Posfácio ao livro de Frederico Dinis

Da anamnesis à poíesis

| 2 Jul 2024

O 7MARGENS publica o Posfácio da autoria do Pe Joaquim Félix ao livro de Frederico Dinis, “A performatividade da memória em lugares religiosos”, editado pela UCP Editora. Quase em tempo de férias, muitas pessoas que visitam edifícios religiosos podem lucrar muito com a leitura deste livro. Como é dito na sua sinopse, “Partindo da confluência entre o som e a imagem este livro inclui uma ampla base de investigação-criação que explora lugares religiosos, na sua relação com representações da memória, interrogando o lugar estético dos estudos de religião e da performance audiovisual na atualidade enquanto instrumentos essenciais para descobrir novas formas de compreender o nosso mundo e a cultura contemporânea.” Finalmente dizer que o livro resulta de um Pós-doutoramento realizado no CITER, da Faculdade de Teologia da UCP e do qual o Prof. João Duque (autor do Prefácio) e próprio Joaquim Félix  autor do texto que se segue. Recorde-se que em julho de 2023 o 7MARGENS deu notícia da exposição “relentalizar” sobre o tema.

Perdemos o sentido da inatividade, que não é uma incapacidade, uma negação, uma simples ausência de atividade, mas que representa um património autónomo. A inatividade tem uma lógica própria, uma linguagem própria, uma magnificência própria, e uma magia própria. Não é uma fraqueza, uma deficiência, mas uma intensidade, que na nossa sociedade ativa e de desempenho não é salvaguardada nem apreciada. Não temos acesso ao reino nem à riqueza da inatividade. Esta é uma forma esplendorosa da existência humana, que hoje empalideceu e se converteu numa forma vazia da atividade. [Han, 2023: 11]

 

No triângulo da arquitetura religiosa

A amplitude semântica dos lugares construídos, sobretudo daqueles de matriz religiosa, ultrapassa a medida das escalas de sentido racional; sem inscrição, portanto, no redutor conceptualismo. O mesmo se poderá dizer das obras de arte, de quaisquer expressões, quando autênticas. Existe, pois, uma transbordância, entendida como polissemia, que, sem se negar à possibilidade hermenêutica, se inscreve aquém e além da narratividade do real. Por esse mistério passa a arquitetura, quando os edifícios são gerados como ‘lugares de excelência’.

Para desenvolver os projetos site-specific, Frederico Dinis selecionou lugares religiosos, três ao todo, que foram já objeto de amplo reconhecimento público, nacional e internacional. Dois deles, a capela Árvore da Vida e a Capela da Imaculada, em Braga, foram distinguidos, pela plataforma ArchDaily, na categoria do religioso, com a distinção de ‘edifício do ano com a melhor arquitetura’, em 2011 e 2019, respetivamente. E a igreja de S. Martinho de Cedofeita, situada no Porto, tem sido francamente apreciada. Criados ou intervencionados, os três edifícios são obra do atelier Cerejeira Fontes Arquitetos. Com longa experiência e prática de arquitetura reconhecida, os arquitetos beneficiaram da competente colaboração multidisciplinar, cujos debates críticos e criação de obras de arte em muito beneficiaram o resultado final, enquanto obras de arte total.

Alguns dos valores arquitetónicos promovidos, edificados e capazes de se desenvolverem, encontram-se em sintonia com os objetivos que Frederico Dinis se propôs trabalhar, através de práticas artísticas, nos três espaços religiosos. Desde logo, o da serenidade. A propósito deste valor, Asbjørn Andresen, na introdução que escreveu para a dedicação da capela da Imaculada, salienta a reflexão, que ancora numa metáfora de Juhanni Pallasmaa: «A serenidade é uma das dimensões de qualquer espaço que tenha um programa religiosos ou litúrgico, tal como o é a luz. A serenidade é a consciência de que o espaço pertence à arquitetura e não é a ausência de som; consiste no tipo de presença que encontramos numa sala de concertos quando o maestro levanta os braços e suscita a concentração da orquestra e da assistência» (Andresen, 2015: 7).

[Cartaz dos projetos site-specific (Capela Árvore da Vida, Capela da Imaculada, Igreja de S. Martinho de Cedofeita) exibidos no Seminário Conciliar de Braga. © Frederico Dinis]

 

Audição profunda e inexplorabilidades

Relendo o texto Frederico Dinis, nomeadamente na apresentação da metodologia adotada, para ‘redescobrir’ os três lugares, parece-me que ele se inscreve numa atitude de procura, dentro dos lugares, naquela velocidade lenta que permite a serenidade. E nisto em acordo com o que Asbjørn Andresen descreve, na supracitada apresentação: «É como inspecionar uma gruta em busca de uma nascente oculta, e o som da água que corre é claro, mas o caminho para a nascente está apagado e encoberto na escuridão da gruta. Somos idealistas e, na nossa condição de idealistas, falíveis; o caminho é errante e exploratório; grandiosos são, portanto, os momentos de unânime claridade e unidade, a exatidão e o lugar “auto-evidente” da arte no espaço» (Andresen, 2015: 7).

