D. José Ornelas em entrevista, sobre o papel das mulheres: “O maior problema na Igreja é o machismo”

| 28 Nov 20

Para conseguir promover o papel da mulher na Igreja o maior problema da Igreja Católica é o machismo, mas, com as actuais normas, já nada impede as mulheres de estarem em lugares de destaque no interior da comunidade eclesial, diz o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas, em entrevista ao 7MARGENS, feita em parceria com o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica.

Depois de, na primeira parte, ter falado das questões que a pandemia e a emergência climática colocam à Igreja, o bispo Ornelas aborda aqui a questão dos abusos sexuais, anunciando a realização de uma acção de formação para as pessoas que integram as comissões de proteção de menores criadas nas várias dioceses.

Também a Jornada Mundial da Juventude deve ser uma ocasião para a Igreja Católica se organizar, em Portugal, no sentido de “pôr os jovens no centro: dizemos que queremos ter os jovens na Igreja, mas quando [eles] chegam que podem fazer se todos os lugares estão ocupados?”, pergunta. “Têm de ser os jovens a falar, a organizarem, a gerir” a JMJ, diz.

D. José Ornelas: Conferência Episcopal organizará uma formação, em Janeiro, para as pessoas que integram as comissões de proteção de menores. 

 

7M – A CEP aprovou as linhas orientadoras sobre a proteção de menores. O que vai mudar neste campo?

D.J.O. – Trata-se de atualizar as normas de 2012, que continuam a ser a base orientadora. Entre outras indicações reforça-se, por exemplo, a obrigação de colaboração com as autoridades civis. Vamos ter uma formação, em Janeiro, para as pessoas que integram as comissões que já foram criadas em todas as dioceses.

7M – O valor da denúncia anónima, que o Papa reconheceu, será adotado?

D.J.O. – Mas sempre o foi!… O que o Papa sublinha é a importância de não desprezar a denúncia anónima. Mas também é verdade que pouco posso fazer com uma denúncia desse tipo. Devo, porém, ficar alerta, ficar vigilante. E, em alguns casos, pedir às autoridades civis que investiguem.

Para as comissões diocesanas de proteção de menores, o mais importante é a prevenção e a formação. Temos de ser uma sociedade respeitadora, particularmente das pessoas mais vulneráveis. Seja no início da sua vida, seja porque têm uma deficiência, porque por alguma razão precisam de uma atenção especial ou no fim da vida, quando ficam dependentes de outros.

Essas comissões são muito importantes também para cuidarem e ajudarem – seja as vítimas, seja os predadores, porque se não cuidarmos destes, podem ser autênticas bombas-relógio a andarem por aí…

7M – Como se sente perante as conclusões do relatório sobre o cardeal McCarrick, os abusos sexuais e o seu encobrimento?

D.J.O. – Muito triste. É lamentável!

7M – Leu o relatório?

D.J.O. – Li o que veio a público. Não sei os detalhes todos. Mas o que li basta-me para sublinhar que, em primeiro lugar, os factos em si são lamentáveis, é o “escândalo dos escândalos”. Gostaria de dizer que nunca mais vão acontecer coisas daquelas, mas ninguém está em condições de o fazer. O que devemos garantir é que não compactuaremos com situações destas, caso alguma vez se venham a repetir. Não pode ser!

 

“É preciso saber o que João Paulo II conhecia sobre McCarrick”

7M – A imagem de João Paulo II sai muito beliscada…

D.J.O. – É preciso saber o que verdadeiramente lhe chegou. Nesta matéria João Paulo II era muito assertivo. E agiu em vários outros casos. Mas não há dúvida de que havia uma certa cultura, não só na Igreja, que não estava desperta para denunciar e punir estas situações. Ainda hoje, até nas famílias as pessoas sofrem e hesitam quando têm de as denunciar.

