidas da Divina Sabedoria”) é um disco ideal para tempos em que nos confinamos a viver afectos e contactos de forma receosa, com uma proposta inédita: recriar digitalmente o som daquela que já foi basílica e mesquita (a partir de 1453), hoje (ainda) monumento património da humanidade e que uma decisão do actual presidente turco pretende voltar a tornar mesquita.

Ennio Morricone (1928-2020): As bandas sonoras das nossas vidas

Na hora da morte de Ennio Morricone, o grande consenso em torno da música deste compositor italiano tomou de assalto meios de comunicação, de títulos tradicionais às instantâneas redes sociais, com as referências cinéfilas a saltarem ao sabor de temas que viveram muito para além das imagens a que emprestaram uma melodia. 

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