A deslocação demorada que se sente, em cada performance, através da velocidade relentada da passagem de imagens e sonoridades, enquanto mediações sensíveis da arte, ajuda a fazer uma imersão mais profunda no tempo e nos lugares, na sua complexidade idiossincrática. Tal demora, como que habitada por instantes e detalhes, nutre uma assunção emocional, com ressonâncias existenciais. Desta forma, a audição é alimentada de silêncios, dos quais emergem ressonâncias das matérias, a revelar o oculto enraizamento dos lugares, nas camadas mais finas das suas ‘falas’ não verbais, em diálogo com os ‘ouvintes’ e ‘videntes’, que se reconhecem ao espelho. E no seu ritmo moroso, a introspeção passa a contemplar alargamentos paisagísticos, capazes de fazerem estremecer quem assim ouve e vê. Sem deixar de reconhecer-se, porém, num território cheio de inexplorabilidades. Enfim, adotada desde Koepnik, a estética ritmada pela lentidão é assumida como aporia em relação às acelerações vertiginosas da vida contemporânea, nas quais os humanos são capturados através do desejo da imediata retribuição e de uma cegueira dos sentidos, enquanto janelas da sensibilidade.

[Lentidão do reflexo de uma lamparina na Capela Árvore da Vida. © Joaquim Félix]

 

Nesta prática artística, há dimensões que emergem para a atualidade, com pertinência surpreendente, sobretudo para quem atenta à multissensorialidade, conforme a explorou, por exemplo, Juhani Pallasmaa, no campo da relação entre a arquitetura e os sentidos (cf. Pallasmaa, 2005). Elas hão de ler-se, também, na sequência da publicação que Frederico Dinis fez, em 2022: Caderno de representações da memória. Da aproximação ao site-specific à (des)construção do sentido de lugar. No trabalho agora publicado, a ler na sequência de uma prática artística já bem sustentada, sobressai a possibilidade de ditar poéticas sonoras e visuais dos lugares religiosos, com esplendorosa (verdade e bondade combinadas) estética teológica muito pouco explorada. Quem usufrui desta qualidade estética pode, a seu modo, ver-se iniciado num caminho outro de vivência das realidades religiosas, em função dos espaços ‘dedicados’. Mas, também, e como em pontes, transportado para valores e experiências sem precedentes. Para, depois, dar-se ao tempo da mistagogia, com iluminações a jusante, que explora o que viu quase nas trevas, nas atmosferas que assinalam as luzes, os sons e os silêncios da experiência da crença, até da transcendência da matéria, em grande parte ‘escura’, noturna, pós-crepuscular, auroral.

[Atmosfera noturna na Capela Árvore da Vida, com Frederico Dinis. © Joaquim Félix]

 

Da memória: performance da anamnesis à poíesis

Tendo presente a performatividade da memória, cujo âmbito de reflexão é explorado na prática artística, ocorre valorizar uma analogia que se vislumbrará desde a práxis litúrgica. Até porque as artes podem ser consideradas, também, a partir da sua dimensão litúrgica intrínseca, conforme é refletida por Frederico Dinis, noutros trabalhos (Dinis, 2023), de modo especial no Caderno de representações da memória (Dinis, 2022); em sintonia, aliás, com vários autores, entre eles, João Manuel Duque, em «Ritualidade da arte: performatividade da memória» (Duque, 2018).

A analogia poderá fazer-se com a anamnética. Concretizemos. A ‘anamnese’, que sucede nas peças litúrgicas, nomeadamente eucológicas (literatura oracional), conecta-se com a memória. Desde a filologia, tendo presente a sua raiz grega, que, por sua vez, corresponde ao termo hebraico ‘zikkaron’, o seu significado relaciona-se com o memorial, algo que é comemorado ou objeto de recordação. Nestes sentidos, a memória não é convocada apenas na sua dimensão subjetiva, mas sobretudo em ordem a atualizar a realidade, ocorrida uma única vez e para sempre (ephápax) no passado, através da prática ritual, e a fazer participar do seu influxo salvífico os participantes. Esta ‘estratégia’ eucológica e ritual, que ocorre performativamente na memória, não se dá só nas orações eucarísticas. Ela está presente, sim, nas orações judaicas, cuja tradição construtiva a liturgia cristã herdou. Jamais uma eucologia, breve ou prolixa que seja, avança para a súplica (petitio), sem antes elaborar vários motivos memoráveis, em sintonia com o que se pretende. Essas memórias são o ‘combustível’ que gera a esperança, a plausibilidade do atendimento. E, deste modo, alavancada na memória, a anamnese projeta-se para o futuro, antecipando-o no presente.

