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Entre Margens

D. Manuel Martins precursor da sinodalidade

| 24/10/2025

 

Assinalam-se a 26 de outubro a criação da Diocese de Setúbal e da eleição do seu 1.º Bispo, D. Manuel da Silva Martins.  A 16 de julho de 1975, S. Paulo VI tinha criado esta Diocese, conjuntamente, com a de Santarém e nomeado os respetivos bispos. Para Santarém foi enviado D. António Francisco Marques. A D. António conheci-o como presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Sociocaritativa Tive a jubilosa graça de participar em encontros presididos por ele. Era franciscano. Tinha um espírito sempre muito aberto às propostas transformadoras para uma melhor organização da ação social da Igreja. Na senda de S. Francisco de Assis, destacou-se como um homem simples, muito afável no trato. Considero-o um santo!

Parece-me justa esta referência ao Bispo de Santarém, como a D. João Alves, Vigário Episcopal da Região de Setúbal que, nessa missão, foi o grande obreiro das bases necessárias para ser possível a criação da Diocese. Parecia uma pessoa distante, mas quando se contactava com ele via-se, de imediato, que era de trato fácil e com um humor muito fino. Foi um padre muito à frente do seu tempo. As suas homílias eram, por vezes, vigiadas pela PIDE, conforme documentos que se encontram na Torre do Tombo. Era, também, um grande entusiasta do Vaticano II. A primeira abordagem que fiz, assim como os restantes membros da equipa regional da Pastoral Juvenil, foi graças aos seus ensinamentos. Todos estávamos mais que convencidos que seria ele o 1.º Bispo de Setúbal. Foi grande a desilusão, quando se soube que seria um padre vindo do Porto. Três meses, mais tarde, veio a ser Bispo-coadjutor de Coimbra. Teve cargos de grande responsabilidade na Conferência Episcopal Portuguesa. Há um legado, também, por conhecer.

Pelas responsabilidades que tinha na pastoral juvenil e, depois, na disciplina de Religião e Moral Católica nas escolas públicas, comecei a frequentar os novos serviços diocesanos, criados e organizados por D. Manuel. Não foi fácil esta tarefa, porque eram escassos os espaços disponíveis e os recursos financeiros. Teve a grande a ajuda de um outro padre, que trouxe da Diocese do Porto, o padre Joaquim Sampaio. Um homem de pensamento livre, de uma simplicidade atraente e de uma dedicação inigualável. Merecia um reconhecimento que ficou por fazer. Muitas vezes o ajudei e substituí na Cúria Diocesana.

“Tinha muitas reticências quanto ao bispo escolhido para uma região tão difícil económica, social, cultural e religiosamente. Esta minha apreensão acentuou-se quando o Bispo decidiu, em 1976, criar a Assembleia Diocesana.” Foto: D. Manuel Martins, primeiro bispo de Setúbal (1975-1998). © Luís Filipe Santos/cedida pelo autor

Porém, a minha proximidade com D. Manuel deu-se um pouco mais tarde. Tinha muitas reticências quanto ao bispo escolhido para uma região tão difícil económica, social, cultural e religiosamente. Esta minha apreensão acentuou-se quando o Bispo decidiu, em 1976, criar a Assembleia Diocesana. Eu fazia parte, como membro da minha paróquia. As primeiras Assembleias foram para situar o Bispo na realidade diocesana. Todos os padres, 6 representantes por paróquia, 3 por organização pessoal ou movimento, constituíam a Assembleia. Por esta, foi eleita uma comissão permanente que tinha o dever de preparar as ordens de trabalho, de fazer as convocatórias, dirigir as Assembleias e elaborar a síntese do que mais relevante se passava naqueles magnos encontros. Antes de cada encontro, as delegações reuniam com os membros das comunidades que representavam, para responder às questões preparadas pela Comissão Permanente. O Bispo presidia às Assembleias Diocesanas. Falava no início e na homília da missa com a qual se concluíam os trabalhos. Todos os presentes eram livres de exporem as suas ideias. Algumas eram tão impetuosas que roçavam a agressividade. Confesso que foi muito difícil adaptar-me a esta forma de participação eclesial. Cheguei a abandonar algumas reuniões por as julgar mais do tipo de assembleias laborais reivindicativas e de pouca consideração pela pessoa do Bispo.  A Assembleia reunia duas vezes por ano. Pelo meio, havia reuniões do Conselho Pastoral Diocesano. A estratégia de D. Manuel era a mesma: escutar, escutar… O que recolhia de opiniões nestes órgãos pastorais levava-as para os Conselho Presbiteral e de Vigários Forâneos que reuniam várias vezes por ano.  Nesses anos, existiam leigos, muito militantes que lidavam com os clérigos numa fraterna cooperação caminhando no mesmo sentido sem se notar qualquer laivo de clericalismo. Esta era a regra, o contrário, a exceção, pouco se notava. Eu próprio levei algum tempo a converter-me a este novo estilo de pastoral. Soube, mais tarde, que recebeu muitas críticas e foi alvo de muitas intrigas por se ter arrojado a esta diferente forma pastoral. A propósito da Assembleia Diocesana, 10 anos mais tarde, D. Manuel disse: «É um órgão muito importante, onde se encontra representada toda a Igreja Diocesana. (…) a meu ver, tem sobretudo contribuído para criar e desenvolver numa diocese nova, uma extraordinária consciência de unidade e comunhão.»[1].

A Assembleia Diocesana, foi uma profética antecipação… Quem diria que, passados 50 anos, seria o Papa Francisco, impulsionado pelo Espírito Santo, a deixar esta herança onde se alicerça uma nova prática pastoral de uma Igreja Sinodal, em que todos caminham juntos e lado a lado.

É preciso, citando de novo D. Manuel, que cada Igreja diocesana cresça com «uma consciência extraordinária de unidade e comunhão». Enquanto isso não acontecer, podem-se fazer “Assembleias Eclesiais”, mas levará muito tempo até começarmos a caminhar como verdadeira Igreja de Jesus Cristo.

 

[1] Cf. Manuel MARTINS, Cantar a vida, Prior Velho, Editora Paulinas, 2015, 273.

 

Eugénio Fonseca é presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado.

 

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