cummings e a responsabilidade do humano

| 25 Fev 19 | Cultura e artes, Literatura e Poesia, Últimas

Dois sonetos de e.e. cummings (1894-1962), ambos publicados em Xaipe(1950), dão-nos duas possibilidades de pensarmos a responsabilidade humana na terra, para a qual o Papa Francisco apela na sua carta encíclica Laudato Si’ – sobre o cuidado da casa comum, de 2015. Ambos os poemas surgem numa pequena antologia bilingue organizada por Jorge Fazenda Lourenço (Assírio & Alvim, 1991; col. Gato Maltês), e focam dois modos de ver esta mesma responsabilidade.

O primeiro poema – i thank You God for most this amazing/ day; obrigado Meu Deus por mais este espantoso / dia…– constitui um convite a olharmos o “[…] alegre / grande evento ilimitavelmente terra” como um acontecimento inédito e novo, experimentado a cada dia: “como poderia saboreando tocando ouvindo vendo / respirando qualquer […] ser simplesmente humano / duvidar inimaginável de Ti?”. Se, por um lado, o enquadramento religioso em que o poema se inscreve poderá levar-nos a reduzi-lo a uma oração de Graças à doação originária de todas as coisas por Deus, prefiro pensar de outro modo e lê-lo como um elogio ao poder de decisão e criatividade humanas para ver a potência de ser e de plenitude que todas as coisas guardam em si, e que cabe ao homem saber descobrir. cummings, de resto, termina assim este poema: “(agora os ouvidos dos meus ouvidos despertam e / agora os olhos dos meus olhos estão abertos)”.

O segundo poema –  when serpents bargain for the right to squirm; quando as serpentes regatearem o direito a colear– percorre os termos humanos da relação desigual entre opressor e oprimido (“fizer greve”, “estiverem seguros contra”, “não tiverem aprovado”, “pedir licença”, “acusarem”, ”denunciar”…), aplicando-os ao mundo não-humano e oferecendo-nos a hipótese da “incrível / humanidade inanimal” (unanimal), que o dístico final, na sua força resolutiva típica do soneto, afirma ainda não estar cumprida. Mas, ao encenar esta hipotética luta de poder entre os seres da natureza, o poema convida-nos a equacionar a possibilidade de olharmos de modo completamente novo não simplesmente as relações inter-humanas, mas sobretudo a relação do humano com todas as formas existentes no mundo, ou do falante com o vivente, digamos. Convida-nos a despirmo-nos do instrumentário verbal que usamos de forma tão destra para ditar, excluir, capturar e destinar, de forma a encontrarmos, dotados que somos do poder de agir eticamente, os termos da articulação, do contrato, do compromisso, do elo.

A poesia tem o dom de tornar leve a grave missão humana, para a qual o Papa Francisco apela na sua encíclica, quando descreve o que apelida de “conversão ecológica” (#216-#221), a partir da instauração de um paradigma que fomente a “relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza” (#67).

Cristiana Vasconcelos Rodrigues é professora universitária e investigadora em Estudos Germanísticos e Comparados

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