 

Creio que é visível que a Igreja tem tomado este assunto bem a sério e tem feito o seu trabalho. Isto não pode continuar. Como digo, não podemos assegurar que nunca mais se repitam. Mas temos de estar preparados para, caso tenhamos indícios de que acontecem, os enfrentar de modo a investigar tudo real e cabalmente e assumir as responsabilidades. Todo o esforço que se tem feito na Igreja nestes últimos anos é para isto. O que aconteceu com McCarrick foi em contramão deste caminho. Que tenha acontecido é sumamente deplorável. Não pode ser! Temos de estar atentos aos abusos sexuais, mas também à violência doméstica e a todas as situações em que a dignidade e a vida de uma pessoa é posta em causa.

7M – Em outubro a Conferência Episcopal manifestou a sua vontade de tornar públicas as contas do Santuário de Fátima. Quando serão publicadas?

D.J.O. – A apresentação de contas aos fiéis e ao público em geral é uma prática disseminada. Lembro-me, desde pequeno, do pároco da minha paróquia ler as contas anuais na igreja. Mais do que apenas publicitar é preciso instituir conselhos económicos em cada comunidade e auditores que deem o seu parecer e certifiquem as contas. Em cada diocese, o bispo não aprova as contas sem que estas recolham pareceres e sejam convalidadas por auditores qualificados.

Em relação a Fátima e às contas do Santuário precisamos ainda de clarificar algumas situações quanto à incidência fiscal sobre algumas receitas e donativos. Estamos a formar uma comissão para dialogar com o Governo. Espero que dê resultados em breve, pois não está em causa apenas o Santuário, mas outras instituições eclesiais.

7M – “Não se pode pretender que o problema não existe” – disse ao Público a propósito do tema da participação das mulheres na Igreja. São Paulo dá conta de comunidades lideradas por mulheres. Até que ponto a Igreja retira todas as consequências desse facto?

D.J.O. – Paulo fala de uma mulher que o acompanhava e ele era criticado por isso. Os Evangelhos falam das mulheres que acompanhavam Jesus. E não só: quando Jesus chegou à cruz, os homens todos deram à sola; quem ficou junto dele foram as mulheres. E são elas por isso, também, que são capazes de dar a notícia da ressurreição, as primeiras a fazê-lo. Nos Atos dos Apóstolos fala-se de várias mulheres que têm um papel importante dentro da Igreja.

Paulo também é criticado porque parece colocar a mulher na sujeição do homem, escreve comparando a relação de Jesus com a Igreja à da mulher submissa ao homem, etc… isso é a sociedade do seu tempo: o pater famílias é o pater, não é o mater familias! E é assim no direito romano e isto marca toda a civilização ocidental.

Este é um problema cultural. Mas na Igreja não é simplesmente a questão do ministério, da ordenação de mulheres, que se coloca. Esse é o tema que é complicado por causa da tradição eclesial, mas não é este o maior problema. O maior problema na Igreja é o machismo que em muitos casos existe.

 

“Promover o papel da mulher, para termos uma Igreja diferente”

Nada realidade, nada impede as mulheres, à luz das leis da Igreja, de estarem em lugares de destaque. Fizemos convergir tudo para o ministério presbiteral e episcopal onde tudo vem afunilar-se. É verdade que é o sacerdote, o bispo, quem preside à comunhão, quem realiza a comunhão. Mas já São Paulo, quando fala dos carismas põe o carisma de governar lá para o meio. Primeiro fala do carisma da palavra, da comunhão, do cuidado e depois, mais para baixo, refere o governar. Quando o Papa fala do papel da mulher na Igreja, pergunta: porque é que estas mulheres são vistas só como colaboradoras de outros? Temos de promover o papel da mulher na Igreja, para termos uma Igreja diferente.

Precisamos de uma Igreja que seja verdadeiramente composta de homens e mulheres. Em que todos e todas possam dar à Igreja a sua capacidade de ser e de ser responsável. A Igreja não pode ser simplesmente uma sociedade masculina, tem de contar com todos na sua forma de se organizar. Mas isso já é verdade hoje. Na realidade, são mulheres que estão à frente da maior parte dos serviços da comunidade, dos mais importantes para a vida da Igreja – a transmissão da fé, a organização da vida comunitária e da caridade.

