Cultura, valores, espiritualidade
Espiritualidade em tempo de crise (IV)
- O espaço onde o sentido da vida se exprime é no âmbito da Cultura. Há muitas definições de cultura. Aqui entendemo-la como a formulação do âmago de todas as nossas atividades, pensamentos e desejos, os critérios nucleares de construção das nossas vidas individuais e coletivas. É o lugar onde se nos mostra onde queremos chegar. É também a nossa utopia de vida, aquilo que a orienta. É o que o/as antropólogo/as chamam o espaço do simbólico. O simbólico é tudo aquilo que dá sentido (orientação) às nossas vidas.
- É assim o lugar onde os valores são manifestos. Os valores são também os ideais de uma vida pessoal/comunitária/coletiva. Valores como a Verdade, a Justiça, a Paz, a Sabedoria, o Amor e a Compaixão, entre outros mais, constroem as vidas humanas. Porém, onde há valores há também os seus respetivos contra-valores. Contra-valores são a violência, a corrupção, a ignorância, o ego-centrismo e, infelizmente, um longo etc…
- E é aqui que entra a Espiritualidade. Porque podemos diferenciar entre a cultura utópicaou ideal, e acultura real, a que realmente é praticada pelos membros de qualquer sociedade. Podemos encontrar assim, em qualquer cultura, tanto valores como contra-valores (ou anti-valores). A habilidade vital consiste em recolher o que de melhor há nuns determinados valores da sociedade pesquisada e deixar de lado os seus contra-valores. Assim, as nossas sociedades de capitalismo neoliberal globalizado possuem uma série de valores positivos, mas, ao mesmo tempo, criaram toda uma espécie de antídotos negativos no seu pensar-sentir-agir.
- Por exemplo, identificaria os seguintes valores presentes na nossa sociedade planetária (frente a épocas passadas):
+ maior respeito pela liberdade de opinião alheia (mas pode degenerar em relativismo)
+ mais pluralismo
+ maior potencialidade para informar-se
+ maior difusão de arte, ciência, religião…
+ maior informação política
+ maior flexibilidade de respostas culturais a problemas sociais
+ maior consciência de que vivemos num mundo uno
+ maior extensão da tecnologia
+ maior capacidade para viajar e conhecer outras subculturas planetárias
+ maior possibilidade da velocidade das respostas sociais a problemas que surgem
+ etc.
Porém, podemos identificar também contra-valores (alguns deles):
+ maior possibilidade de dominação através da manipulação de massas e dos media
+ maior possibilidade de dualismo nos processos sociais, mediante “justificações tecnicamente adequadas” (ainda que não o sejam eticamente) das enormes diferenças entre ricos e pobres, a nível planetário e local
+ maior avanço da “propagandização” geral (de partidos políticos, instituições públicas, Estados, mundo religioso…)
+ ilegalização e controlo das migrações humanas em função de interesses nacionalistas (“nós e eles”)
+ possibilidade de extensão de argumentos racistas, xenófobos e machistas em grande escala
+ tecnologia dominadora e não humanista (versus ecologicamente sustentável)
+ tendência para impor um pensamento único
+ fake newsde todo o tipo
+ justificação da precarização do trabalho e da exclusão do/as outro/as que não formam parte do nosso grupo
+ predomínio do que Max Weber poderia chamar a “racionalidade instrumental” (dos meios) frente à “racionalidade substantiva” (dos fins: valores)
+ etc.
- Como entraria aqui a Espiritualidade?
De uma maneira esquemática, poderia entrar das seguintes maneiras:
+ dado que a Espiritualidade persegue a superação do ego, esta favoreceria uma posição planetária frente a uma egocêntrica (individual, comunitária ou coletiva)
+ o não-ego ajudaria a perseguir valores (solidariedade, opção pelo/as pobres e oprimido/as) e não os contra-valores (ou superá-los, a partir da própria vida): império do poder, dinheiro… sobre o ser humano
+ fomentando o Ser mais do que o Fazer/Ter, estaria a Humanidade mais aberta à escuta do/a Outro/a, que também é o Si Próprio
+ também mais aberta ao resto da Natureza (“nós somos Natureza!”), ao silêncio contemplativo (portanto à paz e à justiça, e não à guerra e à conquista)
+ mais aberta ao diálogo profundo e verdadeiro, aceitando as diferenças enriquecedoras
+ mais aberta à prática da não-violência ativa
+ mais preparada para o equilíbrio dos diferentes géneros
+ mais atenta às questões atuais do “adultismo”
+ mais aberta a cultivar a ciência e a arte não para próprio lucro pessoal (ainda que tenha o enriquecimento pessoal de quem as pratica) mas para a de todo o planeta
+ mais aberta a encontrar o que é comum nas diferentes religiões e a valorizar o respeito pelos não-crentes e os seus argumentos
+ etc.
Eis aqui somente uns apontamentos esquemáticos, que talvez noutro momento possamos aprofundar.
Rui Manuel Grácio das Neves é frade dominicano, “Bodhisattva” da “Sangha” Zen de Lisboa e trabalha presentemente sobre a Espiritualidade Holística
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