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Da Amália à religião do Fado

| 15/07/2020

Da Amália à religião do Fado

by | 15 Jul 20 | Cultura e artes, Entre Margens, Sociedade, Últimas

Fado rima com Amália, mas nem sempre com religião, pelo menos aparentemente. Mas será mesmo assim?

 

O país celebra o centenário do nascimento de Amália e faz bem. Talvez ela tenha sido a nossa única verdadeira estrela pop de dimensão global, desde quando ainda vivíamos num regime fechado ao mundo e sem qualquer relevância internacional.

Alguns adiantam eventuais influências árabes, mas a verdade é que ninguém sabe ao certo de onde veio este estilo de música e esta forma de cantar fadista. O certo é que o ADN da que era chamada em tempos a “canção nacional” está ligado ao ambiente da noite, da boémia, do álcool e até das mulheres de má fama. A história da Severa é marcante no território dos amores proibidos e do desgosto que constituem a alma dorida do fado clássico e que é exorcizada noite dentro, por entre os vapores do álcool, em recantos meio escondidos e pouco iluminados da velha Lisboa, onde abunda a temática da tristeza, do abandono, da má sorte na vida e sobretudo do destino marcado.

Apesar das aparentes dificuldades do estilo de vida colado à imagem de marca original do Fado, o recato do religioso, a palavra Deus e outras do universo católico não podem ser dissociadas da sua cultura. Maria, os santos e o próprio Deus povoam o discurso fadista, sobretudo numa dimensão da religiosidade popular, beneficiado ainda pela beleza da dialéctica musical entre a voz e o trinado da guitarra portuguesa.

Poderá então existir outro olhar sobre a cultura do Fado, que seja compaginável com a religião?

Há quem veja no Fado uma vertente de confissão, num sentido quase religioso. Pelo menos é que pensa João Maria Bragança, que elaborou uma dissertação de mestrado em Teoria da Literatura em 2005, quando se referiu a “um período durante o qual o fado mais se aproximou de ser confissão, tal como a conhecemos no sentido da Religião.” O autor, orientado por Miguel Tamen (UL), procurava então definir, numa janela temporal entre 1927 e 1962, “as condições em que o fado é confissão e as condições em que é apenas um género musical”, mas não deixa de referir que esse é o período em que “o fado, pela sua dimensão de partilha e de expressão de intimidade, mais se aproximou de ser prece, pranto ou pregão.”

Também Cátia Tuna acabou por desenvolver a sua tese de doutoramento em Teologia – influenciada pelo seu orientador António Matos Ferreira – no Fado: “Não sei se canto, se rezo – ambivalências culturais e religiosas do fado entre os anos 1926 – 1945”, onde a vertente da oração se configura, a ponto de contaminar a cultura pop nos anos sessenta, quando António Calvário levou uma canção ao Festival da Eurovisão com o título Oração. Essa canção vinha exactamente na mesma linha da estrutura do fado tradicional em que o cantor fala a Deus dos seus desencontros e desgostos de amor em tom de confissão: “Senhor / A teus pés eu confesso”.

Cátia Tuna procurou demonstrar tanto uma certa religiosidade presente no universo temático fadista, como a interpretação que o fado faz de si próprio enquanto oração. Até para se legitimar cultural e socialmente, o fado “começou a dizer-se como oração e também performativamente começou a elaborar-se como oração, até da parte cénica, a impor-se como uma música válida para aceder ao sagrado”.

Numa cultura religiosa pontuada pelas rezas católicas tradicionais, de carácter fixo e pré-aprendidas, o fado abre novos caminhos ao possibilitar uma espécie de orações cantadas, mas espontâneas, em que os letristas crentes abrem o seu coração diante de Deus e a ele recorrem em estado de ansiedade, angústia ou desgosto, sendo depois interpretadas com o inconfundível sentimento e expressão fadista. Trata-se duma oração profana, atendendo ao espaço em que é dita, mas sagrada no que toca ao sentido e aos signos do discurso poético.

Já Cuca Roseta assume-se claramente como pessoa religiosa neste recente trabalho Luz, reconhecendo em si mesma uma dimensão espiritual desde criança: “Gosto da solidão, do contacto com o divino, de rezar, meditar.” Confessa até que foi aconselhada por pessoas próximas a não revelar tanto este seu lado espiritual, como se fosse um risco assumir-se como uma mulher de fé nesta sociedade tão desorientada e carente de valores.

Já se sabe que os cépticos acharão que a perspectiva religiosa do fado será um disparate, e os fanáticos da religião dirão o mesmo, mas por outras razões. Uns porque pretendem remeter a fé para o submundo da sociedade e outros porque temem a dessacralização da expressão do sagrado e se pensam proprietários privilegiados da fé cristã. Mas para o universo do fado nem uns nem outros contam lá muito.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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