[A expansão dos lugares através da prática artística da performance. © Joaquim Félix]

 

Frederico Dinis explora antecipadamente os três lugares religiosos e, com a sensibilidade que lhe assiste, colhe vários registos, sobretudo visuais e auditivos, que a sua memória apreende com os sentidos do corpo. Hauridas em permanências e deslocamentos, as suas memórias não correspondem a uma colheita racional de informações tópicas, de forma a reproduzir experiências estáticas, como na ‘rememoração nostálgica’. Antes, concebem-se como ‘matéria anamnética’, capaz de produzir a expansão dos lugares, através da prática artística da performance, promovendo o seu alcance semântico, na perceção corporizada (senciente), quer pelo sentido de pertença a fruir na hospitalidade, quer pelas deslocações que convocam a imaginação. Tal imersão nos lugares religiosos, ao mesmo tempo, na sua imanência e transcendência, catapulta os seus ‘habitantes’ para se sentirem mais quem são, na sua identidade única, na relação comunitária, onde mais podem ser, através das experiências somático-emocionais e espirituais profundas.

Neste enquadramento, pergunto: Os motivos ‘memorados’ na anamnese da performance, na qual Frederico Dinis é ‘sacerdote-poeta’, constituirão uma ‘para-liturgia’ artística capaz de gerar, através da sua poética sonora-visual (ditada em ‘proposição’), experiências de criação po(i)ética nos participantes imersos nos lugares? Por certo. Eis o mistério da performatividade da memória! Ao que aclamamos: «Neste sítio amável, a memória recr(e)ia-se ‘cordialmente’».

 

Da prática artística: memórias e experiências

Com a realização destes três projetos Site-specific, Frederico Dinis contribui decididamente para um mais amplo e contextualizado conhecimento científico, gerado através da prática artística ao vivo, em linguagens não verbais, haurindo contributos de assegurada relevância para a teologia e os estudos da religião. O que ele faz, note-se, em interface com uma atenta fenomenologia da ritualidade-ubiquidade para-litúrgica dos lugares religiosos, no caso de duas capelas e uma igreja, em geografias urbanas, com o uso ‘calibrado’ da tecnologia. De facto, este recurso não se reduz às aplicações técnicas, numa espécie de ‘suprematismo’ da máquina, desvalorizando a ação do humano, que, antes, a aciona e orienta em função de princípios e objetivos.

[Quem não se deliciará na ‘veia haicaísta’ de Frederico Dinis? © Joaquim Félix]

 

Tendo participado em duas das performances audiovisuais, nas capelas ‘Árvore da Vida’ e ‘Da Imaculada’ ― a terceira, S. Martinho de Cedofeita, acompanhei-a por documento póstumo ―, posso garantir: elas exploraram estéticas alternativas, com ímpares inovações que tocam o descentramento do corpo performativo, expandindo-se por paisagens sonoras capazes de serem assumidas como criações de atmosferas ‘religiosas’, inclusive na sua ‘onírica’ poemária. Quem não se deliciará na ‘veia haicaísta’ a ditar assim: «No alento da existência/ a transversalidade da harmonia/ Uma humanidade no recolhimento»; «Na descontinuidade da carência/ a expectativa de uma ausência/ Um fragmento de melancolia»; «No íntimo do apego/ uma sombra de determinação/ A quietude vulnerável», a irromper na lentidão das imagens e sonoridades?

O poder da imaginação ativava dimensões da memória, inclusivamente futura, como quem acolhe reverberações de valores adventícios. O efémero pode ser vivido como lugar de trânsito, reconduzindo-nos, através da memória em construção, a uma espécie de ‘senciência’ religiosa. A performance, jogando com certos anti-lapsos (admitindo os lapsos) da memória como anamneses litúrgicas, atinge a sensibilidade em ecos de fundo cosmovisional. E permite a fruição do silente rumor de presenças atingíveis pelo som na produção in loco. E, sempre in loco, há como que uma saída, peregrinação ou longínqua viagem, para o limiar fronteiriço do tempo-espaço, naquilo que Frederico Dinis assinala como «a transgressão espacial e a construção de um eu espacial».

[Frederico Dinis na Capela da Imaculada © Joaquim Félix]

 

Da análise dos três trabalhos, numa tríade complementar ― inserir mais, pergunto, não seria cair numa ‘demasia’? ―, em termos de sequência da linguagem dos lugares selecionados, é possível apreciar o respeito por cada um deles, sem pensar num conceito que logo se aplica sem mais. Assim, no caso da Capela Árvore da Vida, o trabalho investe na morosidade da espera e do eco, sem urgência de uma paisagem visual em projeção. Daí a escassez, mas que tem tanto de vastidão, dos elementos gráficos, quase só sentenças de teor sapiencial, duma nova hagiografia. É dessa demora que, pela atenção corporal, a existência se alenta, e a harmonia assume a sua obliquidade, como humanidade que se recolhe a essa hospitalidade, inclusive de silêncio vital. Por sua vez, na capela da Imaculada, num apelo novamente modulado pela lentidão, é o vagar que agrega e contém. A carência assume-se na sua descontinuidade e gera a expetativa que nasce da ausência, do que ainda não é, mas poderá vir a ser, a partir da melancolia dos fragmentos. Demora que, na igreja de S. Martinho de Cedofeita, é a tónica da ‘procura’ até ao ‘encontro’. Até mesmo de quem parte do íntimo da sombra, por uma quietude vulnerável.

[Capela da Imaculada. Mapa mental / guião conceptual © Frederico Dinis]

 

Todos os trabalhos são apresentados através de guiões conceptuais, em esquemas gráficos claros, que muito auxiliam, não só a fazer a hermenêutica das criações, mas sobretudo a torcer os fios da ‘corda’ que dá maior consistência à leitura, pela qual se faz a colheita das narrativas, ou um adentramento nelas. Para esta releitura, colabora o álbum de fotografias a preto e branco, selecionadas em função de uma ‘estética do vislumbre’ crepuscular-noturno.

 

Relentalizar: pela escada em espiral e na barca

De 22 a 30 julho do ano 2023, sucedeu algo que reúne as cateterísticas das memorabilia, no sentido em que é um evento digno de ser para sempre constante à memória mais agradecida. Nessa semana, ocorrendo os «dias nas dioceses», antecedentes à realização da Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa, decidiu o Seminário Conciliar de Braga, juntamente com Frederico Dinis, proporcionar aos jovens a experiência das três performances audiovisuais num só lugar, concretamente, uma no corredor do rés-do-chão e duas no vão das escadas em espiral, que dão acesso aos pisos do Seminário. Além disso, a fruição poderia ser feita por qualquer pessoa, o que sucedeu com muitos turistas. Ao todo, terão usufruído da exposição mais de 2000 visitadores.

[Jovens a contemplar uma das performances durante a exposição em julho © Joaquim Félix]

 

«Relentalizar» foi a titulação com que Frederico Dinis batizou a iniciativa. O que mais surpreendia nos jovens, que andavam com o hino das JMJ nos lábios, cantando «Há pressa no ar», era a forma como fruíam das três instalações videográficas (gravações das performances realizadas nas capelas Árvore da Vida e Da Imaculada, e na igreja de Cedofeita). Todas elas, refira-se, ao som de uma performance musical, acentuadamente lenta, única neste caso. Sentados nos degraus e até no chão, o silêncio deles sobressia espontaneamente. E a atenção era patente nos seus olhares sem ruído. Em sintonia com o parágrafo em epígrafe, colhido na obra Vita Contemplativa, da autoria de Byung-Chul Han, depreendia-se como esta real «inatividade» exibia neles a sua própria linguagem, magnificência e magia. Sim, surpreendia a intensidade com que se viam imersos no que viam e ouviam, nessa «forma esplendorosa da existência humana» (Han, 2023: 11), que, por esses minutos, brilhava sem se empalidecer.

A meio das escadas, todos os visitadores adentravam-se na Capela Árvore da Vida. E, aí, era possível senti-los a ‘jogar’ e a ‘viajar’, pelos andamentos assinalados por Frederico Dinis nos «subtemas» com que, no respetivo ‘guião conceptual, desdobrou este lugar. Socorrendo-me de palavras ‘imparafrásicas’, que testemunham o que neles via, gostaria de fazer uma longa citação, porque, assim estou persuadido, apropriada e em sintonia com as conclusões de Frederico Dinis. São neste caso, da autoria de Ugo Rosa, de Caltanisseta (Sicília), que escreveu um artigo sobre esta capela, publicado na revista Divisare, com fotografias de Santo Eduardo Di Micheli (Rosa 2012). Ei-las: «Na imagem (banal, dou-me conta, e, todavia, inevitável …) da barca e, juntamente, da cabana, nós avistamos a arca e, com o seu espaço fechado, mas, ao mesmo tempo, viajante, a possibilidade de estar e de andar ao mesmo tempo: isto é o híbrido fascinante, esta é a aporia móvel entre viajar e habitar. E pergunto-me: que outra coisa é o rito, que coisa é a liturgia, senão este reviver tempos e espaços diferentes, este encontrar-se aqui, habitadores, e, todavia, noutro lugar, viajantes? Que coisa é o rito, senão esta possibilidade de mover-se (de jogar) num tempo e num espaço que, permanecendo, todavia, contíguos ao tempo e ao espaço «de fora», não são, todavia, aquele tempo nem aquele espaço, mas um outro tempo e um outro espaço? A liturgia não esconde, aos meus olhos, o seu estatuto lúdico, mas mostra-mo excedido numa autenticidade que não exige a caução do real (deste real). A liturgia é, noutras palavras, autenticidade que passa sem o visível: o pão é pão, o vinho é vinho e, todavia, num sentido mais autêntico, embora menos visível, o pão é o corpo, o vinho é o sangue. Eis como a liturgia nos (e se) coloca em jogo: entrelaçando visível e invisível, no horizonte de uma autenticidade que não tem necessidade daquele real com que o adulto condescende supinamente» (Rosa 2012).

[Jovens, durante a exposição, viajando na barca-capela © Joaquim Félix]

 

Memória endográfica

A ampla base de investigação, precedente e, de novo, neste projeto praticada, permitiu a Frederico Dinis, num quadro de alargamento das várias áreas científicas e artísticas, prosseguir em ordem a explorar iniciaticamente os lugares religiosos, na sua relação com o diverso ‘modular/declinar’ das representações da memória. Pelo que, com agrado e desafio, a investigação realizada se cruza com várias das linhas de investigação do CITER. Por certo, fazendo-se em interface, cada vez mais em regime aberto e de valorização mutual, com as áreas da Teologia e dos Estudos da Religião.

Sugeria, por conseguinte, que, dentro das possibilidades, se desse maior visibilidade a esta modalidade de investigação, quer a nível dos canais do CITER, quer na mais que justa divulgação, a fim de que mais interessados possam beneficiar deste tipo de trabalhos. Sem pensar que somente a abundância de público, ou de leitores, será o índice da sua plausibilidade e pertinência.

Por fim, não poderia terminar sem agradecer, com um «bem-haja», ao seu autor, Frederico Dinis, bem como ao CITER e às instituições que patrocinaram esta publicação, na Universidade Católica Editora, através do mecenato.

[Atmosfera noturna na igreja de S. Martinho de Cedofeita © Joaquim Félix]

 

 

Referências

. Andresen, A. (2015). Os nossos ouvidos foram cegos, a serenidade do espaço que não vemos. Reflexões acerca de uma metáfora de Juhanni Pallasmaa, In Dedicação Capela Imaculada. 6 dezembro 2015, Braga: Diário do Minho. Guião Litúrgico.
. Dinis, F. (2020). Sensações sinuosas e emoções hipnóticas: performance sonora e visual na contemporaneidade (Tese de doutoramento). Coimbra: Faculdade de Letras. Universidade de Coimbra.
. Dinis, F. (2022). Caderno de representações da memória. Da aproximação ao site-specific à (des)construção do sentido de lugar. Coimbra: Frederico Dinis.
. Dinis, F. (2023). Performativity of the memory of religious places through sound and image. Religions, 14 (9),1137. 
. Duque, J. M. (2018). Ritualidade da arte: Performatividade da memória. REVER, 18 (1), 11-30.
. Han, B-Ch. (2023). Vita Contemplativa. Lisboa: Relógio D’água Editores.

. Koepnick, L. (2014). On slowness: Toward an aesthetic of the contemporary. New York: Columbia University Press.
.
Pallasmaa, J. (2011). Os olhos da pele. A arquitetura e os sentidos. Santana (Porto Alegre): Bookman Companhia Editora.
.
Rosa, U. (2012). Cerejeira Fontes Architects. The Tree of Life Chapel. Acedido a 22 de novembro de 2023. 

 

Para quem desejar saber mais sobre o trabalho de Frederico Dinis, pode aceder ao seu Blogue.

Título: A Performatividade da Memória em Lugares Religiosos
Autor: Frederico Dinis
UCP Editora

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens.

 

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