Cultura: novas histórias e paradigmas…

| 18 Jan 20

“Torna-se necessária uma evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite os valores fundamentais” – afirma a exortação pastoral Evangelii Gaudium. Na mesma linha em que o Papa João XXIII apelava ao reconhecimento da importância dos “sinais dos tempos”, o Papa Francisco afirmou que: “É necessário chegar aonde são concebidas as novas histórias e paradigmas, alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da alma das cidades. (…) Nas grandes cidades, pode observar-se uma trama em que grupos de pessoas compartilham as mesmas formas de sonhar a vida e ilusões semelhantes, constituindo-se em novos sectores humanos, em territórios culturais, em cidades invisíveis. Na realidade, convivem variadas formas culturais, mas exercem muitas vezes práticas de segregação e violência”.

Há dias, o cardeal D. José Tolentino Mendonça afirmou no Seminário do Instituto Camões sobre Cooperação e Língua, na Fundação Calouste Gulbenkian, que a “cultura é um recurso essencial para a construção da paz. Nos momentos de escassez e de crise financeira ou de sentido, como é a que o nosso mundo de hoje vive, é nesses momentos que a cultura deve ser vista como bússola e motor de desenvolvimento. Todos vivemos na e da cultura”.

A palavra cultura, como a consideramos hoje, é relativamente recente, e surge na cultura alemã, como kultur, para significar a capacidade criadora e necessidade de protegermos e salvaguardarmos o património que herdamos das gerações anteriores a nós. Na tradição grega e na reflexão romana, encontramos duas outras palavras que preenchem o mesmo entendimento: paideia e humanitas. Em ambos os casos, referimo-nos, no entanto, mais às ideias de educação, memória, herança e criação.

O tempo presente e a compreensão da pessoa humana como centro da sociedade e da economia obrigam a valorizar a cultura. E o orador recorreu, para desenvolver o tema, aos contributos do Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013) e na encíclica Laudato Si’ (2015), para dar expressão à importância da cultura, como fator de liberdade, de dignidade humana e de enriquecimento individual, indispensável para a concretização de uma cultura de paz.

A língua é um poderoso veículo de comunicação, devendo ser um elemento crucial de criação cultural, de diálogo e de intercâmbio nos domínios educativo e científico. E o certo é que nos tempos atuais nos deparamos não apenas com os efeitos da crise ditada pela destruição do meio ambiente, pelo aquecimento global, mas também pelas ameaças de destruição do património histórico. Como afirma o Papa na referida encíclica: “A par do património natural, encontra-se igualmente ameaçado um património histórico, artístico e cultural. Faz parte da identidade comum de um lugar, servindo de base para construir uma cidade habitável. Não se trata de destruir e criar novas cidades hipoteticamente mais ecológicas, onde nem sempre resulta desejável viver. É preciso integrar a história, a cultura e a arquitetura dum lugar, salvaguardando a sua identidade original. Por isso, a ecologia envolve também o cuidado das riquezas culturais da humanidade, no seu sentido mais amplo”.

O Papa Francisco pede, pois, que se preste atenção às culturas locais, mais diretamente, “quando se analisam questões relacionadas com o meio ambiente, fazendo dialogar a linguagem técnico-científica com a linguagem popular. É a cultura – entendida não só como constituída pelos monumentos do passado, mas especialmente no seu sentido vivo, dinâmico e participativo – que não se pode excluir na hora de repensar a relação do ser humano com o meio ambiente” (LS, 143). Deste modo, o cardeal diretor do Arquivo Apostólico do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Apostólica Vaticana, pôs a tónica na valorização da história, da cultura e da arquitetura dos lugares, com salvaguarda da sua identidade, encarada como “beleza que nos pertence”, aberta e capaz de se enriquecer no diálogo entre pessoas e culturas.

A perspetiva ecológica exige, pois, a consideração das riquezas culturais da humanidade, no seu sentido mais amplo. Património cultural é material e imaterial, são monumentos e tradições, mas também a relação com a natureza e a preservação da paisagem – do mesmo modo que a inovação digital e a integração da criação contemporânea. E a lembrança do que o Papa Francisco afirmou na exortação pastoral de 2013 merece assim referência especial.

A nossa relação com a cultura obriga à necessidade da compreensão da gratuitidade, da partilha, em lugar de uma cega atitude consumista, esquecida da justiça e da solidariedade. “A sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora. Não se trata de menos vida, nem vida de baixa intensidade; é precisamente o contrário. Com efeito, as pessoas que saboreiam mais e vivem melhor cada momento são aquelas que deixam de debicar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coisa, aprendem a familiarizar com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas” (EG, 223). E importa ainda lembrar que “a cidade dá origem a uma espécie de ambivalência permanente, porque, ao mesmo tempo que oferece aos seus habitantes infinitas possibilidades, interpõe também numerosas dificuldades ao pleno desenvolvimento da vida de muitos. Esta contradição provoca sofrimentos lancinantes. Em muitas partes do mundo, as cidades são cenário de protestos em massa, onde milhares de habitantes reclamam liberdade, participação, justiça e várias reivindicações que, se não forem adequadamente interpretadas, nem pela força poderão ser silenciadas” (EG,74).

Eis como só uma cultura respeitadora da liberdade e da responsabilidade, da memória e do conhecimento poderá encontrar caminhos de autonomia, emancipação, dignidade e paz.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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