7M – Mas a exclusão das mulheres do sacramento da ordem e o machismo dentro da Igreja são duas questões intimamente ligadas.

D.J.O. – Sim. É por isso que digo: a questão antes do mais passa por dimensionar dentro do ministério a ação das mulheres. Não é comum na Europa, mas noutros lugares há muitas comunidades que são animadas por mulheres e em que o missionário passa duas ou três vezes por ano.

 

“A minha geração tem dificuldade em passar a bola aos mais novos”

7M – Portugal vai receber a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em 2023. Como encara essa iniciativa?

D.J.O. – Eu vejo três aspetos principais na JMJ. São uma ocasião para os nossos jovens crentes se abrirem à realidade de outros jovens de todo o mundo. É uma ocasião única de encontro. É também uma ocasião para acolher outros, organizar o acolhimento, saber acolher.

Não vai ser fácil organizar tudo isto. É claro que os números serão menores do que se pensava, mas vai ser preciso organizar bem as JMJ. Finalmente, elas vão ser uma ocasião para a nossa Igreja se organizar e pôr os jovens no centro. Dizemos que queremos ter os jovens na Igreja, mas quando chegam que podem fazer se todos os lugares estão ocupados?

A minha geração criou algo de novo. Nem todos fomos “capitães de Abril”, mas criámos um modo novo. A revolução foi feita por jovens oficiais. É uma geração que desde cedo teve oportunidades, as utilizou e fez coisas bonitas e outras que não o foram tanto. Mas agora estamos com dificuldade de “passar a bola” a uma geração que não tem as mesmas oportunidades que nós tivemos. Nós sabíamos que, se estudássemos e trabalhássemos, tínhamos futuro. Eles não têm isso tão assegurado. As nossas comunidades ainda repousam muito sobre os velhos e é preciso pôr os nossos jovens nos lugares onde se tomam as decisões. É preciso criar espaço para que os jovens participem ativamente na vida das comunidades.

7M – E a JMJ não vai ser uma ocasião de a Igreja se iludir, achando que continua a ser capaz de falar para os jovens?

D.J.O. – Na JMJ têm de ser os jovens a falar, a organizarem, a gerir. Tem de ser uma oportunidade para eles estarem na linha da frente.

 

7M – Como olha pessoalmente para o Papa Francisco?

D.J.O. – Ele foi para a Igreja uma lufada de ar fresco. Eu ponho-o na sequência dos últimos papas, que conheci. Cada um a seu tempo, foram homens providenciais. Mas ele é o primeiro que surge fora da área da Europa e Mediterrâneo. É por isso que o seu discurso é diferente, de uma Igreja missionária. É uma linguagem nova, estranha, que para alguns cria problema. Mas isso faz-nos bem, a nós europeus: descentra-nos. Temos ideia de que somos o centro do mundo, não somos. A Igreja tem de respirar com outros pulmões, com os pulmões do mundo inteiro.

O Papa Francisco vem do Novo Mundo e por isso fala tanto da Igreja que tem de sair para as margens, procurar as pessoas. E tem uma linguagem que não é um discurso teológico difícil, mas uma linguagem simples, com verdades simples e profundas que ficam no coração e na mente da gente. O Papa acredita que a Igreja não é feita de importâncias e sumidades que saem fora da vida comum. Mas que, ao contrário, é no comum das gentes que nós decidimos a felicidade, o futuro. É numa Igreja assim – capaz de gestos, capaz de viver a simplicidade da vida e também o seu mistério e grandeza, criando uma humanidade fraterna, capaz de ter gestos de paz, de aceitação do outro, de ir ao encontro de quem precisa – que o Papa acredita. E eu também.

 

Câmara: Rui Martins
Edição de Imagem: Francisco Marujo